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Mulheres na Agrofloresta da Escola Latino-Americana de Agroecologia

Por Michele Torinelli
Do Vida Boa


“Gostaria de começar com ‘Fora Temer’, mas com esse projeto Escola Sem Partido a gente fica proibido de falar essas coisas”, provoca o professor Felipe Pinho de Oliveira na primeira aula de Gênese e Classificação de Solos da segunda etapa do curso de Tecnólogo em Agroecologia da ELAA (Escola Latino-Americana de Agroecologia). A ELAA é um iniciativa do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) junto à Via Campesina que recebe militantes de todo o subcontinente para que possam aprender e disseminar agroecologia.


A escola, localizada no Assentamento Contestado, comunidade do MST no município da Lapa (PR), completou onze anos no último dia 27 e já formou três turmas de tecnólogos em parceria com o ITFPR (Instituto Técnico Federal do Paraná). A quarta turma conta com estudantes do Brasil, Paraguai, Bolívia, Chile, Argentina e República Dominicana. O outro curso oferecido na ELAA é de Licenciatura em Educação do Campo, Ciências da Natureza e Agroecologia, e está na primeira turma.


Simone Aparecida Rezende, da coordenação pedagógica do MST, explica que a proposta de educação da ELAA se divide em três eixos – acesso ao conhecimento científico, conhecimentos populares e troca de saberes entre os povos da América Latina – e está calcada na pedagogia do oprimido de Paulo Freire e no materialismo histórico.


“Brincamos que formamos ‘militantes-técnicos-pedagogos’ em agroecologia, porque educação e agroecologia não podem estar desvencilhadas”, conta Simone. A coordenadora destaca que o projeto Escola Sem Partido, que tramita no Congresso Nacional, é antagônico à proposta educacional do MST e demonstra como o período político pelo qual passamos é “temerário”.


A Escola funciona no sistema de alternância – o que significa que o estudante passa um período em sua comunidade e outro período na Escola, para que possa experienciar o conhecimento adquirido junto com sua comunidade e para que os cursos atendam à demanda de várias regiões. Sendo assim, os cursos na ELAA são intensivos e os educandos moram na escola durante o período de aulas – por isso a ELAA conta com estrutura de refeitório e alojamento.

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Aula no casarão, com a arte deixada pelo pessoal da mística
no chão: Latinoamérica unida.


A ELAA é uma proposta que surge da Via Campesina, uma articulação mundial de movimentos camponeses, em 2005 no Fórum Social Mundial em Porto Alegre e região, quando Hugo Chávez esteve presente. O projeto abarcava duas escolas, uma no Brasil e outra na Venezuela, que também se consolidou – é a IALA (Instituto de Agroecologia Latino-Americano) Paulo Freire. Existem outros IALAs: o Guarani no Paraguai, um no Chile voltado para as mulheres e outro na Colômbia, inaugurado esse ano – além de experiências no Equador, Guatemala e Argentina.


Metodologia: diálogo de saberes


Além de coordenar a ELAA, Simone é professora de Diálogo de Saberes no Encontro de Culturas, que é a metodologia que guia a dinâmica da Escola. A partir de Paulo Freire, entende-se que “educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que sabem que poucos sabem – por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar, a saber mais – em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais”.


Esse é um trecho de Extensão ou Comunicação, em que Freire discute o papel do extensionista, ou seja, do técnico agrônomo que atua diretamente com os camponeses, e começa questionando o termo extensão. Afinal, trata-se de estender um conhecimento técnico dado, desde alguém que sabe para alguém que não sabe, ou, a partir do diálogo entre sujeitos, trocar saberes para que se possa transformar a realidade, considerando as relações que a permeiam?

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O famoso educador brasileiro, alvo do projeto Escola Sem Partido, propõe que a técnica nunca é neutra, e que insistir na extensão é reproduzir relações de poder que anulam os sujeitos a partir de interesses dados – no caso, disseminar um determinado modelo agrícola, o agronegócio. Por isso ele aponta para a comunicação como metodologia – tanto no campo quanto em sala de aula –, e na problematização da realidade para que os sujeitos possam, criticamente, decidir.


