Por Frei Sérgio Antônio Görgen
Para o Sul21


A Reforma Agrária é uma necessidade nacional para os que pensam o desenvolvimento brasileiro com justiça social, equilíbrio ambiental e distribuição racional da população no espaço geográfico do país.


As razões são muitas. É impossível quitar a dívida social da Nação e propiciar condições dignas de vida à maioria de nossa população sem extirpar o câncer do latifúndio. A concentração da terra e a exclusão camponesa – com uma de suas mais perversas consequências que é o êxodo rural desordenado – estão na raiz, na causa estrutural da situação de miséria que desgraça milhões de brasileiros.


Entre outras razões, ligadas ao futuro da humanidade, estão a agenda ambiental e a substituição dos combustíveis fósseis. Os sistemas camponeses de produção são mais aptos e mais flexíveis para incorporar tecnologias ambientalmente sustentáveis, através das múltiplas possibilidades de rotação de culturas, sistemas integrados de policultivos, combinação de produção vegetal com produção animal, sistemas agroflorestais, redução da dependência de insumos externos, utilização de mecanização leve e multifuncional, com as devidas multiplicações de benefícios advindos do aumento da biodiversidade que este modelo de produção agrícola e pecuário propicia.


Na contramão, o agronegócio latifundiário, vive um círculo vicioso combinado de esgotamento tecnológico, multiplicação de pragas fruto das monoculturas, destruição ambiental, desequilíbrio hídrico, aumento de custos, controle monopolístico dos insumos e das tecnologias, insumos externos dependentes do petróleo e sistemas tecnológicos rígidos ou de baixa flexibilidade.


A consciência ambiental da sociedade crescerá na perspectiva de exigir a substituição do agronegócio latifundiário por sistemas de produção camponesa agroecológicos. E para isso, uma premissa básica é a realização de uma ampla Reforma Agrária.


Além disso tudo, quando falam em “porta de saída” de programas assistenciais como o bolsa família, num país com tanta terra disponível, não se encontrará meio melhor de geração de postos de trabalho, inclusive urbanos, com a dinamização do consumo, do que através de uma massiva reforma agrária.


Uma verdadeira, massiva, organizada e planejada reforma agrária servirá também para a reorganização urbana de que o país precisa, eliminando a pressão do êxodo sobre os grandes centros urbanos e criando novas cidades onde hoje existem vazios demográficos.


Enganam-se os que sinceramente pensam que a Reforma Agrária é tema do passado. Querem enganar os que, por interesses de classe, tentam descartar a Reforma Agrária como necessidade nacional.


Reforma Agrária acompanhada de desenvolvimento cooperativo e das mais variadas formas de produção camponesa familiar são alicerces para um futuro de que todos precisamos, com justiça social, cuidado com o meio ambiente e alimentos saudáveis.


Mais que manter-se atual, a Reforma Agrária é mais necessária que nunca.

*Frei Sérgio Antônio Görgen é Frade Franciscano e integrante do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA)