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Por Carlos Juliano Barros
Da Repórter Brasil


Na tarde de 22 de janeiro, William Garcia da Silva fazia faxina no setor mais sujo de sangue e vísceras da unidade de abate de bois do grupo JBS Friboi em Coxim, Mato Grosso do Sul. Ele e seus colegas já haviam avisado ao superior que faltavam grades para isolar componentes perigosos de uma máquina de moagem de ossos e chifres. Mas os alertas foram em vão. Quando se esticou para limpar as engrenagens da moedeira, William teve seu braço violentamente tragado pela máquina. 


Sozinho, ele reuniu forças para desprender o corpo do equipamento e correr até o departamento de Recursos Humanos à procura de ajuda. Não havia enfermeiro e nem ambulância de plantão. Por sorte, o encarregado do setor de abate ainda estava no local e conduziu – em seu carro particular – William até o hospital público, a trinta minutos do frigorífico. O estrago já estava feito: a rosca amputou seu braço acima do cotovelo e deixou “só o cotoco”, como ele descreve. “Se fosse mais tarde, eu teria morrido porque no final do dia só fica o pessoal da faxina, que não tem carro. Não daria tempo de uma ambulância chegar”, desabafa. 


William nunca recebeu treinamento para a função que exercia. Ele fazia bicos como jardineiro antes de ser contratado como auxiliar de produção na JBS. Em tese, sua missão diária era abastecer a máquina moedeira. Porém, com a demissão de alguns funcionários, foi escalado para fazer a faxina e a limpeza das máquinas, operação que exige cuidados específicos. Durante as duas semanas em que ficou internado no hospital, William recebeu a visita de um administrador do frigorífico. Perguntado se a empresa já lhe propôs algum tipo de acordo, ele responde laconicamente:  “as coisas estão indo”. Logo depois confessa que prefere não falar sobre o assunto. Aos 24 anos, afirma não estar abalado psicologicamente. Pai de uma menina de oito meses, lamenta apenas “não poder segurar e jogar o bebê para cima”.


O grave acidente que ceifou o braço de William não é um caso isolado nas plantas frigoríficas do grupo JBS, espalhadas por 14 estados do país. A ocorrência de falhas banais de segurança chama a atenção por se tratar da maior processadora de proteína animal do mundo. Turbinada por recursos de bancos públicos como o BNDES e a Caixa Econômica Federal, a JBS registrou receita líquida de R$ 120 bilhões em 2014. Nas últimas eleições, bateu o recorde de doações de campanha: R$ 366 milhões. Mas o dinheiro farto e os rígidos protocolos corporativos que levaram a JBS ao topo da cadeia alimentar mundial não parecem se refletir no chão de fábrica – principalmente, quando o assunto é saúde e segurança no trabalho.   


Diariamente, funcionários da JBS driblam um variado mosaico de riscos. É esse o diagnóstico do Ministério Público do Trabalho, que move uma série de ações contra a empresa. Em janeiro, a unidade de São José dos Quatro Marcos, no Mato Grosso, entrou na mira por expor seus empregados a jornadas excessivas em ambientes insalubres – o contato prolongado com o sangue de um boi abatido, por exemplo, aumenta a chance de transmissão de doenças como a tuberculose. O órgão federal exige uma indenização por danos morais coletivos de R$ 10 milhões. No Rio Grande do Sul, máquinas que colocavam em risco a integridade física de funcionários foram interditadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego, em dezembro. No Paraná, um vazamento de amônia que intoxicou 66 pessoas levou a planta de Santo Inácio a ser processada em R$ 16,8 milhões, em outubro do ano passado. 


Episódios como esses colocam em xeque o comprometimento da multinacional em garantir condições adequadas de saúde e segurança a seus empregados. Revelam ainda a distância entre a realidade do chão de fábrica e a exibida pela publicidade da empresa.


Só nos dois primeiros meses deste ano, outros dois graves acidentes, além do ocorrido com William, vieram a público. Em 03 de fevereiro, Vanderlei Costa Rosa, de 28 anos, empregado de um frigorífico da JBS em Carambeí, Paraná, teve a mão decepada enquanto limpava uma máquina de moagem de suínos. De acordo com uma norma regulamentadora do Ministério do Trabalho, equipamentos desse tipo não podem ser higienizados em funcionamento. 

 

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Segundo o sindicato, Vanderlei foi orientado a limpar uma máquina em funcionamento para não atrasar a produção do frigorífico. Foto: Sergio Borges.

“O Vanderlei foi orientado a realizar a limpeza com a moedeira ligada para não atrasar a produção. Além disso, ele não foi treinado para essa função, não tinha nenhuma experiência”, explica Wagner Rodrigues, secretário-geral do Sindicato da Alimentação de Carambeí. “A máquina não tinha as contenções para evitar acidentes. Ele enfiou a mão para fazer a limpeza de um resíduo e não viu que havia uma lâmina”, acrescenta. Procurado pela reportagem, Vanderlei preferiu não dar entrevista. Tem receio de que a publicidade dificulte as negociações com a empresa.