Como indicou Simone na aula de quarta-feira (24), a técnica tem que ser vista como experimentação, não como verdade, e precisa estar em diálogo com os saberes e com o contexto do camponês. “É difícil, não é simples, pois a gente constrói coletivamente processos que não estão dados em nossos espaços”, diz Simone, que assim como grande parte dos educandos, é de origem campesina, assentada no norte do Paraná. E esse desafio, além de se dar no tempo-comunidade, como é denominado o período em que os educandos voltam para suas casas, também se dá no tempo-escola, ou seja, na metodologia da ELAA, na forma em que o processo de ensino-aprendizado se dá.


Após a mística de abertura feita pelos educandos ao som de Mercedes Sosa, a aula começou com duas perguntas geradoras: a gente tem consciência natural? A gente tem consciência da natureza? Nos separamos em grupos para discutir e, depois de alguns minutos, cada grupo apresentou sua visão, ou visões. No meu grupo, problematizamos que existe uma consciência naturalizada, a partir da qual se esquece que no mundo não existe “fora”.


Quanto à questão do lixo, um dos integrantes contou a realidade de sua comunidade, perto de um lixão, em que os catadores dizem que, para eles, “sem lixo não tem vida”. E o que é lixo para alguns é luxo para outros… Problematizamos também a questão dos valores antropocêntricos que separam ser humano e natureza, criando uma dicotomia que coisifica a natureza, e que faz os próprios movimentos sociais reproduzirem um modo de atuar produtivista que criticam na relação capitalista entre seres humanos.

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Simone em frente à secretaria da Escola: “aqui se respira lucha”.


Depois das colocações dos grupos, Simone enfatizou que essa separação entre ser humano e natureza retira a nossa noção de todo e de diversidade, que permitiria perceber como tudo está integrado em suas diferenças. Mas, por outro lado, o termo “consciência natural” é típico do liberalismo, em que se reduz o ser humano à sua faceta biológica, ocultando fatores socioculturais – destacadamente, a luta de classes. E a partir de 1989, com a queda do muro de Berlim, esse discurso se impõe.


É essa a ideologia que está por detrás da frase “você pode mudar o mundo” – o que, para Simone, é uma pegadinha do capitalismo, que exclui a necessidade da organização política coletiva para enfrentar questões estruturais. Mudar, no capitalismo é reformar – e, segundo essa perspectiva, se o indivíduo, sozinho, se esforçar, ele pode mudar o mundo. “A gente também quer mudança de postura nas nossas relações pessoais, mas não dá para achar que a luta de classes não existe mais e que basta uma mudança individual”, complementa Simone.


Assim a apropriação de conceitos ligados à ecologia acaba servindo para renovar o capitalismo. E ela cita um exemplo concreto: a Monsanto está desenvolvendo projetos de agroecologia. “Tem contradições que a gente vai trabalhando no dia a dia, mas tem contradições que são antagônicas: Monsanto e agroecologia não podem trabalhar juntas”, diz Simone. Por isso, é preciso questionar para quem e com quem exercitamos a agroecologia.


“Queremos agroecologia para trabalhar com os lascados, com os sem terra, com os indígenas, com os quilombolas, e não para renovar o capitalismo”, defende a coordenadora. Monsanto faz de fato agroecologia? O que é agroecologia? “O capitalismo precisa da crise para se renovar e agora resolveu que vai viver em crise. E aponta que a revolução não é necessária, que basta a gente mudar nossa postura individual. E assim se constrói uma ecologia só para quem tem acesso, para quem pode pagar, sem tocar em questões estruturais”, problematiza Simone.


