Por Leonardo Fernandes
Da Página do MST


Segundo o relatório da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) lançado em 2015, o atual modelo de produção brasileiro, que implica na “apropriação, exploração e expropriação da natureza e da força de trabalho”, demonstra o poder do sistema sócio-econômico em que estamos inseridos. 


O documento destaca a aprovação do Código Florestal brasileiro, que evidenciou “a imposição dos conceitos ruralistas, ou seja, os recursos naturais vistos como matéria-prima à disposição do capital, em contraposição ao pensamento contra-hegemônico, que estabelece limites de interesse público”.


Ainda segundo a Associação, assim como em outras regiões de mundo, no Brasil, “há um processo crescente de apropriação privada da natureza, em detrimento das distintas formas de apropriação social e/ou pública”. Esse avanço do modelo capitalista sobre o campo inaugurou diversos métodos de artificialização das técnicas produtivas, como o uso de fertilizantes e agrotóxicos, com o objetivo de aumentar a margem de acumulação de riquezas por parte dos agroindustriais. E embora essa prática esteja quase que restrita aos acumuladores do agronegócio, suas consequências nefastas são compartilhadas entre todos.


O dossiê afirma que, “em decorrência desse modelo químico-dependente de agrotóxicos, a cadeia produtiva do agronegócio se configura como um processo de insustentabilidade ambiental, pois no seu espaço cria-se um território com muitas e novas situações de vulnerabilidades ocupacionais, sanitárias, ambientais e sociais. Tais vulnerabilidades induzem eventos nocivos que se materializam em trabalho degradante e escravo, acidentes de trabalho, intoxicações humanas, cânceres, más-formações, mutilações, sequelas e ainda contaminação com agrotóxicos e fertilizantes químicos das águas, do ar, da chuva e do solo em todos os espaços ou setores da cadeia produtiva do agronegócio”. A médio prazo, a utilização de agrotóxicos na produção alimentícia provoca a erosão dos solos e a extinção de espécies animais fundamentais para o equilíbrio ambiental.


O relatório da Abrasco destaca alguns dos mais graves casos de contaminação ambiental por uso de agrotóxicos nas lavouras. Um deles é o da região do planalto mato-grossense, onde há enormes áreas de cultivos de soja, cana-de-açúcar, algodão, milho e arroz, e por onde passam diversos afluentes do rio Paraguai.


Análises de amostras de sedimentos colhidas de um dos principais tributários do rio Paraguai, o Miranda, detectaram a presença de vários compostos utilizados na produção de agrotóxicos: “piretroide (l-cialotrina), de baixa persistência, mas de alta toxicidade para peixes e invertebrados aquáticos; dieldrin e p,p’ DDE (metabolito do DDT) em 100% das amostras (1,2 a 14,4 mg/kg); e o p,p’ DDT (1,0 mg/kg), persistente e de uso proibido” no Brasil.


Segundo o dossiê, “a detecção de resíduos de agrotóxicos no planalto mato-grossense, onde nascem os rios e afluentes do rio Paraguai, e na planície pantaneira (pantanal), é preocupante. Em termos ecológicos, o efeito crônico da contaminação, mesmo em baixas concentrações, implica riscos sobre a saúde e o ambiente a médio e a longo prazos, como a diminuição do potencial biológico de espécies animais (diminuição do sucesso reprodutivo dos peixes, por exemplo) e vegetais”.


Diversos outros casos têm sido denunciados em várias regiões do Brasil. Nívia Regina, da direção nacional do MST, destaca o exemplo dos Indígenas Guaraní-Kaiowá, que vivem na Terra Indígna Tey’i Juçu, no estado do Mato Grosso do Sul. Segundo ela, desde 2005 eles denunciam “ataques sofridos com a pulverização aérea de agrotóxicos sobre suas aldeias, acompanhadas de ameaças de pistoleiros. Além de sofrer intoxicações, a água da comunidade foi contaminada”.


Frente aos graves registros de danos socioambientais gerados pelo modelo capitalista de produção de alimentos, o documento da Abrasco conclui que é importante elevar o nível de consciência da população em geral sobre a insustentabilidade socioambiental do modelo de produção do agronegócio. “Uma diferença fundamental entre agronegócio e agricultura está presente nos nomes: no agronegócio não há cultura, pois não há povo, a relação homem-natureza é mediada pelos valores do mercado, do negócio.


A sociodiversidade cultural presente no campo e na floresta do Brasil se expressa nos povos que produzem alimento, vivem na terra e da terra, das águas e da floresta”, conclui.