Por João Eduardo Bernardes
Do Brasil de Fato

 

Propor novas eleições no atual momento da conjuntura política do país legitima o golpe dado com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no início de maio deste ano, segundo o dirigente nacional do MST, Gilmar Mauro. "Não achamos que a saída é uma 'articulaçãozona' por cima", ressaltou ele, durante sua participação no seminário “O Brasil do Golpe: O plano Temer sob análise”, promovido pela Fundação Perseu Abramo, nesta quarta-feira (15), na região central de São Paulo.


O dirigente do MST lembrou que “não haverão saídas fáceis, nem de curto prazo para a crise social e política do Brasil”. Para Mauro, não só o Brasil, mas o mundo vive uma grande crise e, por enquanto, “não há propostas a apresentar, a não ser ajustes”. O próprio G8, sigla que denomina os oito países mais ricos e influentes do mundo: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Canadá, França, Itália, Reino Unido e Rússia; "terminou sem qualquer resolução concreta”, completou ao contextualizar a complexa situação político-econômica no mundo.


Ao citar o Brasil, Mauro reforçou a ideia de que é preciso achar novos caminhos. Segundo ele, o “tripé” que sustentou a economia brasileira, a partir da exportação de commodities agrícolas, os investimentos do BNDES e a abertura de crédito para as massas, permitiu que houvesse crescimento econômico consistente; mas, segundo o dirigente, “esse cenário acabou, o mercado de commodities está saturado e o pacto entre a elite e a classe trabalhadora se esgotou”.


Militância e a classe trabalhadora


“O que nós produzimos é o melhor que a gente tem, mas o que a gente tem, é insuficiente para incluir toda a classe trabalhadora”, destacou Gilmar Mauro. O dirigente do MST pontuou que, apesar da distribuição de renda e dos programas sociais, o país despolitizou a sociedade brasileira. “A militância dos movimentos está mobilizada, mas grande parte da classe trabalhadora, não está envolvida e vê a crise brasileira como assiste a uma partida de tênis. Se tem uma jogada bonita, independente do lado, eles aplaudem”, explica.


Para Mauro, muitos setores da classe trabalhadora não se veem representados pelos métodos da esquerda brasileira. Em sua exposição, ele também lembrou que ainda é necessário avaliar que tipo de programa político se precisa daqui para a frenre e que tipo de aliança se precisa fazer.


Efeito reverso


Um dos participantes do seminário, o economista e ex-secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, expôs que o governo interino de Michel Temer é "antes de mais nada, uma tentativa de recolocar o Brasil em condições de não crescimento”. Ele disse ser necessário propor à sociedade o que faz o país crescer a médio e longo prazo. Do contrário, diz, o governo interino seguirá aprofundando políticas recessivas, que já começavam a se desenhar com a equipe econômica do governo Dilma, como as seguidas altas nas taxas de juros.


“O Brasil pagou R$ 500 bilhões de juros da dívida em 2015. Ela aumentou R$ 200 bilhões em relação a 2014, é uma influencia direta da Selic”, completou. Para o ex-secretário do Tesouro Nacional “não é preciso fazer uma auditoria da dívida pública, basta baixar a Selic. A dívida é assim porque o Estado brasileiro assim quis”, aponta.


Já Giorgio Romano, coordenador do bacharelado em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), terceiro participante do seminário, o governo interino de Temer "vai ser mais conservador que o governo FHC [Fernando Henrique Cardozo]”. Os retrocessos, segundo ele, não se restringem às políticas internas, mas se mostram agressivos também nas políticas externas brasileiras. “A forma como o Brasil entrou no Brics [bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.], na FAO [Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação], colocou o país no mapa mundial. Nos anos 80 o Brasil não existia. A realidade hoje tem a ver com a política implantada pelo governo Lula e isso tudo está em jogo”, completou.

 

 

*Editado por Simone Freire/Brasil de Fato