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Dirigente do MST fala sobre a crise do abastecimento de alimentos nas cidades e o papel da Reforma Agrária. Foto: Webert Cruz


 

Por Gustavo Marinho e Solange Engelmann
Da Página do MST


 

Pensar o abastecimento de alimentos nos municípios brasileiros e sua relação com o tipo de produção, relações econômicas, sociais, políticas e culturais está no centro da questão em torno da crise do abastecimento sofrida em alguns territórios do país nesse último período.



A dirigente do MST e assentada da Reforma Agrária, Antônia Ivoneide, do Ceará, explica como era o abastecimento de produtos há 20 anos, nas médias e pequenas cidade do interior do país. 



Ao contrário de hoje que não sabemos de onde vem e como são produzidos os alimentos que colocamos em nossa mesa, na época o consumidor tinha maior acesso aos produtos cultivados e comercializados na sua região, em feiras e centros regionais de comercialização.



“Em uma situação como vivemos hoje no país, os reflexos poderiam ser menos gritantes se a nossa relação com o abastecimento de produção nas cidades fosse pela produção local”, destaca Neném, como é conhecida.
Confira a entrevista completa:



Como era o abastecimento das pequenas cidades há 20 anos?
A maioria das cidades pequenas eram abastecidas por uma produção mais regional, onde grande parte da produção consumida pela população era produzida por pequenos e médios agricultores da própria região. O milho, o feijão, como vários outros produtos, até as criações de pequenos animais, eram comercializadas a partir de uma produção regional. Em especial nas feiras dos municípios, era o espaço onde a comunidade poderia se abastecer com a produção dos próprios agricultores da região.


A implantação dos grandes supermercados mudou essa relação da produção local, como também a forma da população consumir determinados produtos de sua região. A partir de então, a produção vem cada vez mais de fora e em grande escala, com produtos, padronizados, sem o conhecimento dos consumidores, da forma como eles são produzidos e como são transportados para chegar até as prateleiras.


Essa relação causa um grande distanciamento e estranhamento daquilo que está no supermercado, com quem consome e com quem produz. A gente percebe muito bem isso com o que acabamos de viver, com a paralisação dos caminhões. 


Os produtos industrializados vêm de muito longe, de vários cantos do país. Muitos são transportados até os portos e dos portos em caminhões. Esse caminho percorrido gera uma dependência que muda também a forma de como consumimos determinados produtos, mudando também a nossa saúde e transformando nossa vida. 


Como os produtos eram distribuídos?
A distribuição dava-se por transporte mais regionais e locais de vários tipos, desde caminhões, caminhonetes, tratores com carrocerias e etc. Pela proximidade, os produtos poderiam ser substituídos, a diversidade era maior, bem como em mais estabelecimentos. No lugar dessa produção concentrada nos grandes supermercados, tínhamos vários comércios. 


Como o avanço do agronegócio a mudança no abastecimento das pequenas cidades prejudicou a população?
Sim, principalmente por conta da produção de commodities, gerando pouca variedade de produtos e ampliando a produção em larga escala, que acaba, de certo modo, impossibilitando a concorrência com a produção do pequeno agricultor. 


Em uma situação como vivemos hoje no país, os reflexos poderiam ser menos gritantes se a nossa relação com o abastecimento de produção nas cidades fosse pela produção local. Haveria possibilidade das pequenas cidades serem abastecidas com a produção regional e possibilitar outras formas da locomoção desses produtos, sem depender da lógica da grande produção.


Como padronizou a produção, o agronegócio também padronizou o modo que consumimos determinados produtos, pois você vê a comida como uma mercadoria qualquer. Isso cria um problema do ponto de vista da saúde e do abastecimento, pois os volumes de alimentos precisam ser distribuídos em grande quantidade, até para manter a escala de produção e o preço.


Quem mora no campo, de certa forma não sentiu muito impacto com a paralisação dos caminhoneiros, porque se faltar gás as pessoas vão cozinhar no carvão. Se faltar farinha tem mandioca, feijão, ovos, galinha, carne, etc.
Dessa forma, se cria no campo a possibilidade de produzir e garantir alimentos para o abastecimento da população. Se grande parte da população que está no campo fosse incentivada a produzir alimentos poderíamos abastecer as cidades numa crise, ou em momentos de escassez de alimentos.


