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Foto Igor de Nadai

 

Por Igor de Nadai 
Da Página do MST 

 

Numa sala de qualquer casa dos vilarejos de Acra, capital de Gana , no Oeste Africano, me estranhou absolutamente e instantaneamente ver na televisão um programa no qual o repórter vai às ruas da cidade, nos locais mais populares, conversar e escutar das pessoas o que pensam do país, quais são seus problemas e suas necessidades. Em seguida, num programa de entrevistas, uma apresentadora interroga um dos maiores pastores evangélicos do país, com perguntas que seriam inimagináveis de serem feitas aos pastores brasileiros. Minha surpresa se completara ao assistir nesta mesma estação, ao famoso documentário sobre as missões internacionalistas de Cuba nas lutas pela libertação do povo africano no década de 60. Cada uma destas situações é inimaginável para quem conhece os sistema televisivo brasileiro, e que há dois anos é realidade para
milhões de Africanos. Situada numa casa de porte médio num bairro de moradias de Accra, é que se encontram as instalações da TV PanAfricana, um projeto de iniciativa militante e popular, que tem abrangência em 28 países do continente Africano.


Conversamos com Kwesi Prat, diretor da TV e membro do Fórum Socialista de Gana.


Quando foi criada a PanAfrican TV e com quais objetivos?


Foi criada à dois anos atrás, não foi estabelecida como uma usual TV comercial, mas foi criada à partir da paixão pelo PanAfricanismo , da necessidade de dar aos africanos uma narrativa diferente de como a mídia tradicional trata a questão africana, como BBC , CNN, que focam em questões sensacionalistas e não prestam atenção às
demandas e aspirações das pessoas , não prestam atenção também à devastação ambiental causada pelas grandes companhias do mundo Ocidental , na rapinagem dos recursos naturais dos países africanos pelas transnacionais , e também não se importam com a exploração colonial que estes países causam aos países africanos. Portanto, a TV se propõe a ser uma alternativa à esta visão, e além disso, ser também a ser uma
televisão militante . Claro que não podemos competir com as principais mídias do mundo quando se trata de recursos financeiros, e, como operamos abaixo dos recursos, isso nos exigiu ser criativos para lidar com os limites estruturais. Por exemplo, quando se olha para nosso estúdio , ele está localizado em um quarto muito pequeno , mas a criatividade de nossos voluntários , que nunca haviam trabalho em um estúdio antes, nos permitiu construir um estúdio , a decorá-lo, sem contar com especialistas ou profissionais, o que nos economiza muito dinheiro. Hoje temos 80 pessoas trabalhando na estação , dos quais 90% deles são voluntários , ou seja, não têm salário, fazem pela paixão que tem pelo pan-africanismo. Ao longo destes dois anos, nos permitiu ser líder absoluto de audiência em 3 das 10 regiões de Gana e ainda este ano, fomos nomeados como o melhor canal de televisão do país. Hoje atingimos 28 países da Africa , com correspondentes em outros países que não temos transmissão, como por exemplo na Mauritânea , Estados Unidos, Africa do Sul e Zâmbia.

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Imagem Divulgação 


Como está estruturado a grande mídia comercial em Gana e no Oeste da África, e qual a diferença da proposta da PanAfricanTV e destas outras mídias?


Primeiramente, a mídia tradicional depende exclusivamente de propagandas para sobreviver, sendo que as empresas ditam o tipo de programas que querem que sejam transmitidos. Nós decidimos não depender das amarras das empresas , portanto isto nos custa muito sacrifício para sobreviver. Eu mesmo nunca recebi salário desta emissora, a mulher que dirige a televisão também não tem salário , as pessoas que fazem o programa da manhã também não tem salário , esforço este que nos permite não depender de propagandas. Ainda, decidimos não ter programas religiosos , que pagam uma valor muito alto para as estações de televisão para ter seus programas , que de modo geral, suas mensagens são um veneno para a mente das pessoas, fazem a consciência das pessoas adormecer, a não serem protagonistas de seus problemas, e então decidimos não depender deste tipo de dinheiro também. É isto que nos faz diferente, somos livres para produzir o que queremos, por que não somos dependentes de grandes anunciantes, como Coca Cola e outras. Por conta desta independência, ficamos conhecidos por ser a “estação de documentários“ de Gana , pois podemos exibir vários documentários, como por exemplo, o envolvimento de Cuba na libertação dos países africanos (Congo, Angola, Guiné Bissau), pelos avanços promovidos pelos governos Venezuelanos, dos panteras negras nos Estados Unidos, de Patrice Lumumba, portanto, temos um foco grande nos documentários históricos.


