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Foto: Leonardo Melgarejo

Por Catiana de Medeiros
Da Página do MST

 

O debate sobre os malefícios dos agrotóxicos não ficou de fora da 3ª Feira Nacional da Reforma Agrária, a qual acontece até às 20 horas deste domingo (5) no Parque da Água Branca, na Zona Oeste da cidade de São Paulo. A discussão sobre o assunto aconteceu na tarde deste sábado (5), por meio do seminário “A questão dos agrotóxicos no Brasil: Reforma Agrária Popular e Agroecologia no Desenvolvimento do Brasil”. Além de trabalhadores do campo e da cidade, o evento contou com a participação de professores universitários e de representação da área jurídica.
 

A abertura foi marcada pela canção Xote Ecológico, de autoria de Luiz Gonzaga. Ela foi interpretada pelo músico Sem Terra Leonel Viola, assentado no estado de Santa Catarina, com algumas adaptações na letra: “Cadê a flor que estava aqui?/ O veneno comeu / E o peixe que é do mar? / O veneno comeu / E o verde onde é que está? / O veneno comeu / Só a agroecologia sobreviveu”. A intervenção artística deu o tom do debate.
 

A professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Bombardi, fez uma explanação sobre o uso de agrotóxicos no Brasil, num comparativo com a União Europeia, com o intuito de interpretar por que o nosso país se tornou o maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2008. Segundo ela, houve um crescimento exponencial a partir do início dos anos 2000, quando foram consumidas 180 toneladas de veneno no país. Quatorze anos depois, a quantidade passou para 500 mil toneladas.
 

Ela explicou que essa realidade é consequência da inserção do Brasil na economia mundializada. “A América Latina se especializou em perder, o nosso lugar no mundo hoje é de exportação de commodities, ou seja, de cana-de-açúcar, soja, etanol, tabaco... O alimento, nesse momento da economia, perdeu o sentido de alimento e está se convertendo em moeda de troca, de negociação do capitalismo internacional”, disse.
 

Larissa também apresentou inúmeros dados sobre o cultivo de monoculturas. De acordo com ela, a área ocupada por eucalipto no território brasileiro equivale ao tamanho territorial de Portugal. Já a área destinada para a cana-de-açúcar extrapola o país europeu. Em relação à soja, o plantio corresponde ao território de três Portugais, quatro Escócias e dez Bélgicas. Juntos, a soja, a cana-de-açúcar e o eucalipto ocupam no Brasil uma área maior que cinco países do tamanho de Portugal. Em hectares, isso significa que a produção brasileira de monoculturas chega a 33 milhões de hectares, o que levou à diminuição de áreas com cultivo de alimentos como arroz, feijão, trigo e mandioca.
 

Casos de intoxicação
 

Conforme Larissa, o estado do Mato Grosso utiliza em média 12 a 16 quilos de agrotóxicos por hectare. Essa realidade contribui para o aumento do número de casos de intoxicação, que também são comuns na região Oeste da Bahia. Dados do Ministério da Saúde mostram que, de 2007 a 2014, 25 mil pessoas, sendo 2181 crianças e mais de 340 bebês de 0 a 12 meses de idade, foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil. Isso diz respeito a uma média de 3125 casos por ano e de oito por dia. Entretanto, a professora alertou que, para cada caso notificado, outros 50 não são notificados. Ou seja, o número real de intoxicados é maior que o registrado.

 

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Larissa destacou ainda as mortes que tiveram relações com os agrotóxicos. Nos últimos anos, mais de 9,5 mil brasileiros tentaram se suicidar usando esse tipo de produto e as vítimas fatais chegaram a 1186 anualmente. “É uma violência silenciosa. Não tem uma arma voltada para as pessoas, mas o que acontece de forma silenciosa e direta é que elas estão morrendo. É uma forma de violência no campo”, ressaltou. Ela tratou ainda da relação do agronegócio com essa realidade. “Toda vez que pensamos em produtos contaminados nós vem à cabeça produtos frescos. Então fica muito forte no nosso imaginário que o campeão é o pepino, o tomate, o morango. Mas o agronegócio é o carro-chefe. Ele tem uma conexão direta”, concluiu.
 

Os mais usados
 

Mais de 50% do agrotóxico vendido para o Brasil vai para a soja, 10% para a cana-de-açúcar e 10% para o milho. De acordo com Larissa, 96% da soja usada no país é transgênica e 60% dos agrotóxicos que vão para as lavouras são herbicidas, sendo o Glifosato o mais utilizado, seguido do 2,4-D e do Acefato. Alguns têm seu uso proibido na União Europeia.
 

