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Por Leonardo Fernandes
Da Página do MST

 

Ainda corria no Congresso Nacional o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff quando em maio de 2016, o MST ocupou pela primeira vez a fazenda Esmeralda, no município paulista de Duartina. A propriedade tem cerca de 1500 hectares e está registrada em nome do arquiteto João Baptista Lima Filho, conhecido como ‘Coronel Lima’, um antigo amigo do presidente golpista, Michel Temer.


Em 2017, o movimento novamente realizou uma ocupação de seis dias, já depois de a fazenda ter sido mencionada por um dos executivos da JBS, em delação premiada. “Aquele coronel é dono de uma fazenda que foi invadida uma vez, e o Paulinho me contou que o presidente Michel Temer falou: ‘pô Paulinho, invadiram a fazenda lá. Tem que tirar o povo de lá. [...] chama o pessoal que você conhece e vai tirar esse povo de lá’. Deu a entender inclusive que a fazenda era dele”, relatou Ricardo Saud ao Ministério Público Federal.


Outros executivos da JBS teriam apontado a relação entre Lima e Temer, o que originou a Operação Patmos, da Polícia Federal, em maio de 2017. Segundo o executivo Florisvaldo Caetano de Oliveira, da empresa JBS, foi entregue R$ 1 milhão ao Coronel Lima na campanha de 2014, valores que, segundo o delator, faziam parte de um acordo entre Temer e Joesley Batista. Ainda durante a operação que investigou a sede da Argeplan, em São Paulo, foram encontrados papeis que tratam da campanha eleitoral de Temer em 2002, além de documentos sobre a reforma da casa de uma das filhas do peemedebista, Maristela Temer.


Os relatos de Saud, juntados a documentos apreendidos em operações da Polícia Federal, devem complicar ainda mais a já complicada gestão de Michel Temer. O caso deve ser objeto de nova denúncia que será apresentada pelo MPF contra o presidente da República nas próximas semanas.


Temer e Lima: histórias cruzadas


As histórias de Lima e Temer se encontram ainda na década de 80, quando o atual presidente ocupou pela primeira vez o cargo de Secretário de Segurança Pública de São Paulo, durante o governo de Franco Montoro (PMDB). Em 1992, e já eleito Deputado Federal, Michel Temer retorna à SSP/SP. No ano seguinte, a empresa Argeplan, da qual é sócio o Coronel Lima, fecha dois contratos com a Secretaria de Segurança Pública no valor de R$ 500 mil.


Na campanha seguinte, em 1994, Lima e a Argeplan fizeram doações para a campanha de Temer. A Argeplan doou R$ 150 mil, 40% do total arrecadado por Temer através de empresas, tornando-se naquele ano a maior doadora.


Segundo Mercedes Zuliane, “o crescimento econômico e político de ambos aconteceu simultaneamente, evidenciando a parceira de Temer e Coronel Lima a longo prazo”, diz.

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A cada campanha eleitoral realizada, o patrimônio de Temer foi-se incrementando, e como consequência, aumentaram também os contratos realizados pela Argeplan com empresas públicas. De 2006 a 2010, por exemplo, atuando como Deputado Federal pelo Estado de São Paulo, Temer viu seu patrimônio passar de pouco mais de dois milhões de reais, para mais de seis milhões. Naquele ano, ele se tornaria o presidente da Câmara dos Deputados, passo imediatamente anterior a tornar-se vice-presidente da República, na chapa da ex-presidenta Dilma.


Em contrapartida, ainda em 2010, a Argeplan foi contratada pela Valec, empresa ligada ao Ministério dos Transportes, para supervisão das obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, entre Ilhéus e Barreiras. O contrato foi fechado pelo valor de R$ 26,5 milhões, mas recebeu cinco aditivos, chegando a R$ 76 milhões.


No ano seguinte, em 2011, o Coronel Lima aparece pela primeira vez como sócio da Argeplan, segundo a Junta Comercial de SP, com um capital de R$ 250 mil, embora já representasse a empresa há décadas.


No dia 24 de maio de 2012, a Argeplan participa do contrato Eletromecânico 1 relativo à área nuclear da Usina de Angra 3, assinado pela finlandesa AF Consult LTD, pelo valor de aproximadamente R$ 162 milhões. Por exigência contratual, a AF teve que subcontratar empresas brasileiras e, dessa forma o fez com a AF Consult BR (criada em 2006) e a Engevix Engenharia. A Argeplan entrou como sócia da AF Consult BR em 2011, um ano antes do contrato com Angra.


Documentos da Junta Comercial de São Paulo acessados pela Polícia Federal indicam que a Argeplan criou a AF Consult BR e depois foi contratada por ela mesma. A obra era de responsabilidade da Eletrobrás, controladora da Eletronuclear, comandada pelo PMDB. Também participaram das obras de Angra 3 as empresas UTC, Andrade Gutierrez, Camargo Correa e Odebrecht.


Em uma tentativa de selar acordo de delação premiada, José Antunes Sobrinho Filho, sócio da Engevix, revelou que 1% do contrato era em propina para o PMDB, e apontou o Coronel Lima como interlocutor.


Não fosse a luta do MST…


Em maio de 2016, como forma de protestar contra a articulação golpista liderada por Michel Temer e o PMDB, o MST ocupou pela primeira vez a fazenda Esmeralda. Também foi a primeira vez que se ouviu falar na propriedade e na relação íntima com o então vice-presidente da República.


Já em 2017, a Polícia Federal teve acesso a documentos relativos da Argeplan que demonstravam a relação da empresa e de seus sócios com a família Temer. Nesta segunda-feira (7), o jornal Folha de São Paulo publicou reportagem na qual trata do conteúdo dos documentos encontrados. Segundo o jornal, entre os documentos, há listas de candidatos, agendas e anotações sobre a distribuição de material gráfico e contabilização de gastos das campanhas para deputado federal e estadual do PMDB no estado de São Paulo.


Para o MST, já não há dúvidas de que o Coronel Lima é um ‘laranja’ de Michel Temer. Segundo a Folha de São Paulo, “em Duartina, [ele] é tido como poderoso a ponto de ninguém se eleger sem seu apoio na região”. Ainda segundo o jornal, moradores da cidade “apelidaram a propriedade rural como ‘fazenda do Temer’”.

 

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Foto: Mídia Ninja

 

 

*Editado por Rafael Soriano