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Foto: Juliana Adriano

 

Por Juliana Adriano
Da Página do MST 

 

A Sem Terrinha corre solta pelo acampamento. Com as mãos na lama faz bonecos de barro. Enquanto isso, o Sem Terrinha pega folhas da horta para tratar o coelho. Após a chuva, as sementes germinam nas hortas dos assentamentos e acampamentos, e as crianças florescem a brincar. Como elas mesmas escreveram na letra de uma das músicas que criaram: “Ser criança é ser feliz, pra ser feliz tem que brincar, pra brincar tem que sorrir, pra sorrir tem que lutar” (música Cantando com Sem Terrinha, que faz parte do CD Plantando Cirandas 3, de 2014).

 

“Bandeira, bandeira, bandeira vermelhinha, Educação do Campo para todo Sem Terrinha”.

 

Desde pequenas, as crianças Sem Terrinha aprendem que para vivenciar seus direitos é preciso lutar. De Norte a Sul ouvimos relatos de crianças que sofrem preconceitos por serem acampadas, seja pelo cheiro de fumaça nas roupas ou pelo barro nos sapatos, enfim, por marcas da luta pela terra. É preciso lutar por terra, por moradia, por escola, por saúde, por comida sem veneno, pelos direitos que deveriam ser básicos a todos os cidadãos.

 

As crianças aprendem com os adultos, mas também ensinam. Certa vez um menino pernambucano marchava com os chinelos debaixo do braço, disse que fazia isso porque queria saber como era para seu pai marchar. Em outra situação, uma menina paranaense explicava a certos adultos que não era preciso colocar veneno nos alimentos da horta, pois na escola as saladas já estavam gigantes e as próprias crianças tinham feito caldas e cuidado das plantas. Em outro momento uma menina maranhense lê a carta de reivindicações ao governador, quando termina todas as crianças do auditório se levantam e com o braço esquerdo erguido gritam: “Bandeira, bandeira, bandeira vermelhinha, Educação do Campo para todo Sem Terrinha”.

 

Criança, presente!

 

As crianças estão presentes no MST desde o princípio, desde o primeiro acampamento em 1985. E elas se deram o nome de “Sem Terrinha” no seu primeiro encontro no Rio Grande do Sul, em 1994. A integrante do setor de Educação do MST, Maria Isabel Grein, afirma que os Sem Terrinha tem o que anunciar, tem o que denunciar da criança da classe trabalhadora.


As crianças estão presentes no MST desde o princípio, desde o primeiro acampamento em 1985.


“Desde a busca pelo direito a educação, até a questão da terra, porque a terra não é só pra família, pros pais dela, mas a terra é um patrimônio que os pais vão conquistando na luta e sempre na luta, que a criança faz parte desse momento, junto com a família, com a comunidade, com os Sem Terra que aglomeram e vão junto conquistar aquele pedaço de terra”, explica.


Segundo Maria Isabel, para o Movimento a criança é hoje um ser social que tem a sua autonomia, que tem o direito de se organizar, de auto-organizar-se como criança e ir construindo os seus espaços dentro da própria organização.


Construindo espaços


Deusamar Sales Matos, do setor de Educação do MST no Pará, informa que na região Sudeste do estado é onde ficam os maiores assentamentos e acampamentos, e que cada um deles tem uma escola. “Então a escola tem sido pra nós um espaço de construção do conhecimento, mas também um espaço de cultura”. [...] “É tanto que quando nós vamos selecionar as crianças pra participar das atividades da Jornada dos Sem Terrinha, o nosso primeiro contato é a escola”.


“Para o Movimento a criança é hoje um ser social que tem a sua autonomia, que tem o direito de se organizar, de auto-organizar-se como criança e ir construindo os seus espaços dentro da própria organização”.


Em uma dessas Jornadas, os Sem Terrinha decidiram que se os adultos elegem seus coordenadores por regiões e setores, as crianças também deveriam ter seus representantes eleitos. Iacia Beatriz Ferraz Moura que foi eleita como uma de suas representantes em 2017 – há pouco completou 13 anos, participa da Jornada dos Sem Terrinha desde os seis anos –, afirmou que “representar os Sem Terrinha pra mim é muito importante, a gente receber as tarefas e cumprir e saber que isso vai servir de aprendizado para mim e para eles”.


Processo pedagógico


Os Encontros dos Sem Terrinha costumam ser sínteses do que se busca construir junto às crianças. No caso de Pernambuco, Rubneuza Leandro de Souza, (do Setor de Educação do MST) aponta que são trabalhadas as dimensões pedagógica, lúdica e política. A dimensão pedagógica vem desde a concepção da temática, do trabalho preparatório junto às crianças e durante a atividade. A dimensão lúdica perpassa a ornamentação, as oficinas, as vivências.  

 

A própria marcha, que também é parte da dimensão política, é construída com elementos lúdicos, pois a temática escolhida vira alegoria e “a caminhada é organizada por alas, e essas alas trazem a temática que foi debatida durante o processo. Então a caminhada, além do colorido, além da temática, ela traz a dimensão da luta desde as crianças”.


Outro elemento da dimensão política é o momento de negociação junto aos órgãos públicos, onde as crianças “sentam com as autoridades”. E o mais bonito é como elas trazem as questões para as autoridades, com conhecimento de causa, com firmeza na voz, com postura e esses elementos.

 

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Foto: Juliana Adriano


Encontro nacional


Em 2018, completou-se 24 anos do primeiro Encontro das Crianças Sem Terrinha, e em julho deste ano aconteceu o primeiro Encontro Nacional. Márcia Mara Ramos, integrante da coordenação do encontro afirma que umas das principais expectativas com o encontro era ouvir. “O que as crianças têm a nos dizer? O que elas pensam? O que elas querem? Como elas querem a organicidade do Movimento, pensando desde a infância?”.

 

“Então a escola tem sido pra nós um espaço de construção do conhecimento, mas também um espaço de cultura”.

 

Porque o MST sendo um movimento nacional, que ousa, nesse momento histórico, nessa conjuntura, proporcionar que crianças de todo o Brasil se encontrem, precisa incorporar o que dizem as crianças no seu processo constante de reinvenção. 


Durante o ano de 2017, segundo Márcia, foram mais de 10 mil crianças envolvidas para discutir o encontro nacional, fazendo atividades nos acampamentos, nos assentamentos, nas regiões, estados. Em julho de 2018, segundo ela, mais de mil Sem Terrinha estiveram reunidos em Brasília, discutindo a pauta que faz parte do conjunto do Movimento, que é principalmente o debate sobre os direitos e também o tema da alimentação saudável.


Assim, em meio a encontros e elementos do cotidiano, os Sem Terrinhas, filhos e filhas da lona preta, herdeiros da luta pela terra, seguem no presente, ajudando a construir o futuro. E como nos diz João Pedro Casagranda Nascimento, de seis anos de idade, que vive no Assentamento Che Guevara em Passos Maia (SC), “ser Sem Terrinha é brincar, estudar, ir pra escola, comer coisa sem veneno, comida, arroz, feijão, cuidar da natureza, brincar com os amigos, é tudo de bom”.



* Publicado originalmente na Revista Especial Pedagogia da Terra

_ Edição: Nilton Viana