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Foto: Cecília Luedemann


Por Maria Terra e Jade Percassi


Durante muitos anos, a contribuição da professora aposentada da USP e critica teatral, Iná Camargo Costa tem sido fundamental para a tomada ou o aprofundamento da consciência sobre o desafio da produção artística e cultural na batalha ideológica da luta de classes de maneira geral. E não foi diferente com o MST.


Sua aproximação ao Movimento Sem Terra e as provocações, que surgiram a partir da relação como assessora da Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do Assaré, propiciaram aos militantes uma significativa ampliação do repertório histórico e formal das ações político-estéticas desenvolvidas em outros momentos por diferentes processos revolucionários e de resistência. Sempre nessas contribuições uma especial dedicação ao teatro épico e às iniciativas de agitação e propaganda (agitprop), o que acabou impulsionando/influenciando uma produção cada vez mais exigente e articulada com a formação política e a organização da luta.


Por ocasião do relançamento do livro A hora do teatro épico no Brasil, lançado pela primeira vez em 1996, a Companhia do Latão, o Grupo de Pesquisa Modos de Produção e Antagonismos Sociais (MPAS), o Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS), a Rede Internacional Teatro e Sociedade e o MST promoveram um ciclo de debates sobre a obra e o trabalho crítico da autora.


O evento que ocorreu nos dias 26 e 27 de outubro contou com a participação de trabalhadores do teatro, professores, estudantes, militantes e intelectuais.


A obra de Iná recupera e analisa as principais experiências de teatro político no contexto dos anos 60, dedicando especial atenção aos Centros Populares de Cultura (CPC), que tinham como um dos objetivos principais garantir a socialização dos meios de produção cultural.


Quando em funcionamento, os CPC's estabeleceram vínculos com o conjunto da classe trabalhadora, como os sindicatos, os estudantes, as Ligas Camponesas e produziram peças teatrais que dialogavam diretamente com as lutas do campesinato. Um exemplo disso foi Mutirão em Novo Sol, apresentada no I Congresso Nacional Camponês, em 1961, e que passou a fazer parte do repertório do CPC. Outra peça a tratar da mesma temática foi Os Azeredo mais os Benevides, de Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha. Temas relacionados à nacionalização do petróleo, às lutas pela universidade pública e o imperialismo, também estiveram presentes nas produções dos CPC's.


No MST, o trabalho de Iná, ao aprofundar as dinâmicas dessas experiências de cultura e política, bem como apresentar conceitos que foram marcos nos processos de formação do próprio Coletivo de Cultura, e do movimento como um todo, como a discussão de militante-artista e artista-militante, foi uma contribuição fundamental para a criação das brigadas e grupos teatrais desde o início dos anos 2000, juntamente com a colaboração do dramaturgo Augusto Boal, um dos protagonistas do processo teatral reconstituído na obra, tanto como integrante do Teatro de Arena quanto como colaborador dos CPC's. Sua trajetória e produção são analisadas minuciosamente no livro relançado pela Editora Expressão Popular.


Em 20 anos, o livro teve um importante papel de propiciar reflexões relevantes para grupos de teatro e movimentos sociais que mantém, permanentemente, a preocupação com a dimensão simbólica da luta. A publicação, que atualmente integra a coleção Arte e Sociedade, “foi, e continua sendo, um elo entre diferentes gerações”, como disse a própria autora no final do seminário, “e só por isso já valeu escrever e lançar a obra”, finaliza.