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As cicatrizes físicas e psicológicas, nos povos como os angolanos e moçambicanos, são ainda evidentes, e justifica todo o medo ainda presente. Foto: Reprodução

 

Por Augusto Juncal*
Da Página do MST

 

Há 57 anos atrás, em 1961, explodiu uma rebelião, no que era então, uma das colônias de Portugal na África, a sua joia mais cobiçada: a Angola dos diamantes, petróleo e urânio.


Explode com uma intensidade tão grande, que toma de surpresa até mesmo os seus rebeldes. Reprimida por uma opinião pública internacional superficialmente simpática, (das Nações Unidas e sobretudo do Brasil) a luta faz sua retirada estratégica para a floresta e adquire fôlego para sua continuidade. 


As posturas ambíguas e complacentes da diplomacia mundial, deram espaço para que Portugal mantivesse sua inflexível recusa de reconhecer e conceder por meio de um processo pacífico o direito aos angolanos ao seu Nacionalismo Africano.


Os portugueses pisaram as terras que eram então parte do Reino do Kongo, em 1483, tornando-a sua maior região de tráfico de escravos. Mas foi só mais tarde, entre 1885-1930, que consolida ali a invasão colonial, que em 1951, para evitar averiguações por parte da Organização das Nações Unidas (ONU) do terror que ocorria em suas colônias, concede-lhe o status de província do além-mar.


No que era a então colônia de Angola, foram muitas as organizações rebeldes, que ao contrário de ter ou buscar manter uma unidade que fortalecesse a luta, apresentavam-se variadas em suas composições e objetivos, e também nas diferenças étnicas e sociais.


Luta popular


Três desses grupos podem ser ditos como os mais principais, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), o Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e o União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). Podemos dizer de modo bem simplificado que o MPLA era urbano, ideológico e multirracial, tendo sua base entre os mestiços e os Mbundos- etnia africana de Luanda e das províncias noroeste do país-; o FLNA era rural, menos ideológico e formado exclusivamente pela etnia Bakongo, representando uma aristocracia rural do velho Reino do Congo; e o UNITA surge de um racha no FLNA, de etnia ovimbundu, grupo majoritário na parte Central, Oeste e Sul de Angola, de origem camponesa em sua totalidade, e educados por missões protestantes.


As rivalidades entre os grupos, vai levar a uma longa guerra civil no pós-independência. Uma rivalidade que não eram de origens ideológicas, mas algo mais profundo: um ódio implementado muitos séculos atrás.


Diante das rivalidades, a luta de libertação se ampliava geograficamente, dando sinais que a invasão e pilhagem portuguesa deste território, estava em vias de expiração. E todo esforço opressivo de conter a rebelião, só fazia espalhar mais faíscas que iam atiçando mais fogo onde caia. A luta simbolizada em um grande incêndio de muitos focos. Uma luta de altíssimos custos humanos e materiais. E Portugal mais cedo ou mais tarde teria que ceder. Não sendo uma nação rica, e extremamente dependente de suas colônias, como poderia manter o alto custo financeiro de uma guerra como aquela? Mesmo considerando sua burrice e falta de visão, os portugueses sabiam que não havia como manter um Vietnã Sem Fim.


E foi há 43 anos atrás, no dia 11 de Novembro de 1975, que o povo angolano, esse conglomerado de povos e grupos, cada qual com suas histórias e tradições, forçosamente unificados num território, que após a invasão e dominação portuguesa chamou-se Angola, através do MPLA e seu primeiro presidente Agostinho Neto, que declarou, após anos de bruta guerra imposta pelos colonialistas portugueses, sua independência. O que era colônia passou a ser a República Popular de Angola. Um estado socialista, que estabelecia relações amigáveis com Cuba, União Soviética, e com sua nação irmã, a também socialista, o Moçambique de Samora Machel. O MPLA vai governar e tentar implementar o comunismo. 

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Arte de Agostinho Neto, liderança do MPLA.
Foto: Reprodução


Mas, a força anti-humana do mundo, Estados Unidos e África do Sul do Apartheid, interferem no processo, financiando a guerra civil, opondo sobretudo o UNITA ao MPLA. Além de impor aos angolanos 13 anos de guerra de independência cruel e sangrenta, as forças imperialistas jogam eles numa guerra civil de 27 anos, igualmente cruel e sangrenta, terminada em 2002 com alguns intervalos. 


Pós-guerra


Angola finda a guerra com sua estrutura e infraestrutura totalmente devastada. Só a guerra civil teve um custo de 500 mil mortes e 1 milhão de pessoas fugidas para o interior do país, em deslocamento forçado. 


Esses são números mínimos, pois os registros são quase inexistentes. O muito que se tinha registrado estava sob guarda da PIDE, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, um órgão de extrema repressão nas colônias portuguesas, que operava em parceria com a CIA e que participou dos assassinatos e Amílcar Cabral e Samora Machel. Era o terror dos africanos que lutavam por sua independência. E os dados reais seriam escondidos para preservar a imagem internacional de um Portugal generoso e ameno com suas colônias, valendo a mentira do Luso-tropicalismo, elaborada por Gilberto Freyre.


