Por Paula Adissi e Pedro Carrano
Do Brasil de Fato 


A organização Consulta Popular chega a seus 20 anos e carrega na sua simbologia o legado de luta e organização do povo brasileiro, latino-americano e mundial. Nesta 5ª Assembleia da Consulta Popular, que acontece ao longo dessa semana em Fortaleza (CE), a homenageada é Zilda Xavier Pereira, dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), dirigente feminista e revolucionária, que resistiu contra o golpe de Estado de 1964, ao lado de Carlos Marighella.


Aton Fon Filho, advogado e militante da Consulta Popular, que militou e combateu ao lado de Zilda contra a ditadura militar, recorda: "Dirigente, comandante da Ação Libertadora Nacional, Zilda traz contribuições fundamentais. Sua dedicação à luta socialista, em nenhum momento esmoreceu na luta contra a exploração. Nos traz também uma enorme contribuição na questão da luta nacional. Ela foi exemplo da necessidade de mantermos firmes a luta contra o imperialismo, e de aprofundarmos a nossa identidade como povo brasileiro, como classe na luta contra a exploração".


Ao longo de sua história, a Consulta resgatou grandes pensadores e lutadores brasileiros, suas teorias, ações e exemplos de vida. Neste contexto de golpe institucional no Brasil, que tem como síntese a tentativa de desmonte do Estado brasileiro e de ataques contra a organização dos trabalhadores, é fundamental extrair lições e resgatar o imaginário de luta presente na história do povo brasileiro, apontam os organizadores da assembleia.


Este encontro nacional é o momento em que se reúnem militantes de diferentes frentes de atuação, do campo e da cidade, de todo o país, organizados na Consulta Popular. O compromisso da organização é, desde o começo, conhecer o Brasil e contribuir para construção de um novo projeto de país. 


Percurso


Zilda nasceu em Recife (PE) em uma família humilde e estudou até o ensino fundamental. Aos 16 anos, migrou para o Rio de Janeiro (RJ) com parte de sua família. Na capital carioca, ela ingressa, aos 20 anos, no Partido Comunista Brasileiro (PCB), onde se torna militante destacada.


Com o golpe de Estado de 1964 e a instalação da ditadura militar, Zilda rompe com o PCB, junto com Marighella e outros companheiros e companheiras, ela ingressa na luta armada e se torna importante militante dirigente da ALN. Para Lua Marine, militante da Consulta Popular da Bahia, a homenagem à Zilda é mais do que justa, devido a sua história de vida e de luta em defesa do Brasil e do povo brasileiro.


"O que distinguia Zilda era sua inteligência, sua intuição, sua dignidade, a bravura com que ela foi à luta e enfrentou os desafios enormes que se colocaram diante dela. Com o golpe, todos os militantes foram lançados na clandestinidade. E coube à Zilda a importantíssima tarefa de zelar pela segurança desses militantes, de construir uma rede de segurança que alimentava, protegia, sustentava as ações da ALN", relembra.


Luta 

Zilda está entre as sobreviventes da ditadura, mas a repressão tirou tudo dela. Além de matar Marighella, tirou também seus filhos Alex e Iuri, ambos assassinados pelo regime militar, na década de 1970.

 

"Marighella dava as tarefas mais importantes da organização para Zilda, porque ela demonstrava uma convicção inabalável da necessidade da revolução brasileira. Isso movia Zilda acima de qualquer coisa, fez com que ela resistisse à tortura e não denunciasse nada nem ninguém. Ela é para todas e todos nós da Consulta Popular um exemplo de vida e de luta", afirma Lua Marine, afirma militante da Consulta Popular.


Como descreveu o jornalista Mário Magalhães, autor da biografia Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, Zilda reforçou o papel de lutadora do povo que tinha a tarefa de dirigente e organizadora: "Como escrevi no livro, se informação equivale a poder, Zilda foi um dos três dirigentes mais poderosos da ALN, junto com Marighella e o jornalista Joaquim Câmara Ferreira". 


O companheiro da sua filha Iara também foi assassinado pela repressão. Junto com ela, Zilda travou durante décadas uma batalha para reaver os restos mortais de seus entes queridos e pelo reconhecimento dos crimes pelo Estado brasileiro contra sua família.


Zilda se manteve até o fim da vida fiel aos ideais da revolução brasileira, às organizações pelas quais lutou, aos militantes que deram a vida pela soberania de nosso país. Faleceu no dia 22 de novembro de 2015, no mesmo dia em que completava 90 anos.