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Por Jéssica Moreira
Da Página do MST

“Sem Terrinha em Movimento: Brincar, sorrir, lutar por Reforma Agrária Popular”. O lema do 1º Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinha, realizado de 23 a 26 de julho em Brasília, se fez vivo também durante as 35 oficinas culturais oferecidas no segundo e terceiro dias do encontro. 
 

Dentre um mosaico de opções, as crianças puderam realmente colocar sua criatividade em prática e, a partir de brincadeiras, contaram sua própria história, sejam elas pinceladas com guache no pano ou escritas com lápis grafite em papel sulfite. 
 

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Esse foi o caso, por exemplo, da oficina de construção de histórias. Ali, entre tantas trajetórias, estava não apenas as palavras, mas um retrato da vida de várias crianças Sem Terrinha impressas em suas letras de mão ou de forma.
 

Em um papel branco, as palavras apertadas e miúdas do Sem Terrinha Josué Rodrigues Costa, de 11 anos, falavam sobre a realidade que ele e outras tantas crianças vivenciam no Assentamento Dom Tomás Balduíno, localizado na cidade de Formosa, em Goiás. 
 

Com o título “Assentamento”, Josué expressa seu gosto pela plantação e colheita de alimentos saudáveis, e também seu descontentamento quando o assunto são os agrotóxicos e a caça de animais em sua região. 
 

Leia o texto na íntegra: 
 

“Eu gosto de plantar e colher alimentos orgânicos, sem agrotóxicos, sem qualquer adubo, porque além de prejudicar nossa vida, prejudica a vida dos animais silvestres, como, por exemplo, matam muitos peixes. A regra que tem que ser cumprida é que não poderia usar nenhum tipo de química nas plantas. Mas nem todos têm a noção. Não estão nem aí para a natureza. Estas são as que não deveriam, nem merecem uma terra, tem que pegar cadeia. E também na questão das caças, que não é permitida no assentamento. As pessoas que fazem esse tipo de crime e que ler este texto, pode saber que o MST não aceita esse tipo de coisa.” 
 

Crítica aos agrotóxicos 
 

Mesmo com a pouca idade, é por meio da escrita que Josué encontrou um jeito de denunciar, a seu modo, a crueldade que acontece com os animais. O sonho do menino é ser escritor, para assim poder falar sobre a natureza. 
 

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“Eu gosto de escrever muito, eu tenho comigo que eu nasci com o dom de escrever. Eu fiz esse texto porque muitas pessoas estão sendo prejudicadas na cidade por causa dos agrotóxicos. Os agrotóxicos, além de prejudicar a nossa vida, prejudica a vida dos animais. E quando a gente bota agrotóxico em uma plantação, se chover, o agrotóxico vai na enxurrada e vai dentro dos rios e mata muitos peixes. Eu escrevi esse texto porque eu não gosto que as pessoas matem animais, nem peguem eles na arapuca, não gosto que eles fiquem presos em gaiolas porque se a gente se colocasse no lugar deles, a gente não ia querer ser pegado e colocado dentro de uma gaiola ou ser morto”, explica. 
 

Educação no campo
 

Desde que aprendeu a escrever, Josué não parou mais. O garoto conta que, em 2017, chegou até a ficar em segundo lugar em um concurso de textos de sua cidade, no qual ele escreveu sobre os direitos das crianças e dos adolescentes. 
 

Mas o sonho de Josué vira e mexe se esbarra com a falta de ônibus para chegar até a escola, reforçando o direito à educação no campo trazido pelas crianças presentes no Encontro em manifesto que entregaram na manhã desta quarta-feira (25) no Ministério da Educação (MEC).  
 

“Eu gosto de estudar, mas a vida da gente no assentamento é muito longe da escola, muito difícil. É muito difícil estudar na escola no campo, porque os ônibus quebram, a gente pega muita poeira, às vezes a gente nem chega na escola, os ônibus quebram e a gente fica com fome até tarde.Eu acho que deveriam asfaltar e o governo deveria mandar verbas para comprar ônibus novos, porque os transportes quebram de uma em uma semana”, conta o Sem Terrinha. 
 

Sujeitos da sua própria memória 
 

Para a oficineira de construção de história Letícia Garcia de Andrade, que também é estudante de História do Instituto Federal de Goiás (IFG), é muito importante desenvolver um pensamento descolonial entre as crianças, para que elas se livrem de mordaças que nos foram impostas os últimos 500 anos de história brasileira. 
 

“A gente quis fazer uma oficina em que essas crianças fossem sujeitos da sua própria história, porque não há nada mais importante que você dar voz a si mesmo, sem precisar que ninguém fale por você, que alguém vá ao seu local de fala”, explica. 
 

A metodologia utilizada combinou criação de história e agroecologia, para assim fazer sentido com a vida das crianças presentes no encontro. “A proposta foi que eles fizessem desenhos e escrevessem histórias, que eles fossem os nossos olhos, que eles escrevessem pra gente levar pra outras crianças que não conhecem o Movimento, que às vezes tem um preconceito estabelecido sem ao menos conhecer ou ler nada sobre”, acrescentou.
 

Acompanhe aqui o especial do I Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinha.
 

*Editado por Gustavo Marinho