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Alcemar Adílio e sua filha na Feira Nacional da Reforma Agrária. Foto Rica Retamal

 

Por Catiana de Medeiros 
Da Página do MST

 

Referência nacional e internacional na produção de sementes agroecológicas, a Rede de Sementes BioNatur, constituída pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), já soma duas décadas de uma experiência que valoriza o cultivo e o consumo de alimentos saudáveis, com respeito à natureza e aos recursos naturais.


Nestes 20 anos, completados no último 17 de janeiro, as 200 famílias assentadas que produzem as sementes BioNatur nos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul têm muito para comemorar. Afinal, além de contribuir para a saúde do planeta e ser sinônimo de resistência, a iniciativa traz inúmeros benefícios para os trabalhadores do campo e da cidade, através da produção de sementes de hortaliças, plantas ornamentais, forrageiras e grãos. Trata-se de um legado na geração da vida, que será celebrado dias 2 e 3 de dezembro num grande evento no Assentamento Roça Nova, em Candiota, na região da Campanha gaúcha.


Em entrevista à Página do MST, Aclemar Adílio Inhaia, assentado e presidente da Cooperativa Agroecológica Nacional Terra e Vida (Conaterra), responsável pela marca BioNatur, avalia o trabalho realizado pela rede, revela as principais dificuldades encontradas nestes 20 anos e destaca os desafios a serem enfrentados no próximo período. Confira.

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Foto Catiana de Medeiros 


O que representa para a BioNatur completar 20 anos de história na promoção da agroecologia?


A BioNatur nasceu no berço e no debate da agroecologia. Este sempre foi um dos princípios que ela percorreu desde a sua fundação e a origem do seu trabalho com as sementes. Então, não foi um processo que teve que sofrer alterações ou ajustes, justamente porque ela já nasceu dentro dessa ideia e lógica do processo agroecológico. Isto é um diferencial que nos identifica e também nos dá uma identidade muito forte, porque há bem pouco tempo nós falávamos que a produção de sementes era agroecológica, não falávamos em certificação orgânica. Começamos a falar em certificação orgânica por uma pressão de mercado e evolução do processo. Mas, até 2009 e 2010, nós trabalhávamos somente a questão da agroecologia. Podemos olhar nossos pacotes de sementes mais antigos, eles têm essa ênfase. Agora nos últimos anos que a passamos a colocar a certificação orgânica dentro do processo.


Qual a avaliação que a rede faz sobre o seu trabalho nestes 20 anos?


Fizemos uma avaliação positiva, porque viemos resistindo ao longo destes tempos. A produção de sementes tem um diferencial muito grande das demais cadeias produtivas e se restringe ainda mais quando se trata de hortaliças. Hoje no Brasil são poucas as empresas, para o tamanho do país, que trabalham com a produção de sementes de hortaliças. E o desafio se torna ainda maior quando se fala em produção orgânica ou agroecológica. No caso da BioNatur, nestes 20 anos, ela conseguiu se estruturar e resistir. A perspectiva é que nos próximos anos nós consigamos sair para um trabalho de expansão, mais voltado à comercialização e à gestão. Trata-se de qualificar mais este processo, porque a base já foi construída — e muito bem construída, diga-se de passagem, porque a BioNatur tem um acúmulo muito grande do debate e da prática da agroecologia desde a sua origem. Estas duas décadas nos trouxeram muito aprendizado. Eu creio que agora a BioNatur tem tudo, com poucas ações, para deslanchar. A perspectiva que temos, para pelo menos nos próximos cinco anos, é de avanços em série de questões. Pela dimensão que a BioNatur tomou, ela necessita ter um pouco este caráter. Obviamente, os agricultores e o próprio Movimento vão ter que aprender um pouco a trabalhar com isso. É algo novo e temos que começar a nos desafiar.


 

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Foto Leticia Stasiak

A BioNatur se tornou referência nacional e internacional na produção de sementes agroecológicas. Como foi possível chegar a este patamar e quais foram as principais dificuldades encontradas?


