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Por Ayala Ferreira* 
Da Página do MST

 

Neste sábado (22) completam-se trinta anos do assassinato de Chico Mendes. Em alusão a essa data se realizaram muitas homenagens e formas de reafirmar o legado e a memória de luta desse caboclo amazônico, que cedo compreendeu seu papel diante da vida, da luta pela preservação da floresta e por condições mais dignas aos sujeitos que nela vivem e reproduzem sua existência. 



Essa atitude diante da vida permitiu o meu encontro com Chico Mendes. O ano era 1989, quando acompanhei sem compreender a decisão de que a partir daquela data minha escola se denominaria “Chico Mendes”, em substituição ao nome do general Euclides Figueiredo. Até aí sem grandes significados a não ser pelas mudanças estruturais na escola pública que se encheu de embelezamento os olhos da menina estudante. 



Os letreiros da Escola Municipal Chico Mendes vieram acompanhados de uma nova pintura em branco, com traços de um verde intenso que tão harmoniosamente se fundiu ao verde da imensa sumaúma que crescia majestosamente no pátio da escola, ao som das vozes e brincadeiras das crianças, meninos e meninas dos bairros periféricos de uma pequena cidade amazônia.  



Anos mais tarde, na militância política dos movimentos sociais compreendi o significado daquele nome e conheci o legado de Chico Mendes. E um imenso orgulho se pôs em meu coração. As caminhadas pela floresta forjaram um Chico Mendes ambientalista, sindicalista e político que com a consciência de classe, se colocou a serviço dos povos da floresta. 



Como afirmou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva “Ele – Chico Mendes -, acabou juntando numa só bandeira a luta ecológica, a luta sindical e a luta partidária”. O legado desse Chico Mendes múltiplo que buscamos resgatar.



O ativismo político de Chico Mendes nos remete a um período de profundas transformações do espaço agrário amazônico, transformado a partir dos anos de 1960 em uma nova fronteira de expansão do Capital. Os governos militares em aliança com o capital privado consolidaram uma lógica desenvolvimentista de mercantilização da terra e dos bens da natureza e de confronto contra os povos da floresta. Deixando um rastro de destruição da biodiversidade e de assassinatos de trabalhadores e trabalhadoras da Amazônia.



Esse contexto permitiu com que Chico Mendes compreendesse que a luta em defesa da floresta era a luta em defesa dos sujeitos da floresta. Seu esforço foi fazer com que indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, camponeses e extrativistas se unissem para enfrentar inimigos que atuavam articuladamente como madeireiros, latifundiários, mineradoras, petroleiras e corporações transnacionais de biotecnologia, estes a serviço do grande capital. A consciência coletiva adquirida através dos anos, possibilitou a criação dos sindicatos dos trabalhadores rurais e posteriormente o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS). 



A partir desses instrumentos Chico Mendes e seus companheiros e companheiras empreenderam as mais variadas formas de luta e resistência na região amazônica. Da tática do “empate” para enfrentar a grilagem e o desmatamento das florestas, à luta pelo direito a educação do campo, organizando a primeira escola de formação denominada “Wilson Pinheiro”, em homenagem ao companheiro sindicalista assassinado em 1980. 



Porém o principal papel exercido por Chico Mendes foi de internacionalizar a luta dos povos da floresta, escancarando aos olhos do mundo as dificuldades que estes sujeitos guardiões da biodiversidade enfrentavam para terem seus direitos efetivados. Chico Mendes foi longe, questionou com firmeza os financiadores dos projetos do capital na Amazônia. Suas reflexões e a prática militante resultou em vários reconhecimentos como o Prêmio Global Quinhentos, de Preservação Ambiental das Nações Unidas e a Medalha da Sociedade para um mundo melhor em Nova York. 



Justamente, por ter ido tão longe, Chico Mendes foi silenciado – sendo assassinado no dia 22 de dezembro de 1988, no quintal de sua casa, em Xapuri (Acre).



Ao longo dos anos as disputas se intensificaram. As pessoas continuaram sendo assassinadas, os territórios destruídos e a causa ambiental e social sendo paulatinamente deslegitimada pelos interesses privados. Não bastasse, as recentes declarações e nomeações do novo governo de Bolsonaro acenam para um quadro que tende a se agudizar e contra esse estado de coisas devemos ficar atentos e resistentes. 

 

No entanto, não pretendo encerrar com o pessimismo do tempo presente. Reivindico e compartilho o Chico Mendes irmão da solidariedade e da utopia, que apostava no poder transformador da juventude. A eles dedicou o seguinte bilhete “Atenção jovens do futuro! 06 de setembro do ano de 2120, aniversário do primeiro centenário da revolução socialista mundial, que unificou todos os povos do planeta, num só ideal e num só pensamento de unidade socialista e que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade. Aqui fica somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte. Desculpem. Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos, que eu mesmo não verei, mas tenho o prazer de ter sonhado...”



Se pudéssemos responder, diríamos camarada Chico Mendes siga em paz, nos inspirando sempre! Aqui seguiremos como guardiões da biodiversidade, dos direitos e da vida, construindo no dia a dia, do tempo presente a sociedade do futuro!  



*Dirigente nacional do MST do Pará. 


 

*Editado por Solange Engelmann