Esse debate traz questionamentos também para o próprio movimento: “estamos vendendo agroecologia para a classe média – e estamos acomodados com isso”, diz Marilene Schalavin, educanda do curso e integrante do MST, acampada em Porecatu (PR). “Precisamos ter essa consciência prática de democratizar a agroecologia nas ações da Via Campesina no dia a dia”, complementa. Segundo Simone, o desafio das organizações é multiplicar a agroecologia, e para isso é preciso construir processos de transição a partir do diálogo de saberes e da relação com o outro, tendo a clareza de que a agroecologia é um projeto político.


A aula foi permeada de debates e interações culturais, como exposição do vídeo Abuela Grillo, do videoclipe Latinoamérica e uma dinâmica de energização coletiva inspirada nas práticas de bioenergia, difundidas e praticadas no assentamento – exemplos de outro modelo de educação que vai se construindo no cotidiano da ELAA.

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Conversa sobre Cultura Corporal: libertando o corpo para libertar a vida com Sylviane Guilherme


Para além das disciplinas estabelecidas, outros elementos são trabalhados na ELAA, como Saúde, Esporte e Lazer. Há um momento reservado para isso nas tardes de quinta feira, e no dia 25 a Sylviane Guilherme, do Setor de Cultura do MST-PR, puxou uma dinâmica para pensar esse espaço para além do que está dado – o tradicional futebolzinho. “A humanidade produziu uma diversidade de práticas gigante e a gente fica só no futebol”, provoca Sylviane, fazendo um sinal de “jóinha”.


Sentados em roda, conversamos sobre alguns elementos que desconstroem a Educação Física tal como costuma ser praticada nas escolas. As práticas corporais são frequentemente encaradas como compensação depois de um dia de “trabalho sério”, ou como distração. “Isso é reprodução do discurso do capital: o primeiro espaço a ser conquistado é o corpo”, entende Sylviane. “Sem conhecer o nosso corpo e sem saber quem a gente é, a gente vai fazer uma revolução incompleta”, agrega.


Por isso é interessante problematizar os termos: para além da Educação Física, que reproduz uma dinâmica militar, trata-se de toda uma Cultura Corporal, que engloba esportes, lutas, ginásticas e danças que o capitalismo transformou em mercadoria e entretenimento, mas que sempre esteve conectada à história, à cultura, aos ciclos naturais e às práticas cotidianas.


Pensando a partir da dualidade agroecologia versus Revolução Verde, antes da mecanização do campo o contato com a terra era mais intenso, mais manual, muitas vezes coletivo, envolvendo diversidade de cultivos e movimentos, assim como cantos e danças (o que me lembrou desse vídeo incrível); ou seja, um amplo repertório de movimentos e ritmos a partir do contato com o meio e com o outro. A Revolução Verde e seus monocultivos substituíram o corpo pelas máquinas, o coletivo pelo individual, interferindo na relação com a natureza, com o outro e com o próprio corpo.


“Hoje o camponês tá dentro de casa, sentado no sofá vendo TV”, exemplifica Sylviane, que agrega que a agroecologia retoma uma cultura física e estética que o campo perdeu. Ela entende que esse esvaziamento das práticas corporais faz parte da cultura do capital, à qual não interessa que as pessoas sejam plenas e se organizem coletivamente.


“É mais fácil controlar seres humanos desumanizados”, complementa a convidada, referindo-se ao duplo sentido da famosa frase de Rosa Luxemburgo: “quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”; quem não se move no sentido da organização social, mas também no que diz respeito ao próprio corpo.


E assim seguimos para a parte prática da atividade: todo mundo um pouco travado no começo, aos poucos se soltando, e ao final uma catarse coletiva como nunca antes na história da ELAA tomou conta do casarão onde acontece grande parte das atividades da Escola. As palavras seriam de pouca valia para relatar essa experiência, então deixo que a foto expresse, através da luz e das posturas corporais, o que as letrinhas não podem teorizar.


