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Por Marco Weissheimer
Do Sul21


Os campos que cobriam vastos territórios no Sul do Brasil, Uruguai e Argentina estão sofrendo uma profunda transformação que, além de alterar suas paisagens típicas, ameaça sua biodiversidade. Eles já desapareceram em muitas áreas e, em outras, correm o risco de desaparecer, sendo substituídos por lavouras (de soja, principalmente) e plantações de árvores.


Nos três estados do Sul do Brasil, estima-se que esses campos já estejam reduzidos a menos de 40% de sua área original. Os riscos que essa transformação representa para a biodiversidade dessas regiões é um dos temas centrais do livro “Os Campos do Sul”, uma publicação da Rede Campos Sulinos, com apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que reúne trabalhos de mais de 80 autores e autoras de textos, imagens fotográficas e ilustrações.


Organizada por Valério de Patta Pillar, professor do Departamento de Ecologia da UFRGS, e por Omara Lange, bióloga com especialização em Ecologia, a publicação de 190 páginas apresenta um rico retrato da paisagem ambiental, histórica e cultural dos campos sulinos e adverte para os riscos da degradação dessa região. Em entrevista ao Sul21, Valério Pillar fala sobre o projeto que deu origem ao livro e chama a atenção para a baixa percepção, na opinião pública, sobre o que está acontecendo nos Pampas.


Além disso, critica o texto do decreto assinado pelo governador José Ivo Sartori na semana passada, instituindo o Cadastro Ambiental Rural. Para ele, é um absurdo a interpretação que afirma ter ocorrido supressão de vegetação nativa pela atividade pecuária e que, por isso, nada mais haveria para conservar nestas áreas.


Como nasceu o projeto do livro sobre os campos do Sul e quais seus objetivos?


O livro foi produzido por pesquisadores que trabalham com biodiversidade, com manejo de vegetação de campo e também com questões culturais e históricas envolvendo essa região. O que motivo a realização do livro foi a nossa percepção que o senso comum não percebe o que está acontecendo nos campos. É uma perda tão grande como se uma área de floresta estivesse sendo desmatada.


Se os milhares de hectares de campo que estão sendo transformados anualmente em lavoura no Rio Grande do Sul fossem de florestas provavelmente a opinião pública não estaria assistindo a isso passivamente. As pessoas não percebem que os campos têm tanta biodiversidade quanto as florestas e que ela precisa ser conservada. Estamos falando aí de milhares de espécies.


Além disso, esses campos são usados há séculos para a produção pecuária e essa produção tem um impacto econômico no Rio Grande do Sul e no sul do Brasil de um modo geral. As transformações que têm acontecido provocam uma perda também desse potencial produtivo.


Quais são exatamente as atividades econômicas que estão causando essas transformações nos campos?


São as lavouras, principalmente a lavoura de soja, que têm pressionado tremendamente os campos. Este ano, inclusive, isso está ocorrendo de maneira expressiva, em função do preço atraente. Está se plantando soja mesmo em regiões onde as condições de clima e solo não são as melhores para essa produção.


A silvicultura, em um determinado momento, pressionou bastante os campos aqui no Estado, mas essa pressão diminuiu um pouco por questões econômicas. Com a silvicultura parece que a população percebeu melhor a importância dos campos, pois ela cria uma barreira visual e as pessoas percebem que alguma coisa aconteceu. Quando se transforma campo ou pastagem cultivável em lavoura parece que as pessoas não percebem o que está ocorrendo. Parece que antes da lavoura tinha algo ali que não tinha valor…


Que era um pedaço de campo abandonado…


Sim. A população, de um modo geral, tende a dar mais valor às florestas, às árvores, do que a plantas herbáceas que, do ponto de vista biológico, tem o mesmo valor para a conservação.


Já há perda de biodiversidade comprovada nestas áreas de campos?


É difícil saber porque muitas espécies que nem eram conhecidas podem já ter se extinguido em algumas regiões onde a transformação foi brutal como ocorreu no Planalto Médio. Nesta região, praticamente não temos mais campos. Há espécies ameaçadas e o livro mostra quais são. As ameaças geralmente decorrem destas mudanças que provocam fragmentação e perda de áreas campestres.


Você falou do caso do Planalto Médio. Muita gente, quando ouve falar em campos, associa essa palavra mais à região do Bioma Pampa, na fronteira do Estado com o Uruguai e a Argentina. Qual é mesmo a definição dessa categoria “campo”?


