LuizBeltrame.png


Por Camila Bonassa
Da Página do MST


Dizem que os poetas são feitos de dores e amores. Luiz Beltrame de Castro não contrariava essa premissa. Suas poesias refletiam suas dores e seus amores. A dor de deixar a terra natal e buscar uma nova vida em paragens distantes; de ter que trabalhar para o “patrão”; de perder cedo sua companheira de vida e de se despedir de dois de seus filhos; de ver “tanta gente sem terra com tanta terra sobrando”. O amor pela terra, pelos filhos, netos, bisnetos e tataranetos. O amor pela vida e pela luta. Vida que viveu intensamente. 


A trajetória de Seu Luiz – como ficou conhecido - é o retrato da vida de grande parte da população brasileira. Nascido em 10 de outubro de 1908, o baiano de Paramirim migrou ainda jovem para São Paulo em busca de trabalho. Passou por várias regiões do estado labutando nas lavouras de café, algodão e cana-de-açúcar.


Nunca frequentou escola. Ainda adolescente decorava não só as poesias, mas as músicas que fazia para animar os bailes na roça. As letras guardadas na “caixola” só conheceram papel e caneta aos 14 anos, quando o pai o ensinou a ler e escrever. 


“E assim o tempo passou. As letras eu não conhecia. E para conhecer elas meu pai é que me valia. Completei 14 anos e escrever eu já sabia. Já assinava o meu nome, lia as coisas que eu queria”.


Seu Luiz nunca deixou de decorar seus poemas e declamá-los. A memória sempre foi uma capacidade invejável do poeta camponês. Lembrava o nome de cada camarada que conheceu ao longo da militância.


A terra foi um dos temas mais presentes em seu repertório. Mas não somente aquela que sonhava para si. Em 1984 escreveu: “Eu quero o Brasil com tudo com saúde e educação. Eu quero a liberdade pra toda população. Um Brasil onde os sem terra tenham um pedaço de chão”. Porém, somente em 1991 que concretizou o sonho ao chegar ao Assentamento Reunidas, em Promissão, para viver e trabalhar com um dos filhos. Empunhou a bandeira do MST e se fez, mais que poeta Sem Terra, um militante da Reforma Agrária.


Símbolo da luta pela terra, seu Luiz marchou para transformar em realidade os sonhos retratados em seus poemas. Aos 88 anos, colocou os pés na estrada junto aos 1500 Sem Terra na Marcha Nacional por Terra, Emprego e Justiça. A experiência de dois meses de caminhada - entre São Paulo e Brasília - ficou registrada nos 27 versos que compõem a poesia “A marcha de 1997”.


Em 2001, ao comemorar mais um ano de vida, escreveu: “Com 93 anos minha coragem ainda dá de voltar a pé a Brasília, se por acaso precisar!” Promessa cumprida no ano de 2005. Com a mochila nas costas e empunhando as bandeiras do Brasil e do MST, aos 95 anos, puxou as fileiras da Marcha Nacional pela Reforma Agrária, realizada de Goiânia a Brasília.


As mãos que habilidosamente manejavam a enxada eram as mesmas que sabiamente empunhavam a caneta. Transformava tudo o que via e vivia em versos. Alguns das dezenas de poemas escritos foram publicados em dois livros: “Sonho com a Terra” (2002) e “Sonho com a Vida” (2009). 


O poeta Sem Terra nunca esmoreceu da luta. As palavras rabiscadas lentamente pelas mãos calejadas que ganhavam forma de celebração, de denúncia, de história. Há quase dez anos compôs versos que seguem atuais. “Neste 'camim' que eu vou certo não vou enganar com justiça social com a força popular. Aqui no nosso Brasil do jeito que o povo tá, a constituinte brasileira de qualquer maneira, o Brasil precisa mudar”.


Com o falecimento do filho, Seu Luiz foi morar em Coroados (SP), com uma das filhas, onde permaneceu até sua partida, em 26 de julho de 2016. Partiu aos 107 anos, sem ver realizado o sonho da Reforma Agrária no Brasil. No entanto, nos deixou um legado de amor e de luta, pela terra e pela vida.


*Neste dia 10, Seu Luiz Beltrame, poeta da vida e da luta, completaria 108 anos. 
**Editado por Iris Pacheco