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Por Leonardo Fernandes
Da Página do MST

 

O governo da Venezuela e os setores políticos alinhados têm tratado o tema como uma ‘guerra econômica’. Fazendo um paralelo com o Brasil, seria algo parecido com o "dessangre", anunciado por Aécio Neves, logo depois de ser derrotado nas eleições pela presidenta Dilma Rousseff.


No caso brasileiro, as chamadas ‘pautas bombas’ foram deliberadamente usadas pelo Congresso como forma de inflamar a crise econômica, que já era uma fato, e provocar a consequente perda de apoio popular e parlamentar do governo petista.


No caso venezuelano, a estratégia é parecida, mas ainda mais simples. Com uma economia fragilizada por anos de dependência quase exclusiva da exportação de petróleo, a maior parte dos alimentos consumidos no país é de origem estrangeira.


Ao longo do processo, o governo bolivariano teve que tomar medidas para enfrentar uma prática que se tornou comum nos setores empresariais responsáveis pela distribuição de alimentos no país: o ‘acaparamiento’. A estratégia consiste em ocultar estoques de produtos com o objetivo de provocar dois efeitos imediatos: o aumento da procura e a consequente elevação dos preços, influenciando nos índices de inflação da economia; e a geração do descontentamento social.

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Uma das primeiras experiências de resistência à prática opositora foi a criação dos PDVAL, Mercal e MiniMercal, pontos de comercialização de alimentos criados pelo governo em parceria com os Conselhos Comunais. Mais tarde, a iniciativa foi ampliada com a criação da Rede Bicentenário de supermercados públicos.


Mesmo assim, durante os governos do ex-presidente Hugo Chávez, era comum a ausência de determinados produtos nas prateleiras do comércio. Ora açúcar, ora farinha, ora creme dental, papel higiênico, etc… Os produtos, que tinham registro de entrada no país, logo eram localizados pelas Forças Armadas e imediatamente postos à venda, sempre e quando ainda se encontravam aptos para o consumo. De toda forma, em maior ou menos escala, os efeitos do ‘acaparamiento’ sempre foram algo com o qual o governo venezuelano teve que lidar.


A partir da morte do ex-presidente Hugo Chávez, a prática foi intensificada. Associada a ela, a queda nos preços internacionais do petróleo afetou diretamente a rede de distribuição criada pelo governo. O resultado foi o desaparecimento de diversos produtos dos supermercados venezuelanos.


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Além da escassez induzida, outro problema é o aumento expressivo dos preços. Consequência do "acaparamimento", ele é também resultado de outra prática, o "bachaqueo", ou o conhecido "cambismo" à la Venezuela, só que nesse caso, de alimentos. O resultado dele é uma variação dinâmica dos preços, o que termina puxando rapidamente para cima os índices inflacionários.


Em resposta a essas práticas, o governo tem buscado controlar o preço de alguns produtos e instituiu os Clap – Comitês Locais de Abastecimento e Produção. O sistema consiste na distribuição direta de uma sacola com alimentos da cesta básica.


Além disso, o governo venezuelano tem investido em projetos de médio e longo prazo, como a produção de sementes agroecológicas, uma parceria entre o Ministério de Agricultura Urbana da Venezuela, o MST e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).


"O presidente Nicolás Maduro demandou da FAO junto com o MST a organização da produção de sementes, porque o básico da produção agrícolas é justamente as semente. E a Venezuela tem uma baixa capacidade de produção de sementes", explica o representante da FAO, Marcelo Resende.
 

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Mais de 30 produtores da capital venezuelana e dos estados de Miranda, Lara e Mérida receberam do MST uma doação de 50 quilos de sementes agroecológicas e insumos para o plantio. Segundo José Ramon Anzola, do Conselho Camponês do Estado Lara, no oeste da Venezuela, o esforço dos camponeses e camponesas em aliança com o governo bolivariano tem sido no sentido de transformar a Venezuela em um país autossuficiente na produção de alimentos, e que deixe de ser suscetível à reação do capital.


“O Comandante Chávez plantou uma semente em todos os camponeses e camponesas. Infelizmente, teve que ocorrer tudo o que está ocorrendo hoje em dia, a escassez de alimentos, a guerra econômica, para que nós pudéssemos tomar as rédeas sobre a questão produtiva. Hoje estamos certos de que nas mãos dos camponeses, dos trabalhadores rurais, está a salvação sobre o tema alimentar em nosso país”, disse Anzola.

 

 

*Editado por Rafael Soriano