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Por Coletivo de Comunicação do MST na Bahia
Da Página do MST

 

Em 1999, no município de Ipiaú, baixo sul baiano, cerca de 100 famílias Sem Terra iniciam um longo processo de luta em defesa da desapropriação da fazenda Dois Amigos, na esperança de produzir coletivamente alimentos saudáveis.


A partir dessa luta nasceu o Acampamento Carlos Marighella, que é fruto da articulação do MST na região e dos diversos trabalhos realizados nas comunidades carentes de Ipiaú. Porém, foi neste mesmo período que iniciam as repressões e despejos por parte dos latifundiários da região, com o objetivo de impedir, não apenas a desapropriação da área, mas o processo de construção do movimento.


Despejos e organização das famílias


O primeiro despejo foi realizado com muita violência, opressão e a prisão temporária de algumas pessoas. Ao sair da área, as famílias montaram o acampamento ãs margens da BR 116 e começaram a construir barracos com lona, madeiras, arames e pregos, na esperança de logo retornarem à terra recém-ocupada.


A cada dia sob a quentura da lona, o desconforto com a injustiça aumentava e isso refletia na organização de novas ocupações e na resistência das famílias. Os acampados sofreram 27 despejos ao longo desses 18 anos.

 

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Seu Doli, acampado do Carlos Marighella

De acordo com Adelino de Jesus, conhecido como Seu Doli, acampado, a cada despejo, diminuía o número de famílias. “Nós tínhamos uma grande sensação de perda a cada reintegração de posse, mas ao mesmo tempo havia uma esperança em cada família quando a gente retornava para a terra e outras novas se juntavam ao acampamento”.


A cada reocupação, novos desafios aparecem e dificultam o processo de organização e produção das famílias. A escassez de água foi um dos primeiros problemas que dificultou o cultivo de culturas de ciclo longo, como o cacau, o cravo da índia, o guaraná, o cupuaçu. Nesse sentido, a horticultura foi a principal fonte de renda da comunidade e essencial ferramenta de resistência, pois os produtos eram comercializados nas feiras.


Lucineia Durães, da Direção Estadual do MST, denuncia que as políticas públicas não chegam às famílias e os direitos básicos, garantidos na constituição brasileira de 1988, são negados, como educação, saúde, saneamento básico, nem mesmo infraestrutura de estradas. “Só a luta pela libertação da terra que vai garantir seres humanos emancipados”, afirma.


Entraves burocráticos


O processo de desapropriação da fazenda segue paralisado no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), tendo em vista que a fazenda foi dividida para os filhos do proprietário após seu falecimento. Essa questão tem complicado a realização dos trâmites legais necessários para efetuar a compra da área.


A partir disso, o MST entende que a mediação para o processo de desapropriação deve ser encaminhada pela Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA) para garantir sua aquisição. Porém, a fazenda também foi penhorada, um outro fator que implica na construção do assentamento e que exige da CDA um método eficiente na realização da desapropriação a partir de um leilão.


Nesse caso, a fazenda passou a ser de propriedade dos bancos pelo tamanho da dívida pendente com os órgãos financeiros durante o período de posse dos grandes latifundiários.


Durães acredita que esse é o momento das pessoas conhecerem a luta das famílias que gritam por direitos, dignidade e um pedaço de chão para trabalhar. “A luta pela terra é uma imposição do estado que não garante acesso aos trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra. Nós queremos um meio de desenvolvimento para todos e todas”, explica.


Reforma Agrária já!


Desapropriar a fazenda onde as famílias do Acampamento Carlos Marighella residem tornou-se um ato político e necessário para garantir avanços na pauta da Reforma Agrária na região, levando em consideração o tempo que as famílias estão na terra produzindo.


A conquista desse latifúndio representa para o MST um passo importante na conquista de direitos e, paralelo isso, impulsiona a luta de diversos homens e mulheres que tombaram na construção do acampamento. Hoje, as famílias seguem resistindo dentro da área, com a iminência de um despejo.

 

*Editado por Leonardo Fernandes