Dois dias após o acidente com Vanderlei, uma unidade da JBS localizada em Lins, no interior de São Paulo, registrou um caso ainda mais chocante. O mecânico Alexandre Oliveira e Silva, que trabalhou por quase 12 anos no frigorífico, morreu depois de cair em uma máquina de trituração, por volta das 19 horas. Um inquérito policial apura o que aconteceu, já que ele estaria sozinho no local. Sabe-se apenas que os gritos desesperados do mecânico chamaram a atenção dos colegas, que estavam jantando no momento exato do acidente. Quando um deles finalmente apertou o botão que desligou a máquina, o corpo de Alexandre já havia sido esmagado. Parentes do mecânico também optaram por não se pronunciar. Um membro de sua família já foi e outro ainda é empregado na mesma planta industrial onde Alexandre perdeu a vida.


Falhas sistemáticas


O braço arrancado de William no Mato Grosso do Sul, a mão decepada de Vanderlei no Paraná e a morte de Alexandre em São Paulo constituem uma pequena amostra de falhas graves detectadas sistematicamente em plantas frigoríficas do grupo JBS em todo o Brasil. 


“O que salta aos olhos é a falta de compromisso da JBS. Não há prevenção para coisas básicas”, afirma Mauro Müller, auditor fiscal do Ministério do Trabalho. Em dezembro de 2014, ele inspecionou uma planta de abate de aves no município de Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul. Alguns equipamentos representavam tantos riscos aos trabalhadores que tiveram de ser interditados. “Para a máquina de limpar moela, por exemplo, já havia uma CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) registrada por amputação de dedo nos roletes”, conta o auditor. Mesmo assim, ela continuava em operação, sem qualquer proteção.

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Apesar de um acidente já ter ocorrido nesta máquina de limpar moela, ela continuava em operação sem as proteções nessárias em unidade da JBS Friboi. Foto: Divulgação MTE.


É comum que os frigoríficos tentem transferir a responsabilidade dos acidentes – como os que mutilaram William e Vanderlei – para os próprios trabalhadores, acusando-os de praticar “ato inseguro”. Em outras palavras, as empresas argumentam que são os funcionários que se expõem indevidamente a riscos. “Esse conceito é completamente obsoleto”, argumenta Sandro Sardá, procurador do Ministério Público do Trabalho e gerente nacional do Projeto de Adequação das Condições de Trabalho em Frigoríficos do órgão. Para ele, os principais fatores de risco são a falta de treinamento adequado e a inexistência de proteções no maquinário. “Uma eventual falha do empregado é um evento posterior à falha de segurança do equipamento. Portanto, é consequência e não causa do acidente”, completa. 


O auditor Mauro Müller destaca outra questão grave na JBS de Passo Fundo: a manipulação de peso em excesso. No setor de descarregamento de aves, por exemplo, ele flagrou trabalhadores transportando com os próprios braços entre 40 e 50 toneladas por jornada – o Ministério do Trabalho fixa em 10 toneladas o limite máximo diário. 


Em outra área da mesma planta industrial, o auditor fiscal acompanhou um trabalhador que empurrava uma bateria de mais de uma tonelada. “A força que ele fazia com a coluna vertebral era descomunal. É só uma questão de tempo para ele se afastar”, aponta. Mesmo com a ajuda de equipamentos apropriados, um trabalhador pode empurrar no máximo 500 quilos.


Outro exemplo cabal de descumprimento da legislação trabalhista se verifica no estado do Mato Grosso. Em fevereiro deste ano, a Justiça acolheu uma série de pedidos do Ministério Público do Trabalho para impedir que empregados da JBS fizessem horas extras em ambientes insalubres em frigoríficos de três municípios: Araputanga, Pontes e Lacerda e São José dos Quatro Marcos. O calor excessivo na área de abate, o frio intenso no setor de desossa de animais, além da exposição contínua ao sangue dos animais, aumentam o risco de doenças e acidentes. 


Os casos colhidos pelo Ministério Público na unidade de São José dos Quatro Marcos impressionam. Um funcionário teve apenas dois dias de descanso ao longo de um mês inteiro. Outro trabalhou 108 horas e 45 minutos além da jornada regular em apenas um mês – média superior a quatro horas extras por dia. A realização de horas extras em ambientes insalubres é proibida sem autorização prévia do Ministério do Trabalho – e a JBS não tinha essa permissão. “As jornadas são levadas ao extremo, em atividades muito repetitivas e aceleradas. Quando isso ocorre, o risco ergonômico aumenta em 50%”, explica o auditor fiscal Mauro Müller. 


