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Do Portal Paranaense de Comunicação


“Estou com 73 anos e nunca vi uma coisa tão bonita como agora”, partilha o camponês José Carneiro, emocionado com tudo que viu e ouviu no encerramento e durante os quatro dias de trabalho do projeto de extensão da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), no acampamento do MST, Herdeiros da Luta, no município de Porecatu (PR). Atuante no contexto do acampamento, o agricultor, num rápido dedo de prosa, comentou que sempre morou no campo e que ainda não tinha conhecimento daqueles saberes. “Aprendemos e agora vamos fazer”, disse.


Foram realizadas ações em educação em sexualidade, saúde, cultura, meio ambiente, trabalho e produção de artesanatos. Cerca de 400 pessoas, dentre crianças, adolescentes, jovens e adultos, participaram das atividades conduzidas por cinco acadêmicos e um professor da UENP e sete monitoras do Movimento. As ações que foram desenvolvidas no acampamento integram o projeto de extensão “Sexualidade em Movimento”, que é vinculado ao setor de Enfermagem da Universidade.


O projeto foi concebido como parceiro do “Projeto de Formação para Mulheres dos Assentamentos de Reforma Agrária do Paraná”, que é executado pela Associação de Cooperação Agrícola do Paraná através dos setores de Educação e Gênero da Secretaria Estadual de Educação do MST, tendo como fonte de financiamento a Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República.


O professor Luiz Fabiano Zanatta, coordenador do projeto, explica que o conjunto de ações de atividades ocorre com ênfase nas questões do corpo, gênero e sexualidades, visando catalisar discussões e reflexões críticas sobre questões emergentes deste universo, além de ações que visam contribuir com a melhoria da qualidade de vida da comunidade.


“O conjunto de ações são pautadas nos princípios da Educação Popular e na Política Nacional de Educação Popular em Saúde, objetivando uma ação de mão dupla: da Universidade para a sociedade e da sociedade para a Universidade. Isso porque os atores sociais que participam das ações, também contribuem com a produção do conhecimento”, explica o coordenador.

 

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Isabel Green, 67, da coordenação do MST no Paraná, destaca que a parceria entre o Movimento Sem Terra e a UENP é muito importante, pois são dois conhecimentos que se encontram num espaço concreto de vivência de um acampamento e de uma escola Itinerante. “Durante as ações, tratamos da vida e dos problemas da vida nesse espaço. O trabalho feito aqui foi muito bonito, porque envolveu toda a comunidade: educadores, juventude, adolescentes e também a criança pequena. Envolveu o ser humano na sua totalidade de vida”, pontuou Isabel.


Natieli da Silva Celestino, 21, coordenadora pedagogia da Escola Itinerante Herdeiros da Luta, do acampamento, salienta que o trabalho sobre sexualidade desenvolvido com os educandos da escola foi fundamental para abordagem do tema, já que isso não faz parte da formação dos educadores. “Muitas vezes, os educadores acham que o que precisa ser trabalhado na escola em relação à sexualidade é somente aquilo que está exposto nas disciplinas de Biologia e Ciências. Então esse trabalho realizado deverá contribuir muito para o processo de formação de nossos educandos”.


Para Luiz Fabiano, as ações que estão sendo desenvolvidas têm como principal impacto a interação dialógica, produzindo a superação da hegemonia acadêmica por substituí-la pela ideia de aliança junto ao Movimento Social. Para o professor, não se trata mais de “estender à sociedade o conhecimento acumulado pela Universidade, mas de produzir, em interação com a sociedade, um conhecimento novo, marcado pelo diálogo e troca de saberes, que contribua para a superação da desigualdade e da exclusão social e para a construção de uma sociedade mais justa, ética e democrática”.


O acadêmico Everson Orlandini Alves, do 4º ano de Enfermagem destaca que a experiência no acampamento foi um grande momento de aprendizagem que não se encontra nos livros. “É importantíssimo conhecermos outras realidades e culturas. Jamais me esquecerei desses dias que passamos com essas pessoas que nos receberam com tanto entusiasmo e educação”. Deivid Junior Melo, do 3º ano de Geografia, resume em duas palavras sua experiência. “Emocionante é a palavra exata com a qual posso descrever a ação realizada neste final de semana com os meus companheiros da UENP. Uma segunda palavra que pode expressar a atividade para minha vida, não só acadêmica, é crescimento”. Natália Otenio Porcinelli, também do 4º ano de Enfermagem, ressalta ter vivido uma experiência que envolveu aprendizado, solidariedade e muita dedicação. “Fiquei encantada com a união e companheirismo deles e também com o modo que nos receberam durante as visitas em saúde”.


As atividades que foram desenvolvidas no acampamento Herdeiros da Luta, entre os dias 11 e 14 de junho, integram uma das dez ações que estão sendo desenvolvidas nos acampamentos e assentamentos do MST no Estado do Paraná. Até o momento já foram realizadas atividades nos municípios de Londrina, Paissandu, Jacarezinho e Porecatu. Para execução do projeto são envolvidos discentes da UENP bem como monitoras e colaboradores/as do próprio Movimento, que atuam de forma voluntária.