Por Marcos Barbosa
Do Brasil de Fato 


O Brasil de Fato Pernambuco entrevistou a cantora e compositora Ana Cañas, antes de ela realizar sua apresentação na noite cultural da I Feira de Produtos da Reforma Agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Rio Grande do Norte, no mês de setembro. Seu álbum de estreia, “Amor e Caos”, foi lançado em 2007, recebendo elogios da crítica especializada, que considerou Ana uma das principais revelações musicais daquele ano.


Desde então, a cantora já lançou mais três discos e realizou parcerias com nomes consagrados da Música Popular Brasileira, como Gilberto Gil, Arnaldo Antunes e Nando Reis. Seu trabalho já lhe rendeu indicações a prêmios de música e foi trilha sonora de novelas e filmes nacionais.


Em 2017, a cantora se apresentou no Palco Sunset do festival de música Rock In Rio, no RJ. Seu show ganhou repercussão na imprensa e nas redes sociais pelo tom de protesto e politizado.


Na conversa com o Brasil de Fato PE, Ana falou sobre sua aproximação com o MST e sobre os desafios que estão colocados para a democracia e para a produção artística diante desse cenário de perda de direitos, golpe e censura que marcam o atual cenário político nacional.


Qual a importância do MST do Rio Grande do Norte estar realizando sua I Feira de Alimentos da Reforma Agrária, que entrelaça o debate da reforma agrária com o da cultura popular?


Apesar da feira estar ampliando esse entrelaçamento entre a cultura e os produtos da Reforma Agrária, eu sempre vejo como uma coisa interligada. Eu acredito que a Reforma Agrária seja o caminho mais rápido para a distribuição de renda no Brasil e para a criação de um mercado interno e o desenvolvimento de uma indústria, por exemplo. Então, eu não consigo ver cultura desvinculada da melhora das condições de vida humana. E acho maravilhoso o movimento estar sempre na frente. Não só nas escolas, na parte política e educacional, mas na parte da produção agrícola, da agricultura familiar sustentável e saudável.


Agora eles estão, também, pensando e fomentando a cultura. As cabeças pensantes do movimento estão sempre envolvidas com as questões substanciais da alma humana: alimentação, educação e cultura. Isso é a base da formação humana mesmo, acho fundamental e maravilhoso. Sempre tenho visitado o movimento, conhecido as escolas e a forma como eles se organizam. A própria forma como eles organizam as ocupações, envolvendo, por exemplo, homens e mulheres como lideranças, é muito à frente. Eu decidi abraçar e fazer parte disso, fazer shows, porque eu acredito nisso como um futuro.


Qual o desafio de ser artista nessa conjuntura política atual de perdas de direitos, enfraquecimento da democracia e casos de censura a artistas?


Estamos vivendo tempos tenebrosos. O caminho é resistir. Toda forma de censura atrasa a evolução como um todo. Isso que é uma coisa que a gente tá vendo que aconteceu em 1968, por exemplo, quando você teve um grau de censura muito forte com o AI 5. E [agora] a gente ficou à beira de um estado de exceção, teve o golpe da presidenta Dilma…


Então, eu acho que a censura representa mais um passo nos objetivos de quem está fomentando o golpe e os retrocessos políticos e sociais do Brasil. A censura faz parte da manipulação da elite privilegiada, porque a arte faz pensar, a arte faz a gente ser o que a gente é, faz a gente expandir os nossos horizontes, pensar além e contestar o sistema.


A censura é uma forma de evitar que as pessoas acordem, despertem. E não é só censura cultural, eu fiquei sabendo de um projeto de censura para pessoas que falarem sobre política nas redes sociais, por exemplo. Isso é uma censura absurda, a gente não poder se manifestar politicamente. Onde é que a gente vai parar?


Que artistas te inspiram nesse processo de produção artística e de resistência?


A arte é muito ampla. Tenho escutado muito Belchior, por exemplo. Recentemente, fiz um show em homenagem a ele, em São Paulo. A arte serve para isso, para enlouquecer a gente, para abrir os nossos horizontes, para nos fazer sonhar. Tem muita gente bacana fazendo a gente pensar. O próprio Criolo, o Emicida, a Karina Buhr, tem muita gente massa, fazendo um som massa e importante.


Tem, também, a Nação Zumbi, que resiste e luta há muito tempo. Eu acho que é isso, a gente tem artistas maravilhosos. O Brasil é muito rico nos seus movimentos todos. Como diz o Jorge Mautner, “a amálgama brasileira é a única do mundo”. Isso está em tudo, está na arte, está em todos os lugares.