Na JBS de São José dos Quatro Marcos, o Ministério Público também questionou uma diferença de tratamento entre os funcionários expostos ao sangue dos animais. Os empregados de mais alta patente, que lidavam diretamente com o Serviço de Inspeção Federal (S.I.F), órgão responsável pela supervisão das condições sanitárias, tinham direito ao grau máximo do adicional por insalubridade, que corresponde a 40% do salário mínimo. Os empregados envolvidos diretamente no abate, apesar de terem contato mais intenso e frequente com o sangue, recebiam apenas o grau médio do benefício – na faixa de 20%. Para o Ministério Público, a diferença de hierarquia não justifica o tratamento diferenciado, ainda mais considerando que o risco é maior para os funcionários do abate. 


Plantas industriais da JBS também colecionam graves problemas de infraestrutura. Em outubro do ano passado, um vazamento de amônia – gás usado no sistema de refrigeração da planta de abate de aves no município de Santo Inácio, Paraná – levou 66 pessoas ao hospital por vômitos, dores de cabeça e até desmaios. 


De acordo com o Ministério Público do Trabalho, não havia qualquer sistema para detectar a presença de amônia no ambiente. Os trabalhadores avisaram seus superiores sobre o cheiro forte de gás, mas foram obrigados a trabalhar mesmo assim, segundo relatos ouvidos por médicos e enfermeiros do hospital. Ainda segundo o Ministério Público, só não houve consequências mais graves porque o único funcionário treinado para lidar com esse tipo de situação – dos seis que operam o sistema de refrigeração – havia iniciado seu expediente pouco após o início do vazamento.


Sem conversa


Ao contrário da propaganda acima, a JBS é criticada justamente pela falta de tranparência: a empresa resiste em dialogar e remeter informações a sindicatos e autoridades. Por lei, toda empresa é obrigada a enviar as CATs, documentos que comunicam os acidentes de trabalho, aos sindicatos. Mas isso não tem acontecido na unidade da JBS que abate aves em Carambeí, no Paraná. 


“Desde que se instalou em Carambeí, há sete meses, nunca mais fomos informados sobre os acidentes ocorridos no frigorífico”, explica Wagner Rodrigues, do sindicato local. A unidade pertencia originalmente à Brasil Foods, depois foi vendida para a Seara – empresa que hoje faz parte do grupo JBS. Segundo o sindicato, a direção da Brasil Foods era bem mais acessível.  


O mesmo sindicato também representa trabalhadores de outras grandes indústrias do ramo da alimentação, como a multinacional Cargill. Mas Wagner calcula que, de cada dez reclamações que chegam à entidade, oito dizem respeito à JBS. 


A fama de má negociadora é confirmada pela fiscalização do Ministério do Trabalho. No Rio Grande do Sul, Mauro Müller avalia que é mais difícil sentar à mesa com a JBS do que com frigoríficos de menor porte. “Propusemos uma série de adequações para as plantas de Montenegro e de Passo Fundo, mas a JBS resiste em se comprometer. Empresas menores toparam acordos e estão tomando medidas exemplares. No caso da JBS, tivemos que impor”, afirma. 


Procurada em diversas oportunidades pela Repórter Brasil, a assessoria de imprensa da JBS não se manifestou sobre os acidentes e falhas apontadas pelos auditores fiscais nos frigoríficos do grupo.


A postura pouco transparente contrasta com seu grande investimento em publicidade. Em campanhas que giram em torno da palavra “confiança”, personalidades públicas como o ator Tony Ramos e o cantor Roberto Carlos vendem a marca em jornais, revistas e na TV. Em uma peça, o ator pergunta a uma compradora o que lhe vem à memória quando ela pensa em Friboi. Ela responde: “as portas da fábrica se abrindo, então eu vejo que eles estão querendo mostrar transparência. Aí você passa a ter mais confiança na marca”. Em outra peça, o ator apresenta um frigorífico exemplar, onde “a higiene é total” e “uma equipe exclusiva cuida da limpeza”. Histórias como a de William, Vanderlei e Alexandre passam longe da versão publicitária. 


Para o procurador Sandro Sardá, “não há desculpas para que os padrões de saúde e segurança da JBS não estejam à altura de seu porte”. Com o faturamento recorde de R$ 120 bilhões do ano passado, a companhia destronou a mineradora Vale e se tornou a maior empresa privada do Brasil. Mas convém lembrar que  35% de seu capital acionário vêm de injeções de instituições financeiras estatais, como BNDES e Caixa Econômica Federal. Seja pelo sucesso nos negócios ou pela generosidade dos cofres públicos, falta de dinheiro não é justificativa para o maior grupo frigorífico do mundo deixar de investir em condições mínimas de segurança e saúde para os seus funcionários.