Por Rafael Villas Bôas*

 

No dia 23 de outubro de 2017 teve início o Seminário de comemoração dos 10 anos da Licenciatura em Educação do Campo da Universidade de Brasília. Precedendo a mesa de abertura os estudantes de Licenciaturas de diversos estados do país abriram o evento com uma mística, um gesto coletivo, estético e político, que elabora os tempos históricos do passado, presente e futuro de forma dialética, a partir da noção de causalidade, reconhecendo as marcas do antagonismo da luta de classes como um elemento que nos permite narrar a história de luta pela emancipação humana.


Poemas em jogral declamados da platéia, nomes de batalhas e lutadores populares, datas evocadas, músicas entoadas em coro, bandeiras, nomes de eventos que sinalizam a construção histórica do legado de luta da classe trabalhadora do campo pelo direito à educação. No centro do palco do Teatro Augusto Boal é descortinado um imenso painel, produzido por turmas da Licenciatura em Educação do Campo, sob a coordenação do professor Felipe Canova. Tradição vigorosa de luta cultural em países latino-americanos, os murais e painéis retiram do interior do lar burguês –  como expressão de requinte e ornamento – o resultado do trabalho das artes plásticas. Na rua, nos espaços públicos, os painéis e murais produzidos coletivamente buscam embelezar, simbolizar e explicar processos históricos, do ponto de vista dos explorados. A expressão estética da classe trabalhadora anseia por narrar, toma espaço das fachadas publicitárias, dos banners promocionais, e democratiza a síntese de uma leitura de mundo, nada óbvia.


No painel em questão o espectador se defronta com a simbologia de dois projetos de mundo, para a humanidade e para o planeta. De um lado a alegoria de um projeto protagonizado pelas regras do capital, com seus símbolos tradicionais que representam a oposição à vida: caveira, cartola, corpos descartáveis, seres morrentes, túmulos em série, em perspectiva, estatísticas frias. No centro do painel a luta, três pessoas, duas delas mulheres negra e índia, sustentam um livro, rasgado de baixo para cima por uma mão negra de punho fechado, em gesto de luta, sinalizando que a luta dos debaixo pode e deve produzir conhecimentos diversos, que questionem os pilares assentados nas estruturas de poder, um conhecimento insurgente, tal como é a criatividade da luta dos oprimidos, que tem que diversificar suas formas de ação para não ser neutralizada pelo aparato repressor. De outro lado, um projeto cujos símbolos apontam para a perspectiva de uma conciliação possível entre ser humano e natureza, sem o monocultivo em larga escala, sem as marcas cruéis da dominação de classe.


Na parte de baixo do painel uma linha cronológica dá notícia de datas emblemáticas da luta pela educação do campo, sob fundo vermelho, de sangue, de luta, de projeto socialista. Acima, uma fileira de multidão ascende em perspectiva e o traçado dos pincéis sugere certa relação de continuidade entre o verde dos morros.


Pela noite a produção audiovisual de escolas do campo, de licenciaturas de todo o país, de centros de formação dos movimentos sociais, tomou o palco, mostrando a potência narrativa e formativa da democratização da linguagem audiovisual. Por que até hoje não é óbvio para nós que o letramento que instrui e forma seres humanos deve ser encarado de forma múltipla, que cada indivíduo tem o direito de ser formado com domínio pleno em todas as expressões estéticas, seja para que possa produzir, se expressar por meio delas, seja para que possa contemplá-las de forma plena. Há um século, na Rússia, isso já era colocado em prática na experiência da revolução em andamento.


A noite do primeiro dia do seminário dos 10 anos da Ledoc e da II Mostra Terra em Cena e na Tela foi encerrada com a apresentação da peça “A farsa da justiça” pela Cia Estudo de Cena, um coletivo de São Paulo que coloca em cena uma farsa, que nos permite analisar a dinâmica de uma estrutura social desigual, corrupta e fascista, por meio de eficaz articulação entre as linguagens cênica, musical e audiovisual – o grupo produziu uma websérie em 21 capítulos chamada “A farsa” – a partir da estrutura do julgamento de um camponês que se fingiu de morto entre os cadáveres de seus companheiros, para não morrer, no massacre de Eldorado dos Carajás em 1996. O coletivo profissional de São Paulo adaptou com extrema eficácia estética, uma peça construída pela Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do Assaré, em parceria com Sérgio de Carvalho, da Cia do Latão. Hoje, montam a peça o Coletivo Banzeiros, do MST do Pará e a Cia Estudo de Cena, com estéticas distintas, ambas eficazes, permitindo aos espectadores de nosso tempo histórico compreender a potência didática e artística do teatro de agitação e propaganda soviético, construído a partir da Revolução Russa.


Em síntese, podemos aferir que um dos grandes legados da Educação do Campo é consolidar a consciência do direito à expressão estética para  os povos do campo e dos quilombos, por meio da apropriação dos meios de produção simbólica de todas as linguagens, e do fortalecimento do diálogo com as formas tradicionais de manifestações culturais e resistência política.


Desde o primeiro momento do dia até o encerramento das atividades, estivemos imersos em experiências artísticas, não como adorno, nem como intervalo comercial entre atrações principais, mas como elementos constituintes e orgânicos de uma experiência de formação integral, conscientes que nenhuma dimensão do ser humano deve ser postergada se o que está em jogo é a luta pela emancipação e a transformação social.


Brasília, 24 de outubro de 2017


*Professor da Ledoc da UnB e integrante do Coletivo Terra em Cena