Como esse processo no Planalto Médio tem ocorrido há mais tempo, desde os anos 70, as próprias pessoas que vivem nestes lugares perderam essa memória. O mesmo tem acontecido no Paraná, na região de Ponta Grossa, por exemplo, que era tipicamente campestre. As tropas que iam do Rio Grande do Sul para Sorocaba passavam por estes campos, daqui até São Paulo. Estes campos já desaparecem.


O fato de essas transformações ocorrerem nesta magnitude faz com que as pessoas percam essa memória de que vivem num lugar que era caracterizado pela vegetação campestre. Se lermos “O Continente”, a obra de Érico Veríssimo, vemos que ela se passa no Planalto Médio, que era uma região de campo, de atividade pecuária. Onde eram criadas as mulas que iam para Sorocaba? Nos campos do Planalto Médio e das Missões. Hoje os campos das Missões também completamente transformados em lavouras.


O governador José Ivo Sartori assinou recentemente um decreto que instituiu o Cadastro Ambiental Rural. Qual sua opinião sobre o teor do mesmo?


Fiz uma análise preliminar do decreto e aquilo que eu imaginava aconteceu. O decreto faz interpretações esdrúxulas da lei federal de proteção da vegetação nativa, que é de 2012. Ele teria a intenção de esclarecer alguns pontos ambíguos dessa lei, que não é muito explícita em relação à vegetação de campo, e regulamentar a sua aplicação no Rio Grande do Sul. Nós defendemos que a vegetação de campo deve ser usada para a atividade pastoril.


A atividade pastoril é essencial para a preservação da vegetação campestre. Isso deveria constar do texto do decreto. Ele inclui que é desnecessária autorização para o uso pastoril da reserva legal, mas falha ao dizer que a vegetação nativa, em áreas utilizadas há séculos para pecuária, teria sido suprimida. Segundo essa visão, o uso pastoril da vegetação suprimiria essa vegetação nativa. Isso é um equívoco que não se sustenta. Nós mostramos isso no livro. Encontramos essa riqueza imensa de espécies em áreas de campo usadas para atividade pastoril.


Essa visão parece estar baseada numa ideia do senso comum que, se há gado no campo, ele está removendo a vegetação nativa…


É isso. Decorre desse senso comum ou de má intenção mesmo. Eu diria que é uma mistura das duas.


E por que é mesmo que essa ideia de senso comum está errada?


Nós temos nesta região da América do Sul uma transição entre um clima mais seco e mais frio que está mais ao Sul e um clima mais úmido, de uma área de florestas situadas mais ao norte. Aqui nós temos um encontro dessas formações. E o clima mudou nos últimos milhares de anos e já não é mais tão favorável à preservação desta vegetação aberta e é mais favorável às florestas. Isso tem acontecido nos últimos três mil anos. Os campos são anteriores às florestas. Estas chegaram aqui há cerca de três mil anos em função da mudança o clima que se tornou mais úmido e mais propício às florestas. Os campos se mantiveram neste tempo todo em função dos distúrbios causados pelas queimadas indígenas que restringiram a expansão das florestas. A introdução do gado, na verdade, foi uma reintrodução. Tivemos grandes pastadores aqui que se extinguiram há cerca de dez mil anos.


Que animais eram estes?


Havia lhamas, cavalos – inclusive a mesma espécie que foi domesticada na Ásia e na Europa -, o toxodonte, um animal que pesava uma tonelada, grandes pastadores que eram maiores que o gado e os cavalos atuais. A eliminação destes pastadores e a mudança climática poderia ter facilitado a expansão das florestas, mas as queimadas indígenas mantiveram os campos. Aí aparece uma questão bastante relevante. Há quem defenda que, em função das mudanças do clima, devemos deixar os campos desaparecer. O clima agora seria propício às florestas. Isso é um equívoco um problema ético. Não temos o direito de nos retirar de uma paisagem que é mantida pela nossa atividade há milhares de anos.


Essa imensa riqueza de espécies que é mostrada no livro permanece vivendo nestes campos em função da manutenção da atividade pastoril. Se a biomassa não é removida pela pastagem, essas espécies serão substituídas por espécies arbustivas, espécies lenhosas, espécies altas. A atividade pastoril faz com que os campos se mantenham em um estágio onde essas espécies que co-evoluíram aqui nesta região, com esses pastadores, se mantenham, preservando a biodiversidade atual. Se removermos a atividade pastoril causaremos a extinção de espécies.


