Por Maura Silva
Da Página do MST


Avaliação divulgada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), coloca o Brasil entre os 63 países no mundo que conseguiram diminuir a pobreza extrema em seu território. 


O documento é publicado anualmente pela FAO, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA).


Para Milton Fornazieri, do setor de produção nacional do MST, o alcance da meta pelo Brasil se deve a importância da agricultura familiar e camponesa. 


“A agricultura familiar corresponde a 70% do total da comida produzida no país. Os principais produtos que estão na mesa do brasileiro (arroz, feijão, farinha de mandioca e leite) vêm da agricultura familiar. Esses dados significam que o país não precisa do agronegócio para poder garantir comida de qualidade para o seu povo”, diz.


Segundo a FAO, além dos programas sociais do governo como o Fome Zero e o Bolsa Família, políticas públicas referentes à agricultura familiar e camponesa também foram os principais fatores que contribuíram com o resultado positivo.


Isso leva Milton a fazer duras críticas ao agronegócio, que, segundo ele, não traz contribuições sociais ao conjunto da sociedade. “O agronegócio é extremamente maléfico porque retira a possibilidade das famílias de continuarem na terra e produzirem alimentos. Esse é um setor que não se interessa por produzir, quer exportar. O que interessa ao agronegócio são os ganhos, nada além disso”, ressalta.


Com isso, o Sem Terra avalia que “todas as vezes que você tem como finalidade obter lucro em cima da sua atividade econômica, alguém paga por isso e, nesse caso, quem paga é o pobre. Diminuir o poder do agronegócio no campo é a solução para que em torno de 10 ou 15 anos a pobreza no Brasil seja realmente extinta”, salienta.


Nesse sentido, Milton acredita na criação de novos programas de estímulo e distribuição à agricultura camponesa e no fortalecimento e ampliação dos já existentes, como é caso do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).


“A produção de alimentos de qualidade é necessária, mas para ser eficiente precisa de um bom programa de distribuição, senão o trabalho fica pela metade. O Pnae estabelece que 30% da produção da agricultura familiar sejam destinados às escolas. Embora esse ainda seja um percentual baixo, com isso o governo deixa claro que a agricultura familiar é capaz de fornecer uma alimentação saudável para as nossas crianças. Esses são exemplos de programas que estruturam a cadeia de assentamento, cooperativas e estimulam a agricultura familiar e camponesa”, explica. 


Limites


Para Guilherme Costa Delgado, doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o relatório da FAO se baseia no nível de renda monetário das famílias. Como o Brasil vem conseguindo diminuir o número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, é natural que o país suba no ranking da erradicação da fome. 


“Quanto melhor a economia, a manutenção de políticas sociais, aumento do salário mínimo e, consequentemente, aumento de renda, maior será o número de pessoas que deixaram de passar fome”, diz. 


Delgado ressalta que, embora o Brasil tenha alcançado um patamar interessante do ponto de vista internacional, ainda há muito que ser feito. 


“Ainda temos diversos problemas de insegurança alimentar, a fome aguda pode até ter sido reduzida, mas isso não significa que a população esteja se alimentado bem. Milhares de pessoas ainda passam fome no Brasil”, salienta. 


Apesar do país ter alcançado sua meta, os dados ainda são alarmantes. Em todo o mundo cerca de 805 milhões de pessoas ainda sofrem com a insegurança alimentar; 16 milhões só no Brasil. 


“Outro problema tão grave quanto a fome é a obesidade, que hoje assola milhões de pessoas, além do uso excessivo de agrotóxicos, a industrialização dos alimentos. Todos esses são fatores que devem ser considerados quando o assunto é a fome”, observa. 


Segundo os dados divulgados, entre os anos de 2001 e 2012, a pobreza foi reduzida de 24,3% para 8,4% da população (o equivalente a 16 milhões de pessoas). E a extrema pobreza, indicativo atribuído a pessoas que vivem com menos de US$ 1 ao dia, foi reduzida, no mesmo período, de 14% para 3,5% da população brasileira.