Kwesi, sobre o conceito do pan-africanismo, o que de fato é este conceito e como é utilizado pela estação?


É uma visão de mundo, é uma filosofia. Como vemos o mundo como africanos? Como entendemos o mundo como africanos? Quem somos nós? De onde viemos? Por que vivemos nestas condições e qual o futuro para Africa? Para uma visão mais profunda, Pan-africanismo também é socialismo , que é uma filosofia bastante criativa , e que para a aplicação do socialismo é necessária olhar para as condições específicas de cada realidade, para nós, africanos, não podemos esquecer do comércio transatlântico de escravos , de como isto impactou a realidade do povo africano , não podemos esquecer do clássico colonialismo e do neocolonialismo na era do imperialismo. Isto são condições históricas que determina quem somos nós. Também temos que olhar para história mundial, que não importa onde estejamos, fazemos parte da luta para acabar com o capitalismo, nós africanos somos parte desta luta. Nós também não podemos esquecer que mais de 50% das reservas naturais encontram-se na Africa, e qual a razão por haver tanta pobreza na Africa ? Precisamos explicar por quê, temos todos os recursos, ouro, ferro, florestas, rios, brilhantes seres humanos e somos pobres! Como pode?! Então ter estas respostas é parte da explicação de quem somos nós , saber por que estamos aqui e qual futuro nós queremos. Para nós, utilizamos a resolução do 5º Congresso Pan-Africano realizado em Manchester (ING) em 1945 , na qual Kwame Nkrumah era secretário , que chegaram na conclusão que o PanAfricanismo é estritamente ligado com a libertação do colonialismo, mas também estritamente ligado com a luta pelo socialismo .


Você comentou sobre o Imperialismo. Como Você sabe, desde 2009 os Estados Unidos vem operando os golpes e intervenções nos países com uma outra roupagem, com outros métodos. Para vocês, qual a face do imperialismo estadunidense hoje na África?

 

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Imagem Divulgação 

Os Estados Unidos nunca pararam de intervir nos outros países , não importa onde, seja na Ásia, Africa ou América Latina, se os países não servem os interesses dos Estados Unidos, então são passíveis de sofrer algum tipo de interferência estadunidense. No Chile, golpearam o então presidente eleito Salvador Allende, nos últimos 60 anos impõem um brutal bloqueio sobre Cuba , além de tentar sufocar ao máximo a Venezuela. No Congo, por exemplo, o ex-presidente Patrice Lumumba foi assassinado , tendo seu corpo dissolvido em tambores com ácido , portanto, as intervenções do imperialismo estadunidense já tem longa data, especialmente na America Latina e África, sendo que os principais motivos de suas intervenções é basicamente o controle total dos recursos naturais e dos sistemas políticos destes países. Recentemente , os EUA assinaram um acordo militar de cooperação com o governo de Gana , o que é parte de uma intervenção! As forças dos Estados Unidos estão operando em Mali , alegando a ação pois são inimigos do terrorismo da Al Qaueda no país . Na Nigéria, as intervenções dos países Ocidentais tem crescido muito nos últimos anos, aproveitando o conflito existente com Boko Haram no Norte do país. Portanto, estas intervenções não são pra promover prosperidade ou democracia como alegam, não são pra prover acesso à saúde ou educação do povo africano, mas são simplesmente para assegurar que as velhas metrópoles colonizadoras e seus aliados controlados pelos Estados Unidos, controlem nossa bauxita, ferro, ouro, gás, petróleo e nossas vidas. como o caso exemplar do ouro extraído em Gana, do qual 98% vai para as transacionais estrangeiras.


