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Da CLOC - Via Campesina


“Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros, outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia. Que esse congresso sirva para incendiar essa chama.”


Foram com esses versos do escritor Eduardo Galeano que a argentina Deolinda Carrizo, do povoado tradicional indígena Vilela, começou o 6º Congresso Continental da CLOC – Via Campesina, nesta terça-feira (14).

 

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Após dois anos de preparação e centenas de quilômetros percorridos, mais de 1200 delegados de 21 países da América Latina e Caribe se reúnem até a próxima sexta-feira (17), em Buenos Aireis, na Argentina, para discutir os principais desafios dos camponeses e traçar uma agenda conjunta de mobilização para os próximos anos.


Responsável pela Secretaria Operativa da CLOC, Deolinda relembrou o processo de criação da Coordenação Latinoamericana e Caribenha das Organizações do Campo (CLOC).


“Iniciamos esse processo continental, no final dos anos 80, porque não íamos celebrar o descobrimento da América. Nos juntamos para dizer que havia resistência camponesa, indígena e popular”, recordou Deolinda.

 

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 Nemesia Achacollo,​ atual ministra boliviana de Desenvolvimento Rural e Terra

O surgimento de uma organização camponesa na América Latina foi impulsionada, em grande medida, pelas articulações em torno da “Campanha 500 anos de resistência indígena, negra e popular”, que agrupou forças contrárias às comemorações do descobrimento da América pelos colonizadores europeus.


Com a criação da CLOC, em 1994, como resultado dessas mobilizações continentais, foram erguidas diversas bandeiras de luta relacionadas com a pauta do campo e da libertação dos povos latinos diante da ofensiva neoliberal.


“Nos unimos, caminhamos e hoje podemos dizer juntos que derrotamos a ALCA, o Tratado de Livre Comércio das Américas. Tratados que ainda tentam sepultar este fogo que segue andando”, rememorou Deolinda.


Já a integrante histórica da CLOC, atualmente ministra boliviana de Desenvolvimento Rural e Terra, Nemesia Achacollo, refletiu sobre o atual processo de transformação social ocorrido depois da ascensão de governos progressistas na região.


“Nós estamos vivendo um processo de mudança. Um irmão que foi membro desde a construção da CLOC se tornou o presidente Evo Morales. Um companheiro camponês, indígena, em busca dos direitos humanos e com respeito à mãe terra. Hoje vivemos os frutos da revolução bolivariana. Apesar de não estar presente fisicamente, o presidente Chávez e a revolução bolivariana vive entre todos”, afirmou Nemesia.

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Inimigo comum


Apesar das memórias positivas da resistência camponesa, os povos estão cada dia mais expostos ao modelo de sociedade vigente no mundo. Para o integrante da MNCI e integrante da Secretaria Operativa da CLOC, Diego Montón, o capital financeiro é a principal ameaça à soberania dos povos.


“Apesar dos avanços, o capital financeiro e as corporações têm conseguido que nossas economias se concentrem e se centralizem. Atualmente, está ocorrendo uma enorme ofensiva das corporações transnacionais sobre nosso continente e em todo o mundo”, assegurou Diego.

 

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Segundo o dirigente, o principal objetivo do congresso é reiterar o combate ao modelo capitalista, romper com o sectarismo e construir unidade entre as forças progressistas.


“Viemos a esse congresso para fortalecer a articulação continental, superar as falhas para além de todas as conquistas, romper divergências, fortalecer nossos mecanismos de poder e estabelecer uma verdadeira agenda de luta continental contra esse projeto do capital financeiro”, afirmou.


E esse processo não pode estar alijado da defesa da soberania alimentar, também ponderou Diego. “Se não recuperarmos a soberania alimentar não sustentaremos esse processo ascendente de lutas na América Latina. E não pode haver soberania alimentar sem agricultura camponesa, que por sinal só se concretizará com uma reforma agrária popular e integral que aconteça do Caribe até a Terra do Fogo”.


O evento, que tem como lema “Contra o capitalismo, por soberania dos nossos povos, América unida segue em luta”, continua até sexta-feira (17), quando se pretende elaborar apontamentos conjuntos dos camponeses para os próximos anos.