Por Fabio Serapião
Da Carta Capital


Após seis meses de apuração sobre quem seriam os donos, qual a capacidade agrícola e a atual utilização do solo de uma ampla faixa de terra localizada entre os municípios de Alexânia e Corumbá de Goiás, o Movimento Sem Terra decidiu, no sábado 30, iniciar o processo de ocupação da área para reforma agrária.


Em pouco tempo, cerca de 3 mil integrantes do MST, provenientes de 22 acampamentos espalhados por Goiás, se puseram na estrada, alguns a pé e outros em carros e ônibus. O destino era a Fazenda Santa Mônica, de propriedade do senador e candidato ao governo do Ceará, Eunício Oliveira. Um dos principais caciques do PMDB, o agora candidato foi deputado federal por três mandatos e ocupou o cargo de ministro das Comunicações, entre 2004 e 2005, no governo Lula.


Divididos em dois grupos, um acostumado com a vivência em acampamentos e ocupações e outro formado por militantes arregimentados nas cidades do entorno de Goiânia e de Anápolis, Pirinópolis e Cocalzinho, os sem-terra chegaram a Corumbá de Goiás na madrugada do domingo e, logo pela manhã, começaram a construir suas tendas ao longo de uma porção de terra situada às margens de uma reserva legal de mata nativa na Santa Mônica, a menos de 1 quilômetro da sede da fazenda.


"Não bastasse ser improdutiva, a terra é fruto de transações pouco claras do senador. Essa é a chance para ele explicar como conseguiu acabar com as pequenas propriedades que existiam aqui e formar esse imenso latifúndio", afirma o coordenador da ocupação José Valdir Misnerovicz. A propriedade soma 20 mil hectares.


Segundo Misnerovicz, a ação de ocupação da fazenda do peemedebista, além de ser um ato a favor da reforma agrária, serve para a Justiça, Receita Federal e demais autoridades mirarem suas lupas para a evolução patrimonial do senador. Oliveira é o candidato a governador mais rico nesta eleição.


De acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral, somente entre 2010 e 2014, sua fortuna saltou de 36 milhões para 99 milhões de reais. Ele tem 91 propriedades rurais em Goiás. Na Santa Mônica, declarada com valor de 386 mil reais, a riqueza do senador está mais do que exposta. Da estrada que atravessa a propriedade, é possível avistar represas, aeroporto particular regularizado pela Agência Nacional de Aviação Civil, várias casas, benfeitorias e pastagens a perder de vista. Todas as entradas são vigiadas por seguranças particulares.


O poder do senador na região é motivo das conversas entre os moradores de Alexânia e Corumbá. No caso da ocupação, antes mesmo da chegada do MST, a Justiça havia expedido um interdito proibitório, instrumento utilizado para barrar a entrada dos sem-terra no local. Como a do juiz. Na quarta-feira 3, em assembleia com todos os acampados na Santa Mônica, Misnerovicz denunciou outra proibição do juiz: a entrada de alimentos, médicos e indivíduos na ocupação.


"Se não fosse o governo federal e o estadual, o doutor Levine iria nos tirar daqui com tiros e violência", afirma o coordenador do MST. Segundo ele, o senador e o juiz são amigos próximos e estiveram mais de uma vez juntos em eventos públicos. Na internet, é possível comprovar ao menos três desses encontros: a inauguração do fórum de Corumbá de Goiás, em 2011, a homenagem prestada pelo Senado à Associação dos Magistrados Brasileiros, em 2013, e a reunião entre representantes da AMB e da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 2012.


Sobre o motivo de escolher justamente as terras do senador, o coordenador do MST explica que a área reúne todos os critérios para a desapropriação estipulados por Dilma Rousseff em recente encontro com trabalhadores rurais. "Aterra é de qualidade, está localizada próxima ao mercado consumidor e tem custo-benefício excelente, pois o Eunício declara um valor de apenas 380 mil reais."


Por meio de sua assessoria, o senador informou que seu patrimônio e rendimentos "são declarados anualmente à Receita Federal e neste ano foi entregue também à Justiça Eleitoral". Embora não tenha respondido às perguntas sobre sua relação com o juiz Gabaglia, o senador informou não ter alterado sua rotina de campanha e que a invasão é tratada exclusivamente do ponto de vista administrativo.


Segundo o administrador da Fazenda Santa Mônica, a área é produtiva e segue as normas trabalhistas, tributárias e ambientais. Sobre ação do MST, diz Ricardo Augusto, é política e com fins eleitorais.


Gabaglia disse conhecer o senador apenas da televisão e do Congresso. "Não tenho maiores relacionamentos." Sobre a Fazenda Santa Mônica, o magistrado garantiu ser ela grande produtora de gado, com áreas de cultivo de soja e tomate. "Não há possibilidade de desapropriação da área. Essa área não pode ser reivindicada pelo MST, só se o governo decidir pela desapropriação." Até o fechamento desta edição, na quinta-feira 4, uma reunião entre o governo goiano e o MST negociava uma saída pacífica. O prazo para a reintegração terminaria às 11 da manhã do dia seguinte.