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Por Lucía Villa
Do Público


Na madrugada de 02 para 03 de dezembro de 1984, um vazamento de gás na fábrica de pesticidas da Union Carbide na região de Bhopal, na Índia, provocou um dos mais graves desastres humanitários e ambientais da história. Vinte e quatro toneladas de isocianato de metilo (MIC), um composto altamente tóxico e mortal, arrasaram qualquer resquício de vida e recursos em vários quilômetros do entorno. Calcula-se que entre 22.000 e 25.000 pessoas morreram em consequência do vazamento químico e que mais de 57.000 se viram expostas a níveis nocivos deste composto, que causou malformação e sequelas que, em alguns casos, passaram de geração para geração.


Trinta anos depois, a empresa estadunidense proprietária daquela fábrica, a Union Carbide Corporation, esquivou-se de responder na Justiça indiana enquanto milhares de pessoas continuam bebendo a água contaminada ou sofrendo “doenças ginecológicas” e “infertilidade”, segundo denunciam os grupos de atingidos e ativistas.


“Minha filha não conseguia engravidar depois de quatro anos de casamento. Os médicos lhe disseram claramente que se bebeu dessa água tóxica já não terá chances de engravidar”, disse Shahzadi Bi, uma mulher de 60 anos, sobrevivente da catástrofe. Seu testemunho foi recolhido, junto com o de outros atingidos, pela organização Anistia Internacional em um relatório organizado por ocasião destas três décadas de impunidade.


“A paciência das pessoas esgotou-se. Continuam recordando aqueles acontecimentos. Continuam chorando e lamentando-se pelos familiares que morreram naquele dia. Sentem que, ao menos agora, o nosso governo e a companhia deveriam ouvir-nos e tomar medidas cabíveis, porque 30 anos é muito tempo”, acrescenta Safreen Khan, de 20 anos e filho de sobreviventes.


Impunidade


A situação das vítimas de Bhopal é o resultado de um labirinto de 30 anos de resoluções judiciais, operações comerciais, o não comparecimento à Justiça e conivência política que até agora beneficiou somente a companhia norte-americana, hoje nas mãos da segunda maior empresa química do mundo, a Dow Chemical Company, que comprou a Union Carbide em 2001 e que nega qualquer responsabilidade. Além disso, nega-se a pagar os custos da limpeza na zona.


Em um acordo extrajudicial em 1989, o Governo indiano aceitou receber da Union Carbide uma compensação no valor de 470 milhões de dólares, tão somente 14% do que pediam as autoridades do país asiático no início das negociações. Em todo o caso, com essa soma só foi possível distribuir cerca de 1.000 dólares para cada pessoa atingida.


Posteriormente, em uma sentença de 2010, sete empregados da companhia foram condenados a dois anos de prisão que evitaram graças ao pagamento de fiança. Warren Anderson, na época diretor da Union Carbide, viajou para a Índia dias depois da catástrofe e foi preso, mas ao ser posto em liberdade até a realização do julgamento fugiu da Índia para onde nunca mais retornou para responder diante dos tribunais pelo homicídio. Embora fosse considerado fugitivo da Justiça naquele país, morreu em setembro passado aos 92 anos em uma tranquila residência de idosos na Flórida.


“Os Estados Unidos jamais tolerariam que uma empresa de propriedade estrangeira fugisse da prestação de contas pelos estragos causados em seu território; no entanto, não parecem preocupar-se tanto quando corresponde a outros países”, disse Salil Shetty, secretário-geral da Anistia Internacional, em visita a Bhopal.


Agora, o Governo indiano aceitou fazer uma revisão das condições do acordo de 1989 para solicitar indenizações maiores e reavaliar o número e a gravidade dos atingidos, mas parece difícil que a empresa química responda. Nas duas vistas judiciais realizadas em Bhopal nos últimos seis meses a Dow Chemical não compareceu.


Não obstante, a pressão da opinião pública sobre ela e sobre a falta de ação do Governo dos Estados Unidos neste aspecto, é forte. De acordo com uma pesquisa realizada pelo YouGov para a Anistia Internacional, 82% dos cidadãos indianos entrevistados e 62% dos estadunidenses mostraram-se a favor de que a Union Carbide comparecesse aos tribunais indianos para responder pelo crime por homicídio culposo atribuídos à empresa. Além disso, 70% dos pesquisados na Índia e 45% dos entrevistados nos Estados Unidos, acreditam que o Governo estadunidense deve colaborar para que a Dow Chemical preste contas.