Ou seja, a ideia de que a reserva legal em campo nativo teria que ser fechada é equivocada, pois isso traria perda de biodiversidade. Por isso nós dizemos que a atividade pastoril é compatível com a preservação da biodiversidade. Voltando à questão do decreto do Cadastro Ambiental Rural, é um absurdo a interpretação dessa situação que afirma que teria havido supressão de vegetação nativa e, por isso, nada mais haveria para conservar e, assim, não haveria mais necessidade de reserva legal já que não existiria mais vegetação nativa a ser protegida a ali.


E aí entram aquelas exceções da lei que dizem que, se houve supressão da vegetação ao abrigo da lei, lá nos anos 70 ou 80, também não haveria necessidade de reserva legal. O que foi divulgado até agora deste decreto é só a casca, não se tocou no ponto mais crítico. Espero que o Ministério Público entre com uma ação para, pelo menos, bloquear a aplicação de alguns artigos do decreto.


No processo de construção do decreto, chegaram a ocorrer consultas a pesquisadores e outros setores da sociedade?


No ano passado eu fui consultado a respeito de uma minuta que havia do decreto e apresentei algumas sugestões de aperfeiçoamento. No início do atual governo eu tive acesso a uma minuta com outra formulação que definia essas áreas de uso pastoril como sendo áreas de uso consolidado onde teria ocorrido supressão da vegetação nativa. Nós nos manifestamos contra essa interpretação e eu tive uma reunião com a secretária adjunta do Meio Ambiente. Mas percebia que o texto já estava decidido em função de compromissos políticos deste governo e a conversa não prosperou. E tampouco prosperou no ano passado, mesmo com um governo supostamente mais favorável. Sentimos certa resistência dentro da própria Sema (Secretaria do Meio Ambiente) para agilizar essa discussão e ter esse decreto.


A lei de proteção da vegetação nativa é de 2012 e nós já estamos em 2015. Desde então, as transformações continuam acontecendo, os campos estão sendo transformados em lavouras, os proprietários não fizeram o Cadastro Ambiental Rural. A lei exige licenciamento para supressão de vegetação nativa e preenchimento do CAR desde 2012; de qualquer vegetação nativa, seja campo ou floresta. Para observar o que aconteceu de lá para cá é só viajar para São Gabriel, Dom Pedrito, Bagé, Aceguá, toda essa região da campanha, e ver que a transformação de campos em lavouras continua acontecendo de maneira ilegal, a revelia da lei que exige pelo menos o licenciamento e o preenchimento do CAR, com a delimitação da reserva legal. Nós, provavelmente, não teremos reserva legal, se esse decreto for interpretado com a intenção com que foi elaborado.


Ou seja, vai facilitar ainda mais a expansão das lavouras de soja sobre os campos…


Exatamente. Tivemos a lei de 1965 e raros foram os proprietários que delimitaram reserva legal. Com a lei de 2012, imaginou-se que, em função de todo o debate que ocorreu no Congresso Nacional, teríamos finalmente o cumprimento da lei, afinal ela foi o resultado de uma grande negociação. Que nada. A lei continua sendo descumprida, com interpretações como a que foi feita neste decreto aqui no Estado.


Mas o nosso livro mostra uma esperança. Ele diz que há saídas, que os campos são produtivos, que há perspectivas de rentabilidade econômica tão altas quanto as da produção agrícola. Há pesquisas mostrando que é possível aumentar a produtividade, e não estou falando de aumentar 20, 30%, mas sim de triplicá-la apenas com um manejo mais adequado. O principal insumo para garantir esse aumento de produtividade é inteligência, é o manejador entender o sistema que ele está utilizando. Há saídas. A questão é se teremos tempo. Estimamos que temos hoje menos de 40% dos campos que originalmente cobriam o sul do Brasil.


Entre os produtores rurais há quem concorde com essa posição?


Sim, nós temos parceiros entre os produtores rurais. Há uma entrevista no livro, na página 162, com o pecuarista Fernando Adauto Loureiro de Souza, de Lavras do Sul, que defende a conservação dos campos nativos. Todos os pecuaristas que estão integrados na Alianza del Pastizal, uma organização que envolve vários países da América do Sul, defendem a proteção dos campos, com a produção pecuária e a manutenção da biodiversidade. Há um setor do mundo rural que entende essa mensagem, mas infelizmente ele é minoritário nas esferas de decisões. O que predomina na Farsul, por exemplo, é o setor agrícola, os interesses dos lavoureiros. Os pecuaristas com essa visão mais conservacionista são minoria.