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Por Leonardo Fernandes
Da Página do MST
Fotos: Pablo Vergara


“Tudo está contaminado / Terra, caule, folha e fruta / Pior é a nossa água / Isso eu acho um absurdo / Ninguém toma providência / Para acabar com isso tudo”. Os versos da poetisa Maria do Levi, moradora da comunidade de Tomé, na Chapada do Apodi, no Ceará, retrata uma realidade comum a todos os brasileiros, mas difícil de ser visualizada pela maioria deles. O tema dos agrotóxicos e transgênicos e os graves riscos para a saúde do ambiente e da população foi objeto do seminário 'Agrotóxicos e Transgênicos: impactos sobre a alimentação, saúde e meio ambiente', durante o segundo dia da Feira Nacional da Reforma Agrária, que ocorre até o próximo domingo (7), no Parque da Água Branca, em São Paulo.

O descontrole na utilização desses químicos na produção de alimentos, fez com que o Brasil se tornasse em 2008 o maior consumir de venenos do mundo. E a situação pode piorar ainda mais, caso não haja uma forte resistência de todos os setores da população. Isso porque o governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB) tenta facilitar os novos registros de venenos no Brasil, a partir de 18 projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional, conhecidos como o 'Pacote do Veneno'.

“Todos esses projetos de lei são prejudiciais à saúde da população, às economias de pequeno porte, aos interesses dos povos e comunidades tradicionais. Só são úteis às grandes empresas que lucram ainda mais. Isso deixa claro que o atual governo está subordinado aos interesses das grandes transnacionais”, afirmou o agrônomo Leonardo Melgarejo.

Nivia Regina, da Direção Nacional do MST e coordenadora da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, destaca que, com a mudança de governo, depois do golpe de estado de 2016, as novas autoridades buscam esvaziar o papel de órgãos públicos que historicamente foram responsáveis pelo controle da inserção de novos venenos na agricultura brasileira.

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“Com esse governo golpista, o que temos visto, principalmente na pauta dos agrotóxicos e transgênicos, é a aceleração do retrocesso. Isso não ocorre somente na pauta geral, como é o caso das reformas da Previdência ou a trabalhista, mas também sobre esse tema que é tão caro para toda a população. Ao ponto de promover uma flexibilização do controle desses alimentos. Flexibilização inclusive da atuação de instituições como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), jogando a pauta dos agrotóxicos para o escanteio”.

Segundo a professora da Universidade Federal do Cariri e representante da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Ada Cristina Pontes, somente as grandes empresas são beneficiadas por essa política. “A produção do agronegócio, em larga escala, de commodities voltadas para exportação, gera grandes volumes de lucros para as grandes empresas que detém esses processos. Mas o ônus, as doenças, a contaminação ambiental gerada por esse modelo recai principalmente sobre os grupos mais vulnerabilizados, ou seja, principalmente sobre os trabalhadores rurais, os agricultores, os moradores das cidades dos entornos dessas grandes empresas”.

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Embora a repartição dos malefícios da utilização de agrotóxicos na produção de alimentos, alguns são mais prejudicados que outros. “Nós costumamos dizer que há um processo de injustiça ambiental, porque ao mesmo tempo que a liberação indiscriminada de alimentos transgênicos e de agrotóxicos beneficiam uma pequena parcela da população que lucra através desse tipo de produção, os malefícios recaem sobre a maioria dos brasileiros, que são desde os trabalhadores rurais que trabalham nessas produções ou vivem no entorno delas, até os consumidores que estão nos grandes centros urbanos. Hoje não podemos dizer que determinado setor da população brasileira não esteja exposto ou vulnerável a esse tipo de problemas. Todos estão expostos, alguns mais que outros”.

O seminário ainda contou com a participação de Fernanda Nogueira, representante do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que atestou a relação direta entre o aumento de incidência de câncer e o descontrole na utilização de agrotóxicos e transgênicos para a produção de alimentos. Segundo o Inca, no Brasil, entre 2014 e 2015, 576 mil novos casos de câncer foram registrados. Em todo o mundo, uma média de 14 milhões de novos casos da doença são diagnosticados anualmente, com um total de 8,2 milhões de mortes decorrentes.

Outro dado alarmante apresentado por Nogueira é o fato de mais de 80% dos cânceres diagnosticados no Brasil serem consequência de fatores ambientais, entre eles, a utilização de químicos na produção de alimentos. Menos de 20% dos casos são por fatores hereditários.


Agrotóxico é veneno. Mas afinal, o que são os transgênicos?

“As plantas transgênicas são aquelas que foram modificadas para vender mais veneno ou para produzir dentro delas o próprio veneno, tornando-as mais resistentes às pragas. Ou seja, é um produto que foi geneticamente modificado para atender aos interesses das empresas, mas muito perigosos para toda a população”, explica Melgarejo.

O agrônomo ainda alerta sobre o fato das pessoas consumirem alimentos transgênicos sem dar-se conta. Para isso, ele sugere o exemplo do milho, usado para na composição de diversos produtos. “O milho é uma planta maravilhosa, dela podemos fazer praticamente tudo. E hoje, com os processos de industrialização, a partir do milho se faz até fralda. A cerveja é feita de milho. E o milho transgênico termina levando para todos esses outros produtos as características dos transgênicos. São plantas que foram preparadas para tomar um banho de agrotóxicos sem morrer, e portanto, carregam dentro delas resíduos de agrotóxicos”.

Segundo Melgarejo, a modificação genética em plantas só beneficia aos grandes produtores. “Há produtor brasileiro que tem mais de 50 mil hectares cultivados de uma mesma planta. Para ele é mais fácil jogar veneno de um avião. E para fazer isso, só em planta transgênica, que é transformada para não morrer ao tomar um banho de veneno”.

“Ganham com esse modelo os grandes produtores, que tem a sua produção facilitada para a geração de lucro. Mas todos os outros, pequenos produtores rurais e mesmo a população consumidora, perde muito com essas práticas”, afirmou Melgarejo que concluiu dizendo que “nós precisamos é de informação e organização. Essa feira, as organizações sociais e o MST cumprem esse papel de uma maneira muito importante. São o farol de luz apontando para um futuro que pode ser diferente desse presente”.

Enquanto isso, do lado de fora do seminário...

Dona Maria Sivanira, 56 anos, Sem Terra assentada há 13 no assentamento 17 de Abril, no estado do Sergipe, ao ser questionada sobre a qualidade dos produtos que vende na 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, falou logo de partida: “Pois aqui não tem veneno não. Pra quê? Nós cuidamos da nossa roça do nosso jeito, fazemos os remédios naturais para curar as pragas. Por isso aqui só tem alimento saudável”.

Ela é uma das 800 trabalhadoras e trabalhadores Sem Terra de 23 estados do Brasil, que participam da feira no Parque da Água Branca e que comercializam uma enorme variedade de alimentos saudáveis, produzidos nos acampamentos e assentamentos da Reforma Agrária.

Além dos seminários e da feira in natura, tem ainda muita comida boa no espaço 'Culinária da Terra', teatro, música poesia e muita boa prosa sobre a arte de se alimentar.

Dê uma conferida na programação e confirme sua presença no evento.

*Editado por Gustavo Marinho