A BioNatur se tornou referência dentro da campanha de sementes, em 2001 e 2002, no embate contra os transgênicos. O MST tornou-a uma marca muito forte neste contexto. Ela ganhou uma dimensão muito grande naquele período e de lá para cá só ampliou a sua imagem. Óbvio, teve muitas frustrações, porque todo mundo imaginava que à época nós iríamos deslanchar, ser uma referência na produção e comercialização. Só que não é bem assim. O processo de produção de sementes é cheio de detalhes e complexidades e precisa ser entendido na sua totalidade para poder avançar. Não é algo automático, que tu faz um investimento, produz, comercializa e sai. Tem uma série de legislações e questões que às vezes tornam o processo quase impossível de ser feito. Nós tivemos muitas dificuldades e quase fechamos as portas — não foi uma, nem duas vezes — mas o MST soube superar cada momento de forma coletiva. O evento do dia 2 e 3 de dezembro também é demonstração disto, porque nós estamos vivendo um novo momento e enfrentando dificuldades. Agora é hora não só de resistir, mas também de pensar  outras dimensões, volumes e ações para frente, inclusive em outros estados.


Qual foi a contribuição social e econômica que a criação da BioNatur trouxe às famílias associadas?


A BioNatur trouxe aos produtores uma pertença muito grande e interessante na produção de sementes. Ela teve um papel fundamental para ampliar a visão e elevar o nível de consciência das famílias com quem nós trabalhamos ao longo do tempo. Na questão econômica, tivemos algumas inovações. Há agricultores que têm entre as suas principais linhas de produção as sementes, que compõem uma série de ações dentro do lote. Tem outros que trabalham a BioNatur muito mais no debate da agroecologia, da produção de sementes e da variação de cultura num mesmo lote. Então a BioNatur faz parte de um contexto interno que é muito interessante, onde algumas famílias a têm como principal renda econômica, outras como principal fonte de alimentação. Nós conseguimos trabalhar com estes públicos ao mesmo tempo.


Nestas duas décadas de existência, qual o legado que a BioNatur procurou deixar para a sociedade?


A BioNatur tem um legado consolidado. Nunca nos seduzimos pelo modelo do agronegócio e sempre demos passos conforme alcançávamos. Em alguns momentos até podemos discutir, dizer que poderíamos ter avançado um pouco mais. Mas nós soubemos dar um passo de cada vez, por isto a BioNatur sobreviveu ao longo destes anos. Aí entra o papel fundamental da organização, porque isso só foi possível pela avaliação que o MST soube fazer de cada período, onde em algum momento se intensificou mais e em outros ficou mais de lado a produção de sementes. Fomos intercalando e foi o que nos permitiu chegar até hoje. Para a sociedade, nós somos referência porque permanecermos com a mesma credibilidade e seriedade no trabalho de produção de sementes. Somos referência também porque até hoje não surgiu nenhuma outra empresa ou organização nessa área. Se fosse tão simples assim, já teriam surgido inúmeras outras. Óbvio, retornamos a dizer: não somos os únicos que produzem sementes. Há inúmeras organizações, mas com este formato mais ligado à comercialização, a referência hoje ainda é a BioNatur na América Latina.


Quais as principais metas e desafios da BioNatur para os próximos anos?


A BioNatur terá que saber interpretar com muita sabedoria neste momento qual é a principal meta e o desafio que vai encarar. Nós temos um grupo bom de produtores, uma base criada e formada há 20 anos. Temos uma estrutura que nos permite fazer hoje um trabalho de maior volume. Mas este volume tem que ser muito bem medido, porque é muito detalhe para se tomar uma decisão sem muito raciocínio. Não é como fazer uma produção convencional ou até mesmo orgânica de uma única cultura. A produção de sementes tem uma série de variáveis. Por exemplo: num ano você vende muito bem melão, porque a sociedade e um grupo de agricultores resolveram plantar melão e o mercado incentivou. No outro ano não vende melão. Num ano você vende muito bem cenoura, no outro não vende muito bem ou então baixou o preço do alimento. O preço da hortaliça varia muito conforme o ano. Enfim, são inúmeras questões que a BioNatur terá que interpretar e organizar para planejar seus próximos três anos. A ideia é começar a discutir em dezembro e seguir até maio de 2018, quando ocorre a eleição da próxima direção da BioNatur. O planejamento que fizemos até agora sempre foi do grupo interno da rede. Agora não, nós temos Minas Gerais e pelo menos mais três estados querendo produzir nossas sementes. Teremos que trocar umas figurinhas e ver como se organizar e se estruturar para isto, porque a BioNatur no Rio Grande do Sul tem características completamente diferentes da BioNatur em Minas Gerais. Teremos que discutir muito bem isso, porque será decisivo para os próximos anos.