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Por Catiana de Medeiros
Do Saúde Popular

Fotos: Elitiel Guedes


“A alimentação saudável não pode ser direito de uma única classe social. As pessoas estão adoecendo por consumirem produtos de prateleiras, por isso o acesso ao verdadeiro alimento deve ser garantido para todos e todas”. Essse foi o alerta dado pela pesquisadora da área alimentar, Patrícia Pinto, durante o painel 'O alimento como direito, agrotóxico e saúde humana”. 


O evento foi realizado nesta sexta-feira (22) pelos setores de produção e saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Festival Nacional de Arte e Cultura da Reforma Agrária, na cidade de Belo Horizonte (MG). As atividades, que acontecem na Serraria Souza Pinto e na Praça da Estação, tiveram início nesta quarta-feira (20) e vão até o próximo domingo (24).


Conforme Patrícia, que trabalha a memória gustativa com pequenos agricultores de todas as regiões do país, o tipo de comida que a população tem acesso influencia diretamente na boa saúde ou no surgimento de várias doenças. 


Segundo ela, os alimentos saudáveis estão cada vez mais distantes da mesa dos brasileiros, e essa realidade não surge apenas da invasão do agronegócio nas lavouras e nos espaços de comercialização. 


“Os consumidores da cidade se identificam quando encontram arroz agroecológico, mas não conseguem tê-lo como parte de sua vida, porque esse alimento, que é limpo, praticamente sumiu das prateleiras. Isso também está relacionado aos cultivos saudáveis que os agricultores perderam com o passar das gerações”, disse.


O trabalho desenvolvido pela pesquisadora tem o intuito de, através da memória, conscientizar produtores e consumidores sobre a ligação existente entre saúde, produção e consumo. “As pessoas começam a despertar para a valorização daquilo que verdadeiramente é alimento, porque ele deixou de ser produzido ou, então, porque é produzido em pequena escala. É um diálogo sobre o saber do cultivo e do cozinhar com os povos do campo e da cidade”, completou.

 

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Impactos do agronegócio


Professor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, do Rio de Janeiro, André Burigo também participou do painel, e comentou sobre o avanço nos últimos anos da agricultura capitalista e os impactos irreparáveis que ela pode causar ao planeta. 


“É uma agricultura contra a natureza e a biodiversidade. A sua violência ataca o MST não apenas por ser um Movimento que luta pela democratização da terra, mas também por defender um novo modelo de produção contrário ao agronegócio. Este, por sua vez, joga veneno em cima das comunidades indígenas e quilombolas porque quer saquear e destruir os recursos naturais que elas preservam”, denunciou Burigo.


Ele ainda apresentou um estudo realizado entre 1990 a 2014 sobre a área plantada no Brasil. Neste período de 24 anos, a produção de commodities – soja, milho e cana-de-açúcar – aumentou de 28 milhões de hectares para mais de 55 milhões. 


Já a produção dos alimentos – feijão, arroz e mandioca – passou de 11,4 milhões para 7,1 milhões de hectares cultivados. “Enquanto o agronegócio tomou áreas da agricultura camponesa e familiar, o Brasil aumentou sua população em 50 milhões nestes últimos anos. Isso explica a elevação dos preços dos alimentos no mercado e reflete na saúde da população”, complementou.


Alternativa


O projeto de Reforma Agrária Popular foi uma das alternativas apresentadas no painel para auxiliar na resistência e autonomia dos povos que buscam uma vida mais justa e saudável. 


De acordo com Delwek Matheus, do setor de produção do MST/SP, o grande desafio do Movimento é concretizá-lo por meio da conscientização social e da mudança da matriz produtiva, mas indo além da produção de alimentos agroecológicos. “Essa mudança depende de um conjunto de relações econômicas, sociais e culturais.


Compreende sair do modelo convencional, enfrentá-lo politicamente e derrotá-lo através da luta pela terra”, apontou. Ele lembrou ainda que os brasileiros consomem em média 7,3 litros de veneno ao ano, e que a contaminação não ocorre somente através da ingestão de alimentos que estão nas prateleiras dos supermercados. “O desenvolvimento da monocultura, a exploração do trabalho e a degradação da natureza também geram prejuízos ao meio ambiente e à saúde”, argumentou.


Ceres Hadich, do MST/PR, acrescentou que o intuito da Reforma Agrária Popular também é chegar à soberania alimentar, garantindo mais qualidade de vida para a população do campo e da cidade. “É uma construção coletiva, que envolve a territorialização do Movimento e gera muitos impactos positivos, sendo capaz de tornar os homens mais livres e conscientes”, finalizou.