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Por Iris Pacheco* e Rosineide Pereira**
Da Página do MST

 

“Sabe qual é o negro mais bonito do mundo?
É aquele que tem consciência de suas raízes, de suas origens culturais.
É aquele que tem a atitude de quem sabe que é ele mesmo,
e não um outro determinado pelo poder branco.”

(Lélia Gonzalez)


Ao pensarmos na constituição da classe trabalhadora brasileira devemos considerar a combinação da relação entre patriarcado e racismo no capitalismo, cujo impacto na luta emancipatória do povo é estruturante, não podendo, portanto, se materializar se não houver rompimento com as bases da opressão e exploração burguesa. 


No capitalismo, as relações econômicas fundamentais se constroem a partir da exploração da força de trabalho. Essa relação econômica, possibilita a acumulação de capital, estrutura as relações sociais entre as classes, mas não explica todas as determinações que configuram a totalidade do processo. Nenhuma sociedade é capaz de prescindir do trabalho feminino e ao longo do tempo as sociedades pautaram as relações de trabalho entre os diferentes gêneros, classes e raça.


Ao trazer essa análise para a realidade do campo brasileiro, baseada em nossa experiência de militância no MST, apontamos que a maioria das pessoas que compõe os acampamentos e assentamentos são negras. Tal constatação evidencia que, como negras e negros, os Sem Terra consequentemente também são vítimas do racismo estruturado em nossa sociedade, ora camuflado, ora revelado, combinado com o preconceito de classe. Isso nos coloca o desafio de compreender qual é a relação da luta pela terra com o debate da questão racial no Brasil, e como enraizar no conjunto da classe esse nexo histórico. Nesse sentido, assinalamos nesta reflexão, sobretudo, os aspectos poucos conhecidos e estudados no que se refere à figura da mulher negra e camponesa na resistência negra brasileira.


A superexploração das mulheres negras no campo remonta ao período escravista colonial, onde estas eram vulneráveis à todas as formas de violência, principalmente a violência sexual. Angela Davis salienta que “o estupro, na verdade, era uma expressão ostensiva do domínio econômico do proprietário e do controle do feitor sobre as mulheres negras na condição de trabalhadoras”.¹ Assim, o capitalismo, que é um sistema social que depende da exploração da força de trabalho, também se formou sob as mãos de negras e negros escravizados. No entanto, não é apenas essa evidência que coloca a opressão às mulheres negras em uma dimensão histórica. O período pós-colonial e a generalização do trabalho livre também aprofundam essa opressão racista. 


Para compreender esse contexto se fez necessário entender que no Brasil, a terra se configura como um fator estruturante. Isto porque estamos falando da transformação da terra em mercadoria, como parte de um processo mundial de desarticulação do sistema escravista e de desenvolvimento de um mercado consumidor na periferia do capital. Ou seja, quem tem o controle da terra possui também a concentração do poder político, econômico, mais tarde do midiático, e por consequência, os padrões hegemônicos de representação da realidade.


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Nesse aspecto é preciso compreender que não foram as diferenças entre os traços biológicos e culturais que tomaram proporções que interferiram diretamente no processo histórico, e sim as formas de integração subalterna dos nossos territórios que se utilizaram de diferenças “raciais” e culturais. Segundo Florestan, “as desigualdades raciais no Brasil foram sendo incorporadas ao regime de classes, isso significa que mesmo com o trabalho 'livre', a 'raça' ainda era usada como um fator de ajustamento social”.


O escravismo colonial resultou no racismo e na manutenção do latifúndio com feridas ainda abertas, que transformaram a questão agrária e a questão racial em eixos estruturantes da desigualdade social brasileira. Na tentativa de omitir essa violência foram construídas teorias racialistas, que vão desde o discurso da inferioridade racial à construção de um ideal de embranquecimento compreendido como um projeto nacional, que se funda na concepção de miscigenação seletiva, e no mito da democracia racial que contribuiu para a construção da imagem das relações raciais como “pacíficas”.


Nesse contexto, as mulheres negras camponesas, alijadas pelo sistema social, foram relegadas à pobreza e à marginalidade, submetidas a distintas explorações no que se conforma hoje como campo brasileiro, aprofundadas pelo patriarcado e o racismo. Porém, a resistência negra brasileira também é mulher negra e camponesa, pois estas desenvolveram formas importantes de participação e liderança na organização de ações de resistências ao sistema escravista que seguiu após a abolição até os dias de hoje.


O reconhecimento dessa resistência é fundamental quando pensamos na necessidade crescente de organização e disposição para continuidade dessa luta. Uma vez que, a dupla exploração da mulher negra durante o período da escravidão colonial (por um lado na produção, no outro a reprodução da força de trabalho), e o lugar da mulher negra na reprodução atual da "população excedente" (setor crescente na nova configuração do capital), apontam que o racismo se atualiza como imperativo para a implantação do novo modelo de acumulação capitalista.


É fato que a escravidão tem um impacto profundo na vida das negras e dos negros. Os resquícios do colonialismo permanecem entranhados em nossa sociedade e são responsáveis pela manutenção da opressão racial. A interiorização da condição de inferioridade, que em muitos casos, inibe a reação e a luta contra a violência sofrida, é um sintoma de que não é possível acabar com a opressão de gênero sem dar conta das relações sociais existentes com as questões de raça e classe, especialmente, por que não dá para enfrentar o racismo enquanto você ainda se odeia.


Logo, o desafio não é simples. Enfrentar uma luta que combina as relações sociais de raça, gênero e classe com a questão da terra, requer a conquista de espaços em diferentes dimensões da existência. No entanto, temos a noção que para empreender esta luta, é necessário engendrar forças maiores e mais potentes. As mulheres camponesas negras têm buscado dar resposta à altura dos desafios do seu tempo fazendo o enfrentamento ao agronegócio e o capital por dentro dos movimentos populares do campo. Porém, existem muitos desafios que precisam ser encarados e que passam pelo processo de dar visibilidade ao trabalho das mulheres camponesas no enraizamento da cultura camponesa, considerando sua raiz afro-brasileira e pautando a superação dos altos índices de violência, a dificuldade de acesso às políticas públicas e os obstáculos na defesa do seu território.


Neste contexto em que um golpe se realiza no Brasil, as desigualdades que marcam a sociedade brasileira se tornam mais evidentes e coloca para as mulheres do campo a necessidade de relacionar pautas históricas em seu calendário de luta e de organização pela transformação social, o enfrentamento das lutas estruturais contra o patriarcado e o racismo, que se configuram como base da opressão e exploração da elite brasileira. As ferramentas da classe trabalhadora, como os meios de comunicação e as formas de lutas, precisam ser tomadas pelas mulheres para se avançar na construção de uma perspectiva feminista popular atrelada à consciência de classe que liberte as mulheres negras dos grilhões da escravidão moderna em nossa sociedade.


¹ DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. Boitempo Editorial, São Paulo, 2016.


* Iris Pacheco é integrante da Direção Nacional do MST, Jornalista e Especialista em Teologia das Religiões Afro-brasileiras.
** Rosineide Pereira é integrante da Direção Nacional do MST, historiadora e mestranda em geografia.

 

 

***Editado por Rafael Soriano