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Por Catiana de Medeiros
Da Página do MST

Fotos: Tiago Gianichinni

 

A luta dos trabalhadores rurais Sem Terra não se limita apenas à conquista de um pedaço de chão para poder morar e produzir alimentos. 


Ela ultrapassa o corte das cercas dos latifúndios e, com base na organização coletiva e de novas alternativas, busca melhorias sociais e qualidade de vida para as famílias assentadas. E neste processo, que envolve homens e mulheres, também estão as cinco proprietárias da marca Mãos na Massa, da Padaria do Sino, no Rio Grande do Sul.


Marta Pereira (42), Noeli Costa (48), Fátima da Silva (41), Maria Viegas (57) e Verônica Portela (62) moram no Assentamento Sino, no município de Nova Santa Rita, na região Metropolitana de Porto Alegre, onde concluíram a construção de uma padaria no segundo semestre de 2014, com dinheiro que arrecadavam das feiras e recursos do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), operacionalizados pelo governo do Estado na gestão do então governador Tarso Genro (PT).


A luta para a conquista deste sonho foi de 9 anos – desde 2005 as assentadas começaram a discutir a ideia de trabalhar com panifícios. 


Enquanto buscavam apoio para a concretização do projeto, em 2011 as Sem Terra participaram de um curso de boas práticas na área de alimentação no Centro de Formação Sepé Tiarajú, em Viamão, também na região Metropolitana. Este foi o início da construção de uma nova forma de obter renda no campo e de uma vida mais digna para elas.


“Os primeiros dias eram difíceis, trabalhávamos sem parar das 4 horas às 22 horas, pois não tínhamos experiência no manuseio dos equipamentos. 

 

Agora tá tranquilo, nós começamos e terminamos a lida cedo e conseguimos produzir muito mais e com maior tranquilidade. Mas para isto fomos atrás de capacitação, fizemos cursos de culinária e visitamos padarias em outros assentamentos”, explica Maria.


Antes de utilizar a estrutura mecanizada da padaria, as proprietárias da marca Mãos na Massa faziam toda a produção das feiras em suas próprias casas, onde tinham como ferramentas de trabalho cilindro manual, forno de barro e muita dedicação. A padaria foi regularizada no segundo semestre de 2015 e este ano as Sem Terra já iniciaram a comercialização por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).


“Era um sonho mas não imaginávamos que seria realizado devido às burocracias e dificuldades financeiras. Estávamos quase perdendo a esperança quando recebemos a boa notícia de que tínhamos conseguido” diz Marta.


 

Comercialização


A Padaria do Sino é filiada à Cooperativa de Produção Agropecuária dos Assentados de Tapes (Coopat) e Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap). Atualmente, ela vende seus produtos duas vezes por semana em três feiras ecológicas na região Metropolitana. 


Nas sextas-feiras as assentadas comercializam pão doce, integral e de leite; cucas tradicionais e recheadas; biscoitos amanteigados e de maisena; e cueca virada no Centro de Nova Santa Rita. 


Aos sábados elas oferecem os mesmos produtos nos bairros Igara e Harmonia, no município de Canoas. Em cada feira elas vendem em média 15 unidades de cada alimento.


O transporte da produção é feito pelas próprias assentadas, que já conquistaram uma camionete para facilitar a comercialização. Com a autonomia e independência, elas também garantem a entrega de pão doce e integral; cuca tradicional e biscoitos de milho e maisena para 16 escolas municipais de Nova Santa Rita. Além disso, atendem demandas de produção para alguns eventos.


Bons frutos


A região onde as cinco mulheres estão assentadas é de terra arenosa e, por este motivo, nem todo o tipo de produção consegue se desenvolver. 


Diante esta realidade, a maioria dos assentados do município optaram por investir em arroz, hortas e frutas agroecológicos. Neste contexto, a padaria surgiu como mais uma alternativa viável e as proprietárias que antes trabalhavam na cidade, na lavoura com seus maridos ou fazendo feiras para obter alguma renda, agora têm seu próprio negócio.


