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Por Reynaldo Costa
Da Página do MST


O titulo acima reflete o sentimento de homens e mulheres que participaram da Jornada de Alfabetização realizada em oito municípios do Maranhão. Em sua reta final, o projeto mostra que ler e escrever são passos importantes na autonomia do cidadão.


A Jornada de Alfabetização é um programa que utiliza o método de alfabetização “Sim, eu posso!”, é uma parceria do governo do Maranhão e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).


As turmas de estão instaladas em oito dos 30 municípios de menor Índice de Desenvolvimento Humanos (IDH) do estado. A intenção é que políticas de educação, somados a politicas de saúde e geração de trabalho de mais qualidade de vida a população local.


Dentro dessa perspectiva, o desafio da Jornada insere-se no enfrentamento de uma realidade em que o alto índice de analfabetismo persiste.Cerca de 19% da população maranhense é analfabeta. Destes, mais da metade da população com mais de 60 anos, cerca de 55,7%, faz parte das estatísticas.

O estado fica atrás apenas do Piauí e Alagoas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013.

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A concretização da Jornada


No início o projeto encontrou dificuldades, como relatam os coordenadores. A professora Renata dos Santos da cidade de Jenipapo dos Vieiras, relata que muitos desses programas não saíram do papel, causando um descrédito entre a população.


“Bem diferente do que já foi visto anteriormente, o ‘Sim, eu posso’, é um método fácil tanto para nós educadores, quanto para os educandos. E a forma como é gerenciado e debatido com a comunidade causa um conforto nas pessoas envolvidas.”


A Jornada de Alfabetização hoje é uma grande mobilização, cerca de 10 mil pessoas estão envolvidas. São 20 militantes do MST, uma brigada nacional de alfabetização formada por pessoas de 10 estados, que tem a responsabilidade pedagógica de acompanhar o desenvolvimentos dos trabalhos nos municípios, 72 coordenadores de turmas, que acompanham diariamente todas as questões e cada turma e 628 turmas que ao todo atingem 9.528 educandos.

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Eficiência


De forma geral o método de alfabetização, “sim, eu posso!”, utilizado na jornada no Maranhão consegue fazer o individuo aprender a ler e escrever em quatro meses. Essa é a média registrada nos oito municípios onde está sendo aplicado o projeto. Essa primeira parte é trabalhada com a ajuda de vídeo aulas, uma teledramaturgia (telenovela) e com acompanhamento de um educador preparado para utilização deste método em sala de aula.


Após os quatro meses o projeto avança para os chamados “Círcu­los de Cultura”, uma metodologia de educação popular baseada nas propostas do educador Paulo Freire. Nesta fase, quatro temas dão a linha para o aprendizado: cultura, trabalho, participação politica e história.


No município Jenipapo dos Vieiras, que tem o 6º em pior IDH do estado, a jornada atinge 30% da população analfabeta.

É um verdadeiro mutirão. “Essa tem sido a realidade em todos os municípios onde acontece o programa. A Jornada de Alfabetização virou uma jornada de solidariedade pelo ato de ler e de escrever. Muitos sujeitos têm se somados.” Explica Lizandra Guedes, militante do MST e uma das coordenadoras da Jornada.


Neste município o destaque são comunidades indígenas, onde a vontade de aprender a ler e escrever tem lotado salas de aulas. Como na Aldeia Kriuli onde o pequeno Hamilton Guajajara de 10 anos que nunca tinha ido à escola, em quatro meses já escreve seu nome e o dos colegas, ele começou a frequentar as aulas apenas para acompanhar seu pai.


A professora Teresa Paiva que é também assistente social e acompanha o projeto de alfabetização faz um analise do desempenho do “Sim, eu posso”. “No método convencional o individuo aprende a ler e escrever num período médio de um ano de atividade escolar. No método utilizado no Maranhão em cinco meses se atinge esse patamar. Estudando apenas duas horas por dia.”

 

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O prazer em ler e escrever

 

Em quatro meses, pessoas com dificuldades de escrever qualquer letra, a mais simples que seja, passaram a escrever cartas, e até compor poemas e musicas. Como Francisco da Conceição que aos 60 anos, ele está aprendendo a escrever para registrar as suas composições de musicas e poemas.


Alguns dos alfabetizando tiveram como primeira iniciativa escrever uma carta para um parente que vive longe, ou agradecendo a educadora,, Mas Dona Valdener de Moura,53, de São Raimundo Doca Bezerra, escreveu uma reivindicação ao Governo do Estado. Na carta ela agradece a oportunidade, se diz feliz em estar aprendendo e direcionando sua escrita ao governador Flávio Dino, pede a continuidade do programa.


Outra simbologia muito importante foi a do Sr. Carlos Isaías, de 45 anos. Ele, no terceiro mês de estudos, logo que aprendeu a escrever o nome, foi trocar a Carteira de Identidade para fazer uso do direito de assinar em seu próprio documento.


São muitos as demonstrações de contentamento com o programa, mas isso é apenas um passo para a emancipação do cidadão. E o que todos querem agora é continuidade.

 

Encerramento e continuidade

Todo o mês de janeiro foi deixado para as aulas finais, confraternização e comemoração. e também está sendo realizado seminários no municípios abrangidos pelo programa para debates e balanço da Jornada de Alfabetização.


Em fevereiro, nos dias 16 e 17, será realizado em São Luís um seminário final, com cerca de mil pessoas, entre voluntários, educandos, educadores e coordenadores, para um balanço geral e entrega de certificados.


Sobre a continuidade, que é um desejo e reinvindicação também do MST, já há decisão do Governo do Estado por continuar. A principio, a meta é ampliar para mais municípios e tentar superar o analfabetismo em alguns dos já trabalhados.

 

O Sim, eu posso! E o MST

 

Assim como a luta pela terra, a educação é uma das bandeiras embrionárias do Movimento Sem Terra. É tanto que ao ocupar o latifúndio a primeira tarefa dos trabalhadores ao chegar a terra é organizar a escola.


O contato do MST com o método Sim, eu posso! Deu-se no inicio da década passada, e em 2006, o Movimento fez as primeiras experiências em solo brasileiro. Em 2008 o MST erradicou o analfabetismo em quatro assentamentos de reforma agrária em uma parceria com o governo de Jackson Lago.


Outras localidades: Fortaleza, Ceará, Parauapebas , Pará e Macapá, Amapá, também utilizaram o Sim, eu posso!, todos com ajuda do MST.  


Histórico


O Método de alfabetização “Sim, eu posso!” foi elaborado em Cuba, e foi uma das principais ferramentas de na superação do analfabetismo naquele País, ainda na década de 60 do século passado.


Recentemente, Bolívia e Venezuela foram reconhecidas pela UNESCO como países que superaram o analfabetismo. Hoje, países como Canadá, Austrália e Espanha também utilizam o método para baixar seus índices de analfabetismo.