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Por Assessoria de Comunicação da Terra de Direitos


Os moradores e moradoras do acampamento Sebastião Camargo, em São Miguel do Iguaçu, sabem que a luta pela terra não é fácil. Mas são inspirados por diferentes lutadores e lutadoras que, ao longo dos anos, dedicaram a vida defendendo a efetivação de direitos constitucionais.


O homem que dá nome ao acampamento é uma dessas inspirações. Assassinado em 1998, aos 65 anos, Sebastião Camargo foi um trabalhador – dentre tantos – que, sem terra própria para plantar, trabalhou para arrendatários. Passando dificuldades financeiras, e querendo ter um lugar para morar e produzir com a família, ingressou no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Foi morto com um tiro na cabeça durante um despejo ilegal, na cidade de Marilena, noroeste do Paraná.


Acusado de matar Sebastião Camargo, o ex-presidente da União Democrática Ruralista, Marcos Prochet, irá a júri popular no próximo dia 25, em Curitiba.  O nome do trabalhador também batiza um assentamento criado no local onde o sem terra foi morto.


Acampamento Sebastião Camargo 2 Andrea Romina Freita é uma das cerca de 400 famílias que moram hoje no Acampamento Sebastião Camargo. Ela explica a escolha do nome “traz esse legado de resistência, de luta, de coragem, de tudo aquilo que representa a luta pela terra”.


O acampamento está hoje dentro da área do Assentamento Antônio Companheiro Tavares – que homenageia outro trabalhar sem terra assassinado em 2000. No assentamento, mora com sua família Messias Camargo Ventura, um dos filhos de Sebastião Camargo, que agora é assentado pela reforma agrária e realizou o sonho do pai de ter um pedaço de terra.


Grávida de nove meses, Andrea vê no exemplo de outras pessoas a importância de continuar lutando, para garantir uma vida melhor para a sua família. “Quem sabe daqui algum tempo a gente já esteja encaixado na nossa terrinha, produzindo um alimento saudável e tendo nossos direitos reconhecidos”, comenta. “Não é o desejo de uma coisa só pra gente, mas pra uma igualdade social”.


Mas ela bem sabe que a luta pelo direito à terra não é fácil, “apesar de gratificante”, como pontua. Truculência semelhante ao do despejo que vitimou Camargo foi conhecida pelos moradores do acampamento, em maio deste ano.


Ciclo de violência


Acampamento Sebastião Camargo. Madrugada fria naquele dia 18 de março. Depois de uma noite em claro, cheia de expectativas, a caravana de integrantes do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra partiu de São Miguel do Iguaçu, às 3h da manhã, rumo a Santa Terezinha do Itaipu. Lá, cerca de 2 mil famílias montaram o acampamento Sebastião Camargo. Escolheram a Fazenda Santa Maria – propriedade de envolvidos na operação Lava Jato, da Polícia Federal – para fazer resistência e luta pela terra.


Exatamente dois meses após o início da organização, em 18 de maio, as famílias foram despejadas do local. Sem conhecimento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), os acampados e acampadas foram surpreendidos pela ação de policiais militares, durante a madrugada.


Integrante do MST que estava no local, Josias Basczask conta que bombas de gás, balas de borracha e máquinas foram usadas para despejar as famílias da área. Muitas famílias não puderam tirar suas coisas dos barracos. As máquinas vinham e derrubavam o que permanecia em pé.”Sem dó, sem piedade”, conta. “Tinham crianças ali. Chorei no momento. Me dói até agora”.


De lá, as famílias saíram escoltadas até o Assentamento Antônio Companheiro Tavares, em São Miguel do Iguaçu. Ali permanecem acampadas provisoriamente mais de 400 pessoas.


Região de conflitos


Quando ainda ocupavam a Fazenda Santa Maria, os moradores do acampamento viram a história de violência e morte contra sem terras se repetir. Em abril, dois trabalhadores foram assassinados em Quedas do Iguaçu, cidade próxima à da região. O massacre aconteceu na ocupação Dom Tomas Balduíno, com a participação da Polícia Militar do Paraná. A área ocupada pertence à União, mas foi grilada pela empresa Araupel.


“Eram dois companheiros que estiveram aqui com nós”, conta Josias. Outros militantes da região também têm sofrido ameaças de morte através de ligações anônimas. Mas o trabalhador conta que o cenário de violência não amedronta a luta. “Aqui somos uma família. É onde a gente pega mais força pra lutar, batalhar”.