O Brasil, é um país conhecido por sua miscigenação cultural, tendo mais da metade da população que se considera negra , e apesar disto, é um dos países do mundo mais violentos com a juventude negra e pobre. O que você pensa, como um africano, desta sociedade profundamente racista que ainda vivemos no Brasil?


Racismo aparece de diferentes formas, que leva à brutal exploração e a degradação moral das pessoas em todo o mundo. Portanto, todos as formas de racismo precisam ser condenadas veementemente. Contudo, se olharmos para o Brasil, então estaremos frente a uma gigantesca massa de diáspora africana, a milhões de africanos que foram transportados como “burros de carga” para Europa, América do Norte e para o Brasil, especialmente da Nigéria, mas também de outras regiões do Oeste Africano. Portanto, o PanAfricanismo é uma ideologia para os africanos, não importa onde estejam , sejam no continente africano, ou seja fora dele. Assim, não podemos falar de PanAfricanismo sem mencionar as populações que estão no Brasil, falamos para o povo que acredita e quer unificar o povo negro onde quer que estejam, não fazemos isto somente por que somos africanos, mas por que somos cidadãos que querem a liberdade de todos os povos do mundo. Somos africanos, não nos consideramos superiores à ninguém, mas insistimos que somos iguais à qualquer um. Ressaltamos que a exploração que a classe trabalhadora sofre em Gana, na África, é a mesma que sofre o povo latino-americano, na Asia, e até mesmo na Europa. Assim, insistimos que a solidariedade internacional deve ser capaz unir todos os trabalhadores do mundo para confrontar o nosso mesmo inimigo comum, que é o capitalismo.


Em Outubro deste ano, o Brasil elegeu um novo presidente, Jair Bolsonaro, o qual você conhece bem. Que mensagem você gostaria de dar ao povo brasileiro para este momento?


A classe trabalhadora brasileira sabe muto bem quais são seus problemas e suas condições reais de vida melhor que ninguém , esta trincheira de luta é uma trincheira que deve ser travada pelos trabalhadores brasileiros, eles são os protagonistas desta história, o resto de nós somente pode oferecer toda solidariedade. Mas, é também muito importante saber que a eleição de Bolsonaro, não é substancialmente diferente das eleições que ocorreram em muitas partes de mundo, como os mesmos elementos das eleições de Trump nos EUA, e mesmo nas eleições das Filipinas que elegeram Rodrigo Duterte. De fato, é o processo contínuo de ascensão de regimes fascistas na Europa e em outros continentes, que é um sinal de que algo em comum está errado. Eu penso que, em todos os lugares do mundo , as pessoas estão procurando saídas para a pobreza, tentando entender as condições de exploração e miséria em que vivem , mas parte destas pessoas chegam à errada conclusão que esses problemas podem ser causados por exemplo, por outras pessoas que vem tirar-lhes seus empregos, ou que seus governos não são nacionalistas suficientes , ou seja, não foram ainda capazes de entender que são problemas de funcionamento do sistema capitalista , que tem uma causa comum em povos de todo o mundo. Isso é uma indicação da fragilidade do movimento socialista internacional, nós falhamos em explicar claramente, graficamente, quais são as causas do subdesenvolvimento e pobreza nos países. Nós falhamos em construir alternativas que possibilitem as pessoas se unificarem para lutar contra este sistema. Assim, o crescimento do fascismo ao redor do mundo nos preocupa bastante, não é algo que nos deixa tranquilos, porém, o problema não está nas “más” pessoas que votam em Trump ou Bolsonaro, mas temos que reconhecer que nós, enquanto movimentos revolucionários, falhamos nesta tarefa.