A guerra civil foi além de um conflito interno. Tornou-se o palco da disputa da Guerra Fria, com assistências militares dos EUA e da URSS. Uma guerra na periferia do sistema, podia ser e era tudo, menos fria. Era a Guerra fria em sua brutal expressão. E a isso somava-se também um contexto de guerra entre o racismo branco da África do Sul e o Nacionalismo Negro. Sem dúvida um dos conflitos mais longos e destruidores da história do continente.


A guerra de Angola teve importante projeção em outros conflitos nos países vizinhos: No Congo, no que se chama de Segunda Guerra do Congo- uma guerra mundial africana, com oito países envolvidos- e na guerra de independência da Namíbia, que por sua vez seria o começo da queda do Apartheid Sul-africano que mantinha Namíbia sob sua invasão e colonização, onde Cuba jogou papel importantíssimo, sobretudo na Batalha de Cuito Canavale, um pequeno povoado mas de grande importância estratégica. Foi um ponto de mudança na guerra. Leva à assinatura do Acordo de Paz de 1991 e das eleições de 1992.


Cuba, com seus 50 mil soldados, decide apoiar a guerra em Angola e ajuda a levar o MPLA à vitória.


Sonhos socialistas


O Acordo de Paz de 1991, derruba o Popular do nome da novíssima república, que passa a se chamar simplesmente República de Angola. Lembrando que Moçambique em outro momento e por outros meios tira o Popular do seu nome, passando-se a se chamar somente República de Moçambique. São sonhos de sociedades socialistas no seio da África que vão caindo por terra.


A tragédia de Angola se reforça e se consolida assim em duas traições que foram articuladas para jogar a recém República Popular no poço fundo. A primeira em 1975, quando instauram a guerra civil no país, evitando que o governo socialista de Agostinho Neto governe. O FNLA abandona a guerra, deixando o poder com o MPLA. Mas o UNITA segue em frente, com seu líder sedento de poder, violento e inescrupuloso, Jonas Savimbi. 


A segunda traição é em 1991/92 com o próprio Acordo de Paz e das eleições. UNITA não aceitou os resultados das eleições que perdeu e impõe a continuidade da guerra, ainda mais escarnecida, que vai atingir seu ápice de ferocidade em 1998. Só com o assassinato de Savimbi, em 2002, que termina a guerra de quatro décadas, e a UNITA é finalmente derrotada, tornando-se um partido político desramado e democrático.


Agostinho Neto, morre de câncer em 1979, no meio da luta, sendo substituído por José Eduardo dos Santos, um engenheiro petrolífero, treinado na URSS. Nesse momento, o conflito no Vietnã termina e Angola passa a ser o palco de guerra entre Estados Unidos e União Soviética, nenhum dos dois com algum tipo de interesse em Angola, mas apenas jogando sua rivalidade geopolítica.


Desdobramentos políticos


O MPLA, já nos inícios dos anos 90 dá os primeiros passos para o multipartidarismo, deixa de ser uma República popular e abandona os princípios marxistas. E como os demais movimentos de libertação da África, ditos revolucionários, vão um a um transmutando-se em capitalistas neoliberais, reprodutores das ideologias imperialistas das grandes potências em seus países, à custa da felicidade e da vida de seus povos. 


Organizações populares como MPLA, FRELIMO, ANC, PAIGC, caem nos desmandos e no autoritarismo. Isso acontece à medida que vão matando os bastiões da integridade ideológica e humana de seus grandes líderes: Samora Machel, Amílcar Cabral, Cris Hani, Thomas Sankara.


As cicatrizes físicas e psicológicas, nos povos como os angolanos e moçambicanos que tiveram que travar longas e cruentas lutas de independência seguidas de guerras civis ainda piores, são ainda evidentes, e justifica todo o medo ainda presente.

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Aprendemos que existem formas e possibilidades de elaborar um forte movimento nacionalista, capaz de vencer os ódios, rancores e a discriminação entre iguais. Foto: Reprodução


Legado


O que nos resta então de legado da luta dos angolanos? Pensar nas formas e possibilidades de elaborar um forte movimento nacionalista, capaz de vencer os ódios, rancores e a discriminação entre iguais, entre irmãos, que por séculos foram implantados; descobrir formas catalisadoras que reconciliem urbanos, rurais, os mestiços (produto do tráfico de escravos e dos abomináveis estupros das negras africanas), as diversas sociedades tribais e camponesas; encontrar as formas de combater o tribalismo, como falava Samora Machel, e o resgionalismo, para poder edificar e manter uma unidade nacional.


Mas o que está por trás de palavras que parecem clamar por unidade? Quando em discursos se gritava em Angola “Um só povo, uma só nação”? Ou no caso da Zâmbia cujo lema oficial é “Uma Zâmbia, Uma Nação”?


A verdadeira independência deve ser promovida em toda sua diversidade e riqueza. Por trás desses dizeres talvez esteja uma crença na impossibilidade de construir um país, moderno que seja capaz de considerar, respeitar e fazer conviver em harmonia as diferentes nações que o formam.


E bem abertos estão os olhos inimigos, para garantir que não conquistemos “A Terra Mãe Livre Comum”.

 

*Augusto Juncal é militante Sem Terra, integrante do Grupo de Estudos sobre Questão Étnico Racial e Questão Agrária do MST e brigadista internacionalista.
**Editado por Wesley Lima.