Da Página do MST

 

No último dia 27/07, o bispo da Diocese de Ipameri-GO, Dom Guilherme Antônio Werlang, visitou o preso político Valdir Misnerovicz, perseguido pelo poder judiciário de Goiás, como braço institucional do grupo empresarial Naoum, dono da Usina Santa Helena, com diversas dívidas trabalhistas e passivos ambientais. O eclesiástico redigiu um depoimento emocionado sobre sua visita e a força de resistência de Valdir e seus companheiros. Leia na íntegra:


Ipameri, 27 de julho de 2016.


Dom Guilherme Antonio Werlang   -  MSF
Por Graça de Deus e Vontade da Sé Apostólica
Bispo da Diocese de Ipameri, GO.


“Para que todos tenham vida” (Jo 10,10).


VISITA AO JOSÉ VALDIR MISNEROVICZ


Hoje, dia 27 de julho, eu, Dom Guilherme Antonio Werlang – MSF - Bispo Diocesano da Ipameri, GO e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, acompanhado da Ângela Cistina, dos Direito Humanos e do Padre José Chiarini, CRIC, tive a oportunidade de visitar nosso grande líder dos Movimentos Sociais, em especial do MST e um exímio negociador de justiça e paz e contra o uso da violência nos conflitos de Terra e amigo pessoal, Sr. José Valdir Misnerovicz.


O Valdir está preso já a quase dois (2) meses no Conjunto Prisional de Aparecida de Goiânia e por tudo o que conheço dele, as acusações que lhe são atribuídas carecem de fundamento e contradizem completamente a sua vida e luta pela paz e justiça na terra.


Nestes últimos anos em que se intensificaram as ocupações de terras aqui no Goiás, quantas e quantas vezes eu fui chamado pelo Valdir para ajudar a EVITAR confrontos e derramamento de sangue, seja dos Sem Terra, seja de policiais ou empregados e mesmo detentores das terras.


Outras tantas vezes fui procurado por autoridades do comando do policiamento estratégico para estes casos; do Ministro do Desenvolvimento Agrário e outras autoridades para que falasse com o Valdir para que os membros do Movimento dos Sem Terra aceitassem negociações de desocupação e intermediasse condições de saída e de promessas de assentamentos.


Desde que o Valdir assumiu este papel negociador NUNCA MAIS HOUVE MORTE OU CONFRONTO ENTRE OS SEM TERRA E A POLÍCIA.


Todos sempre o respeitaram e reconheceram nele este homem que lhe deu o respeito que tem.


Conversamos sobre tudo isso e senti que, embora triste pela injustiça que sofre e a liberdade que lhe foi retirada, continua forte, confiante e sonhador de que o Brasil ainda será um país justo para todos os brasileiros e brasileiras, em especial dos que querem ter o direito à trabalhar e viver na terra.


Senti que todos, autoridades prisionais, funcionários e companheiros de cela lhe tem um profundo respeito.
Graças a Deus ele pode trabalhar na horta, pomar e cozinha, mas evidente que aí não é seu lugar.


Hoje me disse que sente muita falta do chimarrão, o que lhe causa dor de cabeça e eu, por experiência, sei que isso é verdade.


Ele agradece todo o apoio que está recebendo e em especial as visitas e dos que continuam na organização social dos empobrecidos da terra.


COMUNICO AOS MEUS IRMÃOS BISPOS QUE CADA SEMANA É PERMITIDA A VISITA DE UM BISPO – VISITA DE ASSISTÊNCIA ESPIRITUAL - E QUE CADA BISPO PODE LEVAR SEMPRE MAIS DUAS PESSOAS CONSIGO.


Estamos neste momento, com assessoria jurídica, tentando encontrar uma solução para o caso do Valdir e demais lideranças sociais que estão sendo criminalizados.


É uma luta de desiguais, mas com fé em Deus e apoio das Igrejas e da sociedade organizada, esperamos que a Justiça se faça e o a Valdir logo mais esteja em liberdade.


O Papa Francisco disse aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Roma, no dia 30/10/2014, ao citar o Compêndio da Doutrina Social da Igreja que “a Reforma Agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral”.


Coragem, Valdir!


Fé em Deus.


 

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Dom Guilherme Antonio Werlang, M.S.F.
Bispo Diocesano de Ipameri