Comunicação ecológica em contraposição à monocultura da mídia


Outra atividade complementar foi puxada por esta que vos escreve durante o Círculo de Cultura, na quarta (24) à noite, acerca da comunicação. A proposta de debate e interação, e na minha forma de estar e participar ao longo dessa vivência no assentamento coloca a própria prática comunicacional em xeque: minha presença aqui não se reduz a uma divulgação desde fora, a título de assessoria de imprensa. Divulgar é preciso, mas a partir do diálogo e da troca, como tanto preconiza Paulo Freire.


O fazer dialógico precisa ser experienciado no próprio campo da comunicação, que paradoxalmente costuma ser deixado de lado nas lutas sociais e abordado de maneira instrumentalista, reproduzindo uma prática midiática isolada em si mesma, calcada mais na propaganda que no diálogo, mais na especialização que no fazer comum.


O projeto Vida Boa, com suas limitações, assume esse desafio – assim como o Projeto Flora – Reflorestando a Reforma Agrária, uma iniciativa do Instituto Contestado que tem um olhar todo especial para a comunicação – enquanto parte constitutiva do projeto, e não apenas acessório de divulgação. No artigo Comunicação tem gosto? Integrantes do projeto discutem essa apropriação a partir do questionamento do termo público-alvo – e a própria comunicação se torna o alvo de reflexão.

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Falamos tanto de Paulo Freire, de diálogo na escola e no campo, mas por que esse debate é alijado da comunicação? É preciso reconhecer a comunicação popular e participativa como processo inerente aos movimentos sociais, como metodologia do fazer comum – e, em contraposição à monocultura da mídia de massa, criar nossa própria comunicação, talvez ecológica.


Assistimos ao documentário Levante Sua Voz, do Coletivo Intervozes, e na sequência debatemos o porquê da comunicação ser direito e como ele nos é negado. Assim como não podemos fazer agroecologia sem ter como plano de fundo o debate da reforma agrária, não podemos fazer comunicação popular sem ter como plano de fundo a reforma da mídia – ou nos restringiremos ao reformismo que não leva em consideração questões estrutural.


Os participantes deram vários relatos de como a mídia de massa criminaliza os movimentos sociais, bem como da necessidade de criarmos e fortalecermos nossos próprios meios para construir narrativas, divulgar experiências e disputar valores.


Na sequência assistimos ao documentário Cultura – da Universidade às Ruas, do Coletivo Soylocoporti, um exemplo do que pode ser feito em nossas experiências locais para divulgar nossas narrativas de forma participativa e através de formatos próprios – a comunicação como parte das lutas, não algo externo a elas.


Várias experiências de comunicação popular foram apresentadas ao longo do debate: O Candeeirohttp://www.asabrasil.org.br/acervo/o-candeeiro e o projeto Semi-Árido em Tela, da ASA – Articulação do Semi-Árido Brasileiro (que é parceira do Projeto Flora); Refúgio Zumbis, do Mato Grosso, que entre outras atividades realiza saraus e conta com uma webrádio; projeto Água Boa – Sertões, Sons e Imagens, da Paraíba; além de várias experiências de zines, lambes, panfletos e estêncil.


Laís e Hudson, do Setor de Cultura da Escola, finalizaram a atividade convidando a todos a pensar e compartilhar o que sonham para a comunicação na ELAA, para que possam junto fortalecer o diálogo na escola. Agradeço por demais o espaço, a acolhida e o diálogo! E fiquei bem feliz de ver a mídia sendo problematizada numa das místicas de abertura dos dias seguintes.


Autogestão e multiculturalidade


A educação na ELAA não é um serviço, mas um processo participativo. Pleno domingão e eu pedi pra Thay me levar na cachoeirinha do assentamento. “Depois que a gente limpar o banheiro”, ela sugeriu. “Mas limpar banheiro em pleno domingo?”, contestei eu. “Ué, a Escola não pode parar, e a gente que gestiona ela”, respondeu a moça. Acatado. Cachoeira só depois da limpeza.