“A padaria se transformou num sonho realizado. Ela melhorou nossa vida e quem antes trabalhava fora agora pode viver desta conquista. Apesar da terra nos dar alimentos, nós tínhamos muitas dificuldades em relação à renda, mas hoje estamos bem melhor e dá pra viver legal”, argumenta Noeli.


Para a assentada Fátima, a padaria é mais que uma boa alternativa financeira, “pois ela possibilita viver com mais dignidade no campo”. “Agora tá tudo muito bom. Nós convivemos mais, trocamos experiências e temos mais qualidade de vida”, relata.

 

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Planos


Após alguns meses da nova estrutura, as assentadas já fazem planos para melhorar os trabalhos na padaria. De acordo com Verônica, a ideia é ampliá-la para ter mais espaço para produzir e aumentar a produtividade.


“A experiência que tivemos aqui ano passado e este ano está sendo maravilhosa. Nos unimos, conseguimos superar as dificuldades e fazer as coisas como elas devem ser. Agora nos resta trabalhar muito para continuar crescendo e atingir nossos objetivos. Daqui pra frente tudo vai melhorar”, declara Verônica.

Conforme a assistente social Sandra Rodrigues, a Cooperativa de Trabalho em Serviços Técnicos (Coptec) está em busca de parcerias com pequenos agricultores que produzem farinhas de trigo e milho no estado, para que as padarias do MST da região possam fazer compras coletivas.


“Nosso intuito é adquirir o alimento dos próprios agricultores, que também é uma forma de valorizá-los, e estamos trabalhando para que isto aconteça ainda este semestre”, sinaliza. Hoje, os insumos são comprados de fornecedores em cidades da região Metropolitana.


Negócio de família


As assentadas enxergam na padaria a oportunidade de garantir uma vida melhor para seus filhos e netos. E este desejo de tê-la como negócio de família já está se tornando realidade: Ida Cristina Portela, 36 anos, filha de Verônica, trabalha desde 2014 no local, sendo responsável pela administração e contabilidade.


“Entrei aqui sem saber muita coisa, mas tô aprendendo bastante e desafiando meus conhecimentos. Nós recebemos apoio da Coptec, que sempre nos ajuda a aperfeiçoar nosso trabalho, e quando conseguimos superar as dificuldades nesse processo de cooperativismo é muito bom e gratificante”, conta Ida.

Em seu escritório na padaria, a filha de Verônica também é responsável por gerenciar os pedidos dos clientes, que são feitos pelo telefone (51) 9787-2849 e ou endereço de e-mail padariasino@gmail.com. “Nós atendemos a qualquer hora, é só ligar ou escrever. Também fazemos entrega”, garante Ida.


Assistência


As proprietárias da Padaria do Sino recebem assistência da Coptec desde 2007, quando foi inciado o debate sobre a viabilidade econômica e social de ter esse tipo de empreendimento em assentamentos das microrregiões Nova Santa Rita e Eldorado do Sul, compostas por nove municípios e 23 assentamentos.


Hoje, o grupo das cinco assentadas participam do Coletivo das Padarias da região de Porto Alegre – que compreende as duas microrregiões – e a cooperativa auxilia na elaboração de projetos e gestão por meio de atividades de capacitação e da busca de novos mercados.


“Acompanhamos os grupos em todas as etapas. Damos apoio na parte legal e mais burocrática e em ações que envolvem vigilância sanitária, projeto de combate aos incêndios e procedimentos operacionais. Também visitamos com nutricionistas e representantes de outras cooperativas do MST várias prefeituras, oferecendo nossos panifícios camponeses. Hoje temos padarias já entregando para algumas escolas”, explica Sandra.


O coletivo é formado por grupos de quatro padarias e realizam debates para garantir a organização e fazer encaminhamentos em conjunto. Agora, segundo Sandra, está em pauta a construção de uma marca comum dos panifícios da região.