O agronegócio através da monocultura criou uma dependência da sua produção, da mercadoria e foi quebrando a pequena agricultura. Grande parte da produção para atender as demandas das cidades foi quebrada em função da competição gerada pelo avanço do agronegócio na agricultura brasileira.


Hoje quem está produzindo alimentos são os assentamentos e as pequenas comunidades que resistem no campo.


Qual a proposta do MST para o abastecimento dos pequenos centros urbanos?
Em primeiro lugar é democratiza a terra. É preciso fazer a Reforma Agrária para que as pessoas tenham acesso à terra. Segundo precisamos de incentivo para a produção, assistência técnica, capacitação e a tecnologia para avançar no processo de produção.


As pessoas também precisam ter a possibilidade de desenvolver a produção mais próximas das pequenas cidades e centros populacionais. Precisamos de créditos e valorização para que a produção agroecológica para que as pessoas que produzem tenham uma renda, que as possibilitem permanecer produzindo.


Nos assentamentos precisamos de créditos para produzir e de condições para que a produção chegue aos centros urbanos e populacionais, com a criação de centros de abastecimentos regionais. Com espaços fixos para a realização de feiras, em que os agricultores pudessem levar seus produtos e para que a população tenha acesso a esse tipo de produtos, diminuindo a distância com os produtores. A nossa proposta propõe maior interação entre quem está produzindo e quem está consumindo, com uma aproximação territorial, mas também do ponto de vista social do conhecimento. 


As feiras hoje acontecem na rua ou na praça porque não têm estrutura para o processo da comercialização.


Como os assentamentos podem contribuir no abastecimento das cidades de pequeno e médio porte?

Nos assentamentos de Reforma Agrária podemos redimensionar o processo da produção para atender as necessidades das famílias assentadas, mas também abastecer e distribuir para a população que vive nos centros urbanos.


Mas, precisamos de políticas públicas que favoreça a produção de alimentos nos assentamentos. Por exemplo, quando existem locais para comercializar e há uma boa relação com a cidade, os assentamentos produzem se organizam para levar a produção para as feiras. Isso acontece em várias regiões do Nordeste, mas em alguns municípios do país as feiras não são aceitas. 


Em muitos lugares as feiras se encontram em condições precárias. Então, precisamos de políticas públicas para a organização da produção, mas também para a distribuição dessa produção e para criação de espaços onde os trabalhadores possam comercializar os produtos. É preciso também a articulação nas cidades com os pequenos comerciantes, buscando espaços alternativos para a venda de produtos dos assentamentos.


Outra questão é que precisamos de orientações e assistência técnica para atender as demandas locais e com isso, pensar um programa de agroindustrialização da produção dos assentamentos. Pois muitos produtos possuem curta durabilidade, mas se forem beneficiados aumenta a duração e facilita a distribuição.


Porém, a agroindustrialização precisa ser organizada de acordo com a realidade dos assentamentos e respeitando as condições específicas de cada região do país.


Com políticas públicas, estruturas e apoio é possível abastecer várias cidades desse país, a partir dos assentamentos de reforma agrária que já existem.


Qual o papel da agroecologia na produção de alimentos para as pequenas cidades?
A agroecologia pode contribuir muito com esse processo, porque ela se relaciona com a terra, com o campo e a população. Estimula a diversidade de culturas e não usa produtos químicos e agrotóxicos no processo de produção.


A partir da Agroecologia é possível produzir em consórcio com a natureza, nas várias regiões do país, sem agredir a terra, a água e os bens naturais.


Portanto, a Agroecologia também nos permite ter outra relação com as pessoas. Ela exige mais mão-de-obra, mas temos muita mão-de-obra no campo. Necessitamos do conhecimento sobre os sistemas agroecológicos e orientações técnicas, voltada para isso precisamos escolas para capacitação dos assentados e de seus filhos.
E a partir disso, precisamos avançar na valorização e transição da produção agroecológica nos assentamentos, para produzir alimentos saudáveis em grande escala e garantir a segurança alimentar da população.


Como o exemplo da produção de arroz agroecológico, em assentamentos do MST no Rio Grande do Sul e várias experiências em agroflorestas, associando a produção agroecológica com a preservação dos recursos naturais e rompendo a dependência com as empresas transnacionais da agricultura.