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A toxicologista brasileira Karen Friedrich foi uma das convidadas.

Por Alan Tygel
Da Página do MST


Ciência versus política, técnica versus filosofia. Estas foram algumas das aparentes controvérsias surgidas na audiência pública realizada pelo parlamento alemão sobre o Glifosato, realizada ontem (29) em Berlim. No entanto, uma avaliação mais profunda aponta que a contradição fundamental é apenas uma: de um lado, o agronegócio produtor de mercadorias agrícolas, que vê nos agrotóxicos apenas uma forma de aumentar produção, sobretudo mecanizada; do outro, a agroecologia, que afirma na teoria e na prática que é possível produzir alimentos em quantidade e qualidade suficientes para nutrir a crescente população mundial.


Ao contrário do Brasil, onde o registro para uso de agrotóxicos, uma vez concedido, vale para sempre, na Europa os registros possuem prazo de validade. E em 30 de agosto de 2015 se encerraria a validade do registro do Glifosato, o agrotóxicos mais usado no mundo, conhecido pela marca comercial Round Up, da Monsanto, ou pelo nome popular de Mata-Mato.


A extensão do registro ocorreria sem maiores “contratempos”, não fosse a publicação de um relatório do IARC, a agência de câncer da Organização Mundial da Saúde, aumentando a classificação do Glifosato para “provavelmente cancerígeno”. Este fato gerou grande imediata reação da indústria, que rapidamente tentou desqualificar o estudo do IARC, mas não impediu que o tema entrasse em pauta. No mesmo sentido, a agência de avaliação de risco alemão (BfR), elaborou rapidamente um adendo ao relatório do IARC, procurando desqualificar o estudo.


Neste contexto, foi convocada uma audiência pública nesta segunda-feira, dia 28 de setembro, em Berlim. O objetivo era ouvir especialistas e debater com os parlamentares as consequências da continuidade ou proibição do uso do glifosato na Europa, em geral, e especificamente na Alemanha.


Uma das convidadas foi a toxicologista brasileira Karen Friedrich. Karen é pesquisadora da Fiocruz e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), mas o convite se deu sobretudo por conta de seu trabalho no Dossiê ABRASCO sobre impactos dos agrotóxicos na saúde.


Além dela, estiverem presentes Eberhard Greiser, professor emérito de epidemiologia da Universidade de Bremen; Peter Clausing, da PAN (Rede de Ação sobre Pesticidas); Heike Moldenhauer , da BUND (organização alemã ligada aos Amigos da Terra); o bioestatístico Christopher Portier, do IARC; Ivan Rusyn, da A&M University/Texas; e Bernhard Krüsken, da Associação de Agricultores Alemã (DBV).


O Prof. Dr. Helmut Greim da Universidade de Munique, convidado como pesquisador independente, é autor de estudos financiados pela Monsanto. Durante a audiência, revelou ter recebido €3000,00 para elaborar o artigo, que concluiu que o glifosato não representa riscos a saúde.

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A maior parte da perguntas, no entanto, foi dirigida ao presidente da BrF, Andreas Hensel. Os argumentos utilizados para defender o glifosato foram principalmente o fato desta substância ser supostamente a mais estudada do que outros possíveis substitutos. Foi apontado também que as doses aplicadas nos estudos que mostram a toxicidade da substância é maior do aquela a que a população é exposta.


Neste sentido, foram citados diversos problemas no relatório do BfR. Além de não considerarem estudos epidemiológicos, que trazem dados mais próximos da realidade em relação a estudos de laboratório, foram incluídos estudos financiados pela indústria, aos quais não se tem acesso ao dados.


A brasileira Karen Friedrich rebateu argumentos ultrapassados, como a menção ao princípio de Paracelsus, que no século XV afirmou que a diferença entre o veneno e o remédio é a dose. “A literatura científica tem apontado o potencial genotóxico e de desregulação endócrina do glifosato que não obedecem a uma lógica linear entre a dose e o efeito.”, afirmou Karen. Ela ainda salientou que, além de tudo, o glifosato não é agronomicamente mais eficaz: “Diversas espécies de plantas não desejáveis tem manifestado resistência a esse herbicida. Por isso, a indústria vem pressionando pela aprovação de produtos comerciais formulados com outros herbicidas.”, disse a toxicologista. Reforçando este argumento, ela lembrou que a quantidade de agrotóxicos usada no Brasil praticamente dobrou nos últimos anos, ao passo que a produtividade da agricultura não acompanhou esse movimento.


Ela finalizou o debate com uma recomendação clara: “A produção agrícola de alimentos deve ser baseada em sistemas naturais, ou como chamamos no Brasil, agroecológicos. Existem evidências científicas robustas que demonstram o potencial do glifosato em causar efeitos sobre a saúde humana graves e irreversíveis, e com base na indicação legal de adoção do principio da precaução, o glifosato reúne condições para ter seu uso proibido na Europa.”, conclui Karen.


Defensores do glifosato tentaram desvincular decisões supostamente técnicas daquelas políticas. Chegou-se a afirmar que a aplicação do princípio da precaução seria algo filosófico, e portanto, afastado da “técnica objetiva”. Entretanto, a escolha da BfR em utilizar estudos financiados por empresas em sua revisão, e de desconsiderar estudos epidemiológicos revela claramente que esta separação não corresponde à realidade.


A decisão da Comissão Europeia sobre a renovação da licença do glifosato ainda deve demorar alguns meses. Os efeitos de uma possível restrição ao seu uso seriam importantíssimos no Brasil, já que grande parte da soja, milho e algodão transgênicos produzidos em solo nacional chega ao velho continente recheado de venenos.


A sociedade civil alemã também esteve presente. Médicos contra os glifosato protestaram em frente ao parlamento antes da audiência, e abaixo-assinados virtuais têm circulado pedindo o fim dos venenos.


Os problemas gerados pelo mercado de alimentos globalizado são sentidos de forma diferente por cada país. Ao Brasil, local escolhido para ser o celeiro do agronegócio, e portanto, o depósito tóxico do mundo, resta seguir a luta contra este modelo, e torcer para que restrições externas ajudem nosso país a deixar o posto de maior consumidor de agrotóxicos do mundo.