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Arrastão dos blocos em São Paulo
Foto: Sergio Silva

 

Por Solange Engelmann
Da Página do MST


Se você acha que carnaval não combina com luta política, ativismo social e protestos contra a opressão contra a classe trabalhadora, se enganou! 


Após o golpe de 2016 contra a democracia, a retirada de direitos, como os trabalhistas e o avanço da repressão contra os trabalhadores e movimentos populares no Brasil, o carnaval se transformou em um irreverente e divertido momento de resistência, denúncia e protesto.


Uma das principais festas da cultura popular brasileira, o carnaval está sempre em movimento. Um movimento que se reinventa e se ressignifica mesmo diante da conjuntura política do país.


Pelos cantos, ruas, vielas e becos os blocos arrastam multidões e os foliões aproveitam o momento para protestar contra a política de repressão que vem sendo imposta às trabalhadoras e aos trabalhadores pelo “desgoverno” Bolsonaro.


Para o jornalista e integrante do bloco do 'Samba do Peleja', de Brasília, Marcos Urupá, o carnaval é uma forma de liberdade de expressão. Um momento usado para que as pessoas, a partir da irreverência de suas fantasias e atitudes, externem seu protesto.


“É necessário que existam blocos de resistências no carnaval. Inclusive, é importante observar como o carnaval se tornou um polo de resistência. A cultura de uma maneira geral, sempre foi resistente”, observa Urupá.

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Bloco Samba do Peleja pelas ruas de Brasília
Foto: Bia Barbosa


Em governos repressores a cultura, geralmente é um dos primeiros elementos que sofre ataques, a exemplo do Brasil, em que Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura, alegando a necessidade de corte de despesas. Ou seja, o estimulo à cultura é somente visto como gasto.

 

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Bloco Doido é Doido', João Pessoa-PB
Foto: Divulgação


Urupá afirma que nos últimos anos vários blocos têm somado junto às causas conjunturais do país. O estudante de teatro e servidor público, integrante do 'Doido é Doido', de João Pessoa-PB, Marcos de Araújo, considera isso um avanço e também chama atenção para algumas escolas de sambas que têm atuado na ressonância da luta popular, como é o caso da Paraíso do Tuiuti do Rio de Janeiro, que no desfile de 2018 denunciou o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff e os ataques aos direitos trabalhistas.


Com o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão!”, ano passado a Tuiuti levou para avenida um vampirão com faixa presidencial, em referência ao governo ilegítimo de Michel Temer. Esse ano a previsão é de laranjas na avenida.


O carnaval também é parte da cultura negra e funciona como instrumento de resistência e mudança social. A ativista cultural e integrante do bloco Afro Angola Janga, de Belo Horizonte-MG, Nayara Garófalo, argumenta que desde que foi criado a proposta do grupo voltou-se para a luta contra o racismo.


“Nosso objetivo, continua o mesmo desde a fundação: unir as pessoas numa luta antirracista e por políticas de igualdade racial, de gênero, de sexualidade e de classe", afirma Nayara.


“No carnaval de rua, o gostoso é ver como o povo traduz suas angustias e revoltas em fantasias. Tratando dessas temáticas de maneira artística e irreverente, associada a organização popular. O povo vai para o carnaval se divertir, mas, também para lutar por um mundo melhor”, afirma o estudante e servidor público, Araújo.


Protestos


Lula Livre: 


Diversos blocos homenagearam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que segue arbitrariamente preso há quase um ano. Além disso, foi montado e disponibilizado para impressão, um kit oficial "Lula Livre" completo, com marchinhas, adesivos, máscara e tatuagem. Para baixar o kit completo, clique aqui.   


Em terras nordestinas:
 

Esse ano o tema do bloco 'Doido é Doido', de João Pessoa, na Paraíba, é: “Doido é Doido - Apesar de tudo!”. O bloco prestou homenagem à ex-vereadora do Psol e ativista Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro, em 14 de março do ano passado, ao motorista Anderson Gomes e ao artista e integrante do MST, Zé Guilherme.


