Por Alan Azevedo
Do GreenPeace Brasil


2014 foi um bom ano para a agricultura ecológica. Também conhecida como agroecologia, esse tipo de produção, que protege e promove a biodiversidade na terra, está ganhando reconhecimento ao passo que produtores se esforçam para se adaptarem às mudanças climáticas e o ultrapassado modelo baseado em agrotóxicos e transgênicos é cada vez mais questionado.


Um importante reconhecimento veio do Relatório Especial das Nações Unidas sobre o Direito à Comida, realizado pelo pesquisador Olivier De Schutter. Em seu relatório final, pediu pela democracia na comida e pela agroecologia: “Não se pode continuar nesse impasse de uma produção alimentar dependente de óleo. […] Agroecologia é senso comum. Significa entender como a natureza funciona, para replicar seu trabalho em fazendas com o objetivo de reduzir a dependência de agentes externos.”


A chave para acabar com a fome global não é produzir comida para pessoas famintas (que não têm ao menos dinheiro para pagar pelo alimento), mas permitir que essas pessoas plantem seus próprios alimentos.


Em seu primeiro discurso público como sucessora de Schutter, a pesquisadora e professora Hilal Elver continuou na mesma linha, defendendo que a crise global de comida de 2009 assinalou a necessidade de mudança no modelo de produção de alimento. Segundo ela, “novas pesquisas em agroecologia nos permite explorar com mais eficiência como usamos o conhecimento tradicional para proteger pessoas e seu meio ambiente ao mesmo tempo.”


Outro importante incentivo pela agricultura ecológica veio da FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, mais exatamente da boca de um brasileiro. O diretor-geral José Graziano da Silva, falando à alta cúpula no Simpósio Internacional de Agroecologia para Segurança Alimentar e Nutricional em Roma, defendeu que a agroecologia continua a crescer, tanto na ciência como na política: “É uma abordagem que ajuda a endereçar o desafio de acabar com a fome e a desnutrição em todas as suas formas, num contexto de necessária adaptação às mudança climática”.


E enquanto outras vozes se somam pedindo pela promoção da agroecologia, visto o cenário de desequilíbrio da temperatura global e escassez de água, evidências mais robustas pipocam de cientistas dedicados a estudar esse modelo de produção.


Um novo estudo da Universidade de Berkeley, California, mostra que a produção agroecológica - baseada na biodiversidade (rotação, policultura, etc.) - é uma maneira efetiva de aumentar a produção e reduzir as entressafras.


A primeira importante descoberta é que a diferença entre a produção orgânica e a convencional é menor do que anteriormente estimado: 19% abaixo para o cultivo orgânico. Ainda mais importante, quando atividades baseadas na biodiversidade são aplicadas da melhor forma, a produção orgânica se aproxima muito da convencional, e, em alguns casos, alcança uma diferença mínima.


Esses resultados provam quão perto a agricultura sustentável está de prover alta produção de alimento e alto grau de auxílio para a preservação do planeta. Algo que as culturas químicas jamais serão capazes de fornecer.


Se a agroecologia recebesse o mesmo nível de investimento que a agricultura convencional, em termos de P&D(Pesquisa e Desenvolvimento), prática e extensão, a produção orgânica poderia de fato chegar ao nível da convencional.


As evidências positivas sobre como a agricultura ecológica pode ajudar a alimentar o mundo fez com que a União dos Cientistas Engajados, baseada nos Estados Unidos, iniciassem uma petição pedindo pelo aumento do investimento público em pesquisas agroecológicas no EUA, onde mais de 300 cientistas já assinaram pela causa.


Alimentar o mundo é uma preocupação óbvia, mas tudo que se sabe é que simplesmente aumentar a produção não vai acabar com a fome. Num planeta que já produz uma vez e meia a mais de alimentos necessários para alimentar a população, mas que desperdiça um terço disso tudo, a agroecologia é essencial.


A cadeia alimentar atual está quebrada, não funciona. É a maneira como a comida é produzida que faz a diferença. Globalmente, a agricultura familiar produz 70% da comida do mundo em 25% das terras cultiváveis. No entanto, essas pessoas são justamente as mais pobres. A chave para acabar com a fome global não é produzir comida para pessoas famintas (que não têm ao menos dinheiro para pagar pelo alimento), mas permitir que essas pessoas plantem seus próprios alimentos.


Pequenos agricultores precisam de terras maiores, mais acesso ao conhecimento, água, infraestrutura básica, sistema educacional e de saúde - não agrotóxicos ou transgênicos, dispostos pelo mercado global. E a agroecologia vai mantê-los trabalhando na terra pois ela promove a biodiversidade e enriquece os recursos locais.


Que os investimentos mudem de direção e a agroecologia seja o novo pivô do combate a fome mundial em 2015.