A professora Ada Cristina Pontes, da Universidade Federal do Cariri, no Ceará, também participou do seminário. Ela apresentou a pesquisa “Más-formações, puberdade precoce e agrotóxicos, uma herança maldita do agronegócio para a Chapada do Apodi”, que foi realizada em comunidade que tem grande impacto pela atuação do agronegócio. O objetivo foi investigar as relações existentes entre os casos de má-formação congênita e puberdade precoce ocorridos na comunidade de Tomé e as exposições ambientais e ocupacionais aos agrotóxicos nessa localidade.
 

“Os canais de irrigação passam por todas as empresas do agronegócio para depois chegar à comunidade. A água fica contaminada por agrotóxico e os trabalhadores e as crianças que nunca tiveram contato com esses produtos ficam encurralados a isso. Existe pulverização que passa por cima de comunidades e mesmo que elas decidam não trabalhar com as empresas do agronegócio e com veneno estão expostas a essa situação”, relatou.
 

Ada comentou que essa realidade coloca 97% dos trabalhadores em exposição múltipla (entre 4 a 30 ingredientes ativos diferentes) aos agrotóxicos e que há relatos de intoxicação aguda (cerca de 60% dos trabalhadores) e alterações hepáticas e hematológicas. “O agronegócio é um modelo que está para além de uma forma de produção específica. Ele é um modelo que começa na fábrica de agrotóxicos e termina na exposição das crianças, trabalhadores e moradores. É toda uma rede, e os agricultores familiares são vítimas desse modelo”, afirmou.
 

Pacote de agrotóxico
 

O Projeto de Lei 6299/2002, de autoria do atual ministro da agricultura Blairo Maggi, e o parecer do deputado federal Luiz Nishimori (PR/PR) sobre ele foram alvos de críticas de Darci Frigo, coordenador da Terra de Direitos, que denominou o “pacote de veneno” como “um pacote para liberar praticamente tudo o que há de agrotóxico no país”. Para ele, a iniciativa em questão é o arranjo mais recente das forças conservadoras que tentam modificar o conjunto de regras em relação ao uso desse tipo de produto.
 

“Em 2016, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) diminuiu o processo de transparência, a participação da sociedade e o tempo de avaliação. O PL 6299, que está em análise na Comissão Especial da Câmara dos Deputados, quer mudar o nome agrotóxico para “defensivo fitossanitário” e passar o registro, que hoje é feito pela Anvisa, Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e MAPA (Ministério da Agricultura), somente para o MAPA, para colocar num novo produto no mercado”, revelou.
 

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Ele acrescentou que a avaliação do projeto será apresentada pela própria empresa que produz o agrotóxico. “Querem estabelecer o registro provisório para agrotóxicos que hoje são proibidos em várias partes do mundo. A nova proposta abre brechas para produtos cancerígenos que podem provocar más-formações nos fetos”, denunciou.
 

Ele ressaltou ainda que a bancada ruralista não tem medido esforços, especialmente após o golpe de 2016, para garantir retrocessos no que diz respeito a esse assunto, além de ter protagonizado ataques aos movimentos sociais que lutam para impedir qualquer tipo de recuo nas conquistas obtidas nos últimos 30 anos com o advento da democracia. Para ele, o que ocorre é a desconstrução da Constituição Federal.
 

“O agronegócio e as transnacionais vinham batendo para que houvesse uma liberalização muito maior de várias questões e para mudar as regras para avaliar a liberação de agrotóxicos. Mas agora, com o golpe, esses setores se sentiram muito empoderados. Nós estamos falando de dezenas de deputados da bancada ruralista que dão sustentação ao governo. Eles estão aproveitando para desregulamentar tudo o que diz respeito às regras”, argumentou.
 

Frigo alegou ainda que o que ocorre hoje no país é uma “guerra química silenciosa”, que surgiu com maior intensidade a partir da onda fascista que se instalou no país, em referência aos casos de pulverização aérea de venenos em acampamento do MST no município de Marabá, no Pará, e numa área do povo Guarani e Kaiowá da Terra Indígena Tey’i Juçu, no Mato Grosso do Sul. “Isso é guerra química, que impede inclusive a luta de trabalhadores pela construção da Reforma Agrária”, disse.
 

Ao final do evento, que também contou com intervenção de populares e de representantes da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, ele defendeu que, paralelamente ao processo de enfrentamento dos agrotóxicos, devem ser construídas alternativas e políticas para impulsionar a produção de alimentos saudáveis. “Temos que fazer a união entre o campo e a cidade, lutar pelo fim da pulverização aérea, criar áreas livres de transgênicos e de agrotóxicos e conquistar a Reforma Agrária para a construção da agroecologia”, finalizou.
 

*Editado por Gustavo Marinho