Os educandos se organizam por núcleos, equipes e setores, e tocam as demandas da escola, desde alimentação, limpeza, cultivo e gestão. A atual turma de tecnólogos conta com 54 educandos, que vivem na ELAA durante o tempo-aula. Essa etapa, a segunda da turma (são seis etapas no total), começou em 13 de agosto e vai até 29 de outubro – dois meses e meio de intensa vivência coletiva, que exige muita organização.


Banheiros limpos, fomos à cachoeirinha – eu, Thayana Fiel, que mora em Pelotas e integra o Levante Popular da Juventude, e Diego Splinter, que me contou um pouco de sua história no caminho. Ele estudava Geografia na Universidade Federal Fluminense, mas deixou o curso por não se identificar com “o ensino formal descolado da realidade”. Mas foi por meio da universidade que ingressou no movimento estudantil e veio a conhecer de perto o MST. Depois de flertar algum tempo com o movimento, incentivado pelo seu amigo Cícero Guedes, uma liderança da região, partiu para sua primeira ocupação.

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Diego e sua intensa história no movimento


O processo de formação com as famílias envolvidas levou quatro meses, e em 02 de novembro de 2012 ocuparam a área da Usina Cambaíba, no município de Campos (RJ). A data não foi escolhida aleatoriamente, assim como a terra ocupada: Dia de Finados, em lembrança dos militantes de esquerda que foram incinerados nos fornos da usina durante a ditadura militar.


A região, tomada por monocultivos de cana, é controlada por exércitos particulares de fazendeiros, os jagunços. “As pequenas comunidades passam a ser controladas por essa força armada”, relata Diego. E assim aconteceu com o recém-surgido acampamento Luís Maranhão: por bater de frente com a jagunçagem, Cícero foi assassinado no começo de 2013 – e por ter sido testemunha do processo, Diego foi aconselhado a deixar a área, pra não se tornar a próxima vítima.


História triste, e tão comum na luta pela reforma agrária. Os responsáveis pelo assassinato ficaram impunes, por falta de provas materiais. E lá foi Diego de volta à cidade do Rio de Janeiro, pra onde esperava nunca mais ter de voltar, para contribuir na secretaria estadual do movimento. Hoje ele já está assentado em Macaé (RJ), e vai ter que reformar seu barraco quando for para o tempo-comunidade. “Dá última vez o telhado estava tomado por feijão e bucha, tanto que até entrou no barraco”, conta Diego. Muito trabalho pela frente quando voltar.


Diego viu no curso da ELAA outra proposta de educação, voltada à realidade e à transformação social. “Além de ser uma vontade pessoal, a formação em agroecologia também é uma demanda da minha comunidade”, explica. O assentamento Luís Maranhão, onde vive, se organiza de acordo com um novo modelo denominado Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) – e cabe a Diego contribuir para a transição agroecológica com as famílias de lá.


Cada educando da ELAA representa uma realidade. Yosseth Condori, boliviana de Oruro, faz parte do movimento de mulheres campesinas Bartolina Sisa, e tem a missão de multiplicar a agroecologia por lá. Paulo Eduardo Pinheiro, do MST da região de Ribeiro Preto (SP), é filho de assentados e integra o grupo de rap Veneno H2, que existe há mais de dez anos.


Ronaldo Korczak – “meu vô era da Ucrânia”, explica ao ter que me soletrar minuciosamente seu sobrenome – também foi criado no movimento, “debaixo de lona preta”. Morador da região de Campo Mourão (PR), ele conta que, quando chegou à cidade, “o povo fechava as portas das lojas achando que a gente ia roubar”. Mais uma barreira enfrentada pelos sem terra: o preconceito.


Sua família foi assentada quando ele tinha 15 anos, depois de passarem por muito barraco de lona e experiências comunitárias às quais não se adaptaram. Enquanto ele estuda na ELAA, seu irmão se formou como técnico agrícola na Escola Milton Santos, em Maringá (PR).


É do intercâmbio dessas histórias de vida que se constrói a ELAA: um amplo diálogo de saberes que tem como base a transformação social e a agroecologia. Pois como já dizia Bertolt Brecht, “apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”.