O bloco que sai no carnaval há 12 anos é organizado por amigos e amigas que atuaram e atuam no movimento estudantil. Araújo, integrante do bloco, explica que o nome surgiu a partir da conotação negativa dos adversários políticos, que taxavam os integrantes do movimento estudantil de doidos e doidas. “A gente gostou e assumiu a identidade. Pois, de fato, somos todos doidos e doidas por uma sociedade justa, igualitária e feliz”.


Na terra da garoa:


Em São Paulo, o Arrastão dos Blocos, um coletivo político-carnavalesco que representa cerca de cem blocos e existe desde 2016, lançou um manifesto sobre a “domesticação” do carnaval de rua paulistano.


O manifesto expressa a indignação dos blocos frente a uma tentativa de domesticar o carnaval de rua na capital de São Paulo. A integrante do bloco Vai Quem Qué e membro do coletivo, Lira Alli, afirma que podem inventar leis, proibições e colocar a polícia, mas isso não irá impedir a manifestação da cultura popular e o carnaval construído, comunitariamente pelos blocos.


O coletivo surge durante o golpe de 2016, contra o governo Dilma, com a proposta de organizar os grupos de carnaval de rua na defesa da democracia. “O Arrastão dos Blocos, nasce justamente dessa necessidade que a gente tem das demandas políticas influenciarem o carnaval”, explica Lira.

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Nas Minas Gerais:


O tema do cortejo deste ano do bloco Afro Angola Janga, de Belo Horizonte-MG é: Ouro Negro: Resistência do Povo é Beleza; a integrante do bloco e ativista cultural, Nayara Garófalo, explica que nesse momento de preocupação com a conjuntura política e social no país, a intenção é relembrar a resistência do povo negro, ao longo dos séculos.

“Queremos passar a mensagem de que unidos e conhecendo nossa história, cultura e nossos pensadores seremos capazes de superar tempos como este. O Angola Janga celebra a beleza de ser e a força de quem nós somos, através dos atos de resistência dos nossos antepassados e dos nossos contemporâneos”, conta Nayara.


Angola Janga foi fundado em 2015, por Nayara Garófalo e Lucas Jupetipe, com objetivo de combater o racismo e a segregação racional, diante da percepção acerca do embranquecimento e da segregação do povo negro no carnaval de BH.


“Tocávamos em vários blocos e percebíamos que, muitas vezes, éramos os únicos negros, e que ninguém falava sobre as origens da cultura carnavalesca, seus ritmos, músicas e instrumentos, que são a cultura negra. A partir daí, pesquisamos muito sobre nossos mais velhos, principalmente o Ilê Aiye, primeiro bloco afro do Brasil”,
ressalta Nayara.


Hoje o grupo possui 150 integrante e também realiza trabalho social. Ano passado organizou o primeiro cursinho de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que atendeu gratuitamente 70 alunos, entre 16 e 70 anos, contribuindo para o ingresso de várias pessoas nas universidades.


O bloco Angola Janga desfila pelas ruas no dia 3 de março, às 16h, na Av. Amazonas, esquina com São Paulo, em Belo Horizonte. O bloco também toca no Kandandu - abertura oficial dos blocos afro de BH, no dia 01 de março, a partir das 18h.

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Bloco Angola Janga, BH.


Direto da capital federal


Já o bloco de Samba do Peleja, de Brasília, que funciona como bloco de samba há dez anos e como bloco de carnaval há sete, tem como tema este ano "Pelejar e Resistir”, numa tentativa de colaborar com a resistência política no país.


O grupo foi criado com objetivo de ocupar as ruas da cidade com uma pauta conjuntural, que reflita e paute no carnaval os direitos das pessoas: mulheres, homens, LGBTs, entre outros.


A jornalista que também integra o Samba do Peleja, Mayra Lima, explica que o bloco faz oposição firme e expressa de várias formas.


“Carregamos a resistência no nome, nas nossas expressões corporais, na música, na escolha do repertório. Onde sempre é feita menção ao feminismo e ao combate ao racismo... nos tornamos uma referência na cidade, de um bloco politizado que está ao lado dos trabalhadores e das pautas humanistas e progressistas”, finaliza.