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Por Sarah Fontenelle Santos 
Do Coletivo Flores.Ser de Comunicação


Na última terça-feira (1), o salão nobre da Universidade Federal do Piauí (UFPI) amanheceu ocupada pela resistência, cantoria e força com o povo camponês que temia a exclusão do curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEDOCs-PROCAMPO) na instituição.


Há quase dois anos  sem oferta de vagas, esta era uma pauta recorrente dos campesinos, que já haviam demarcado diversas passadas firmes de idas e vindas sem retorno da instituição. Após sete horas de ocupação, a vitória foi certeira, 240 vagas vão garantir autonomia e autodeterminação dos diferentes sujeitos que compreendem que a educação do campo tem que ser feita por quem vive do mesmo. 


O edital está disponível no site da UFPI. As inscrições serão iniciadas na próxima segunda-feira (14) e seguem até o dia 18 de agosto. A prova objetiva está prevista para ser aplicada no dia 22 de outubro deste ano. A taxa é de R$30. 


A publicação do edital ocorreu ainda durante a tarde desta terça-feira, após os estudantes terem anunciado que não sairiam sem a certeza de que seus companheiros teriam oportunidade de adentrar na universidade. O estudante Glauco Souza, quilombola e assentado, afirma “O reitor disse que o edital já estava pronto, mas só poderia ser publicado no dia seguinte por questões burocráticas, mas a gente tirou em assembleia que só iria sair da reitoria após a divulgação dele. É um direito da gente essas vagas. Eles só  agilizaram esse trâmite burocrático e publicaram o edital após termos ocupado e resistido. Abrimos o site e estava lá, só assim resolvemos sair em marcha”, disse o estudante, que está no 5º período. 

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O Quilombola ainda demarca a necessidade da luta coletiva pelos seus direitos diante dos representantes da reitoria lembrando os mais de 500 anos de exploração do povo negro e diz ainda que nem uma negociação será feita por representantes “sempre que tivermos alguma pauta viremos em coletivo, porque não trabalhamos com representantes, pois este modelo de representação do Brasil não funciona”, conclama sendo ovacionado pelos camponeses em consentimento coletivo. 


A universidade se forja em pintar de povo pelas mãos dos próprios protagonistas desta vida. A unidade na luta reuniu movimentos do campo como Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Comissão Pastoral da Terra (CPT), FETAG/PI, estudantes do curso de Licenciatura em Pedagogia da Terra da Universidade Estadual do Piauí (Parceria entre Movimentos Sociais do Campo, INCRA - PRONERA e UESPI). 

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O descaso, a unidade do campo e da cidade e as lutas que se anunciam


A felicidade e a certeza no olhar de quem sabe que só com luta se muda a vida, tomando a sua dianteira era a estampa rabiscada de tinta e suor no rosto do jovem indígena Sávio Santos. “A Educação do Campo não é prioridade para as instituições, temos muitas outras pautas para garantir a nossa permanência na universidade, mas hoje eu agradeço a luta e o amor de quem acreditou que podemos garantir o curso e a entrada de nossos companheiros na universidade”, diz. 


O cenário dá um recorte da luta pela educação no país que tem recebido duros cortes durante o Governo Michel Temer. Segundo o Correio Braziliense, em abril deste ano, o corte na pasta foi de R$ 4,3 bilhões. Muito embora, o Ministro Meireles tenha afirmado que os cortes no setor respeitaram os limites constitucionais, as universidades já demonstram o baque do descaso. Na UFPI os estudantes estão há cerca de 15 dias sem internet e os mesmos suspeitam de falta de verba, a Universidade de Brasília já anunciou cortes amargos no cardápio do restaurante universitário e no Rio de Janeiro, já se ameaça atraso no período, só para citar alguns exemplos. 


Segundo Adilson Apiaim, Setor de Educação do MST os cortes “afetarão direto o programa PROCAMPO que não foi repassado nada do governo federal pra universidade e de certa forma a universidade está bancando com recursos internos. O Curso de Licenciatura de Pedagogia da Terra, Agronomia e Geografia, por exemplo, estão sofrendo com esse sucateamento. O PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) sofreu um corte grande, de 28 milhões passou a 11 milhões, sendo que só foram liberados federal esse ano apenas 4 milhões, o que não é suficiente para sustentar os mais de 70 cursos em todo o Brasil ”, prevendo um cenário de um muita resistência neste período, estaremos em luta afirma o dirigente do Setor de Educação do MST/PI.