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Por Rodolfo Lucena
Do Blog Maratonando com o MST

Fotos: Eleonora de Lucena 


Uma corrida internacional partindo da Encruzilhada Natalino, no noroeste do Rio Grande do Sul, marcou o início da jornada sulista do projeto Maratonando com o MST. Jovens do México, da Colômbia, da Argentina, da Noruega, do Paraguai e do Brasil, mais uma dupla de veteranos brasileiros integraram a turma que se reuniu em frente à estátua do casal de agricultores que lembra a campanha heroica dos pioneiros da luta pelo direito à terra para quem trabalha nela.


No final dos anos 1970, essa região do Estado do Rio Grande do Sul estava em efervescência. Apesar da ditadura militar, espoucavam movimentos populares, do povo em busca de melhores condições de vida. Em 1978, os agricultores que até então trabalhavam  terras indígenas foram expulsos pelos caingangues e ficaram ao Deus-dará.


Turmas acamparam na beira da estrada, outros tantos foram buscar ajuda de parentes. Mas não dava para ficar morrendo de fome tendo quase em frente grandes áreas férteis, porém improdutivas. E assim, em 1979, 200 de famílias ocuparam as fazendas Macali e Brilhante, em Ronda Alta.


A terra não deu para todo mundo. A luta havia que recomeçar. Em toda a região, movimentos populares faziam reuniões, encontros, discussões, para tentar ver o que fazer (Clique aqui para acompanhar a jornada).


E foi assim que, em janeiro de 1981, começa o acampamento em Encruzilhada Natalino. De um punhado de pioneiros, em pouco tempo o grupo chegou a 640 famílias.

 

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O grupo se organizou para defender a área. Havia uma comissão central coordenadora e várias comissões encarregadas das diversas necessidades do acampamento, como saúde, educação segurança.


Não havia onde plantar, não tinha onde produzir. O acampamento dependia da solidariedade da comunidade e dos movimentos sociais –que efetivamente aconteceu, mas nem sempre com o volume e a velocidade necessários. Quatro crianças morreram de fome, desnutrição.


Era preciso ampliar a luta, ganhar mais apoio, ampliar a pressão para que os governantes –a ditadura militar—dessem resposta ao movimento.


No Dia do Agricultor, 25 de julho, 25 mil pessoas participara de uma marcha em solidariedade ao movimento. Foi uma grande festa popular.


Foi também o dia em que aportou ao local, em missão investigativa, o coronel Curió, tristemente famoso como executor da ditadura, assassino e torturador. Ele veio, olhou, investigou e foi embora.


Voltou no dia 31, trazendo tropas e a força bruta dos governos estadual e federal. Cerca de 200 milicianos, entre soldados do Exército e da Brigada Militar, passaram a circular armados entre os sem terra. Havia ônibus da Brigada, veículos militares.

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Estátua lembra a campanha heroica dos pioneiros da luta pelo direito à terra para quem trabalha nela.


Curió montou quatro barreiras na estrada fechando o acesso ao acampamento, que se tornou uma espécie de campo de concentração em que o Exército tinha –ou achava que tinha—o comando.


As forças policiais montaram um grande palco, com poderoso equipamento de som. Ali era dado o toque de despertar, a cada dia, e os sem terra eram chamados a cantar o Hino Nacional. Aos poucos, porém, passaram a não dar mais bola para o chamado, e eram acusados de não serem brasileiros, não serem patriotas.


Tudo era feito para minar a resistência dos ocupantes. Um lago onde se abasteciam de água foi drenado pelo Exército –Curió disse que as águas estavam contaminadas… Poços de água potável foram envenenados: o comandante determinou que os cavalarianos lavassem ali seus cavalos e deixassem as montarias fazer ali suas necessidades.


A pressão desmedida, os interrogatórios constantes das lideranças, as ameaças, tudo isso acabou tendo algum resultado. Além da força policial, a ditadura recebeu o apoio de parte da igreja –havia também uma porção de religiosos ativamente solidários ao movimento.


Quando Curió chegou, havia 300 famílias no acampamento. A ação militar e a cooptação de duas lideranças dos sem terra acabaram por reduzir o grupo –mas os ocupantes não foram derrotados. Curió se foi e o acampamento continuou até a conquista do assentamento, em que terra foi distribuída para 210 famílias.

 

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Por isso, foi com muita emoção que nosso grupo de corredores se reuniu em frente à estátua que homenageia os sem terra de Encruzilhada Natalina. Poucos metros ao lado do monumento, há outro marco, bem mais simples, apenas uma placa de bronze preso em uma pedra. Com data de 2001, a placa anuncia: “20 anos da derrota do Curió e da vitória da luta pela terra”.


Saímos todos pela estrada em direção a outro território histórico para a luta pela reforma agrária. Rodando pela BR 324, seguimos para a fazenda Annoni, ocupada em 1985 pelo então quase recém-nascido Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra –o MST havia sido fundado no ano anterior em Cascavel, Paraná.


Nosso grupo tinha alguns jovens quase velocistas, que saíram em disparada pelo asfalto. Outros, como este jornalista, fomos mais modestos no trote galope, e houve até quem resolvesse caminhar desde o início.


O dia de sol nos saudava, e rapidamente fizemos o primeiro quilômetro de sobe e desce pelo asfalto. Para mim, foi uma alegria ver aquela juventude –participantes de um curso de formação política promovido pela MST—metendo bronca no asfalto, enfrentado a poeira da estrada de terra, aceitando o desafio da corrida.


Alguns já eram experimentados, como visto, mas outros queriam mesmo ver como se enfrentavam com a distância, o sol, o asfalto e a terra.


Ao fim, chegamos todos, suados, alegres e vencedores, ao nosso destino: a área da fazenda Annoni onde hoje se festeja, com uma grande celebração, os 30 anos da ocupação da gleba. Mas isso é outra história, que vou contando aos poucos ao longo dos próximos dias.


Antes de me despedir, trago aqui os nomes dos participantes da nossa provinha, que pomposamente chamei de Primeira Corrida Internacional de Encruzilhada Natalino:  Rafael Bastos e Ghambim Ludwig, do Brasil, Lenadro Ugo, Aimé Oliveira, Noelia Feldmann e Lucas Guzmann, da Argentina, Carlos Olivares, do México, Manuel Gomes, da Colômbia, Stine Linnerud Jespersen, da Noruega, Hilde Alfredo Garay, do Paraguai, e os brasileiros Júnior Rodrigues, Augusto Maidava, Valter Oliveira da Silva Jr., Vinicius Balbinoti, Lucas Antunes, Paulo Davi e este jornalista.