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Ao homenagear Márcio Matos, o MST reafirma a necessidade de impulsionar as lutas. Foto: Cadu Silva

 

Por Izélia da Silva e Wesley Lima
Da Página do MST

 

Em homenagem a Márcio Matos, dirigente Sem Terra assassinado no dia 24 de janeiro, as atividades do 31º Encontro Estadual do MST na Bahia tiveram início, na manhã desta sexta-feira (14), no Parque de Exposições Agropecuária de Salvador.  


A programação do encontro se estende até a próxima segunda-feira (17) e tem como objetivo principal debater as perspectivas da luta pela Reforma Agrária Popular no estado, assim como, a educação do campo e o desenvolvimento da agroecologia. 


Cerca de 1.500 trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra, de dez regiões, participam das atividades.


Para Evanildo Costa, da direção nacional do MST, o Encontro acontece num momento importante da atual conjuntura brasileira. “É um momento da retomada de uma ditadura disfarçada, [...] com um presidente que não tem nenhuma proposta e não tem nenhum projeto para os trabalhadores, sendo eleito mediante um processo de mentiras e Fake News”.


E continua: “Nós do MST, pela a nossa importância em todo Brasil e em todo continente, por ser um movimento com 35 anos de história, com mais de 400 mil famílias assentadas e mais de 150 mil acampada, tem como papel refletir e tirar linhas políticas para poder nos juntar a outras organizações na luta popular”, pontua. 


Programação

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Ato de Abertura do Encontro Estadual.
Foto: Cadu Silva


Durante os quatro dias serão discutidos temas como a atual crise econômica nacional e internacional, os desafios da agricultura camponesa e o papel do trabalhador do campo na organização popular. Além disso, a programação prevê a realização de assembleias com as mulheres, os homens, a juventude e os sujeitos LGBT Sem Terra.


Violência no campo


Ao homenagear Márcio Matos durante todo Encontro Estadual, o MST na Bahia reafirma a necessidade de impulsionar as lutas na defesa da terra, mas também de denunciar toda forma de violência no campo que tem crescido nos últimos anos. 


Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), os conflitos no campo registrados no Brasil aumentaram de 1.217, em 2015, para 1.536, em 2016, o que representa um aumento de 26%. Desse total, 1.079 resultaram em violência. De acordo com a entidade, é a estatística mais elevada desde quando a pesquisa começou a ser feita, em 1985.


Do total de conflitos, 1.295 estão relacionados à luta pela terra, incluindo desde situações de despejo, ameaças e até os casos de morte. O número de assassinatos no campo foi outro destaque, tendo saltado de 50 para 61 no mesmo período, o que configura um aumento de 22%.


Sobre o desafio da luta e da organização dos trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra, Costa destaca: “Estamos lutando para evoluir o nível de consciência da sociedade e ao mesmo tempo fazer os enfrentamentos necessários para não deixar que essa direita perversa e fascista continue dominando a sociedade. Enfim, o encontro precisa ser uma base de reflexão coletiva e de resistência política”, finaliza. 

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Foto: Ademilton Lima


Confira o texto escrito em homenagem a Márcio Matos no Ato de Abertura do 31º Encontro Estadual do MST na Bahia.


"Não tive tempo para ter medo", bradou Carlos Marighela e assim dizia Márcio Matos, nosso Marcinho. 


Perdeu seu pai logo cedo, tendo que enfrentar a dureza da vida ao lado de sua mãe. Ele escolheu a luta de classes, ele escolheu o sonho revolucionário e foi abraçado pela luta e pelas famílias que fazem ela acontecer.


Aos 16 anos recebeu tarefa de coordenar uma brigada na região da Chapada Diamantina, em Iramaia, sendo o militante mais novo a assumir a tarefa de dirigente estadual do MST na Bahia. E assim, contribuiu para expansão do território e mobilização de famílias dispostas a plantar a esperança nas terras dos latifundiários na região.


A política em seu senso estrito e cuidar do bem comum, é uma atividade intrínseca ao ser humano, afinal o homem é um animal político. Marcinho tinha tino, um olhar aguçado para compreender a complexidade do mundo político as articulações que estavam nas entrelinhas desse jogo de interesse. Ele foi responsável pela vitória de vários projetos progressistas em cidades importantes e até então dominada pela elite local e a agora os trabalhadores têm prefeitos, vice- prefeitos e vereadores. Em 2020 teremos o prefeito de Ituberá graças a sua articulação.


Aos 18 anos de idade sua capacidade lhe levou a função de Dirigente Nacional do MST na Bahia, responsável pela condução da vanguarda de lutas da Bahia.


Os caminhos que a militância traça é um percurso sem volta. É um ato de amor. Nunca e nenhum porco capitalista irá ceifar a vida de um militante, porque a militância escolhe viver pela libertação do povo, subjuga seus anseios as necessidades da massa oprimida. A vida da militância é doada pela luta revolucionária, adubamos a tática com o nosso sangue se preciso for.


A militância não é suicida! Mas já alertou Gilmar Mauro: “Nosso movimento não forma covarde”. Não é a ameaça ou o tiro traiçoeiro que fará um militante recuar de seu sonho revolucionário!


Um companheiro que desde cedo soube como se virar sozinho. Amadureceu nas trincheiras das lutas, encontrou carinho e respeito nos braços do povo, cada acampado e assentado dessa Bahia mãe. Também ele encontrou pais, mães, irmãos e irmãs entre o povo. Deixou a base órfã de sua presença física, mas seu legado inspira a presente e as futuras gerações. Sua luta vai ser cantada, seu nome dará identidade a acampamento, gritos de ordem celebrarão a sua memória. Faremos justiça ocupando o latifúndio, fechando BRs e tudo que for necessário. Iremos romper a legalidade do estado burguês, mas nossos mortos viverão na  plenitude do povo livre, que inspirados em seu exemplo decidiu ser arquiteto de seu destino. 


24 de janeiro de 2018, aos 33 anos idade, assassinaram nosso dirigente Márcio Matos, carinhosamente Marcinho. Faleceu com a idade de Cristo, seguindo seu exemplo de lealdade aos seus valores e princípios. Morreu como Chê Guevara, com os olhos abertos, vendo além do óbvio como era sua especialidade. Viu o horizonte que não tarda a chegar.


Nossa militância não caminhara como gado para o abatedouro, ao contrário caminharemos como quem vai a guerra, o amor ao povo e a revolução é nosso estandarte, nossas foices, facões e enxadas serão os nossos instrumentos de trabalho e defesa. Plantaremos comida em cada palmo de latifúndio desse país, cobraremos vingança fazendo o gado dá lugar a feijão e milho o eucalipto vai entender que gente não come celulose. E, principalmente, a elite brasileira, raivosa e preconceituosa, que foi eleita em 2017, como a que mais matou defensores dos direitos humanos na América Latina, aprenderá que não se mata um militante. Pois os militantes escolherão doar suas vidas, tal qual as sementes que precisam morrer para da vida há uma floresta bonita e frondosa!


Márcio Matos seu legado não será esquecido. Sua luta não foi em vão. Adubaremos a floresta que seu sonho na forma de sangue irrigou, onde crianças livres colhendo os frutos para saciar a fome dirão: “Obrigado companheiro Marcinho. A Liberdade tem sabor inigualável”.