Da ADISTA 

Na semana passada, o plenário da 52ª Assembleia Geral da CNBB aprovou um documento sobre a visão da Igreja em relação à Questão Agrária Brasileira no século 21, após um processo de construção de cinco anos. 


Trata-se, segundo o presidente da Comissão Pastoral da Terra, dom Enemésio Lazarris, da palavra de mais de 350 bispos à sociedade, ao entenderem a grave situação pela qual passa o campo brasileiro.


Para entender melhor o teor do documento, confira a entrevista realizada por Cláudia Fanti à agência de notícias italiana ADISTA com o monge Benedito Marcelo Barros


A assembleia geral dos bispos católicos do Brasil acaba de aprovar um documento sobre as questões de terra no Brasil, nesse século XXI. Sabemos que esse documento foi muito discutido. O que achou do texto que foi finalmente aprovado? 


Li e gostei do documento. Atualiza documentos anteriores (de 1980 e outros). Mostra claramente que a concentração da propriedade de terra no Brasil só tem aumentado, que isso leva o nosso povo à maior pobreza, à dependência do comercio internacional com o agronegócio, à destruição da natureza, à crise da água e assim por diante.


O documento mostra um apoio claro e profético aos lavradores sem terra, aos índios, aos quilombolas, às comunidades ribeirinhas e de pescadores. Faz apelo aos poderes executivo, legislativo e judiciário para que cumpram a constituição e possam efetivamente garantir uma verdadeira justiça no campo, através de uma ampla e profunda reforma agrária. 


Nessa versão última não saiu explicitamente a menção aos  movimentos sociais do campo, como o MST etc. Isso foi por alguma deliberação dos bispos? 


Não acompanhei as discussões dentro da assembleia da CNBB e lamento que tenha faltado um apoio mais concreto e explícito ao que de melhor temos no Brasil em termos de movimentos sociais. Mas o mais importante é que as mesmas denúncias que o MST faz, as mesmas análises da realidade, os mesmos propósitos de luta estejam presentes e isso aparece no documento ainda que numa linguagem mais episcopal. 


Há algum aspecto sobre o qual você gostaria que o documento avançasse mais? 


Pessoalmente, vejo que o documento é um verdadeiro estudo sobre a questão da terra e toma posição correta sobre a realidade. Mas, me pergunto a quem é mais concretamente dirigido.


Aos ricos e latifundiários para que se convertam? Ao governo para que mude de política e passe a dialogar com os mais oprimidos? A quem o documento é endereçado? Tanto o governo como os grandes proprietários de terra já sabem de tudo aquilo que o documento diz. E não vão mudar nada por causa desse documento. 


E o setor ao qual os bispos poderiam ter falado mais claramente que é o pessoal da própria Igreja, os padres e agentes de pastoral, penso que nem lerão um documento tão grande e de estudo. E ao vê-lo dirão: Não é para nós. E continuarão a fazer sua pastoral só para dentro e autoreferencial... Isso é pena. Nem os bispos que assinaram, quantos chegarão em suas dioceses e começarão a entrar em contato com as organizações que trabalham nessa questão da terra? Não sei, mas torço para que seja melhor utilizado. 


E o governo Dilma não se sentirá pressionado pela palavra dos bispos? 


Em outras épocas, a palavra dos bispos católicos tinha maior poder de pressão. Atualmente, não me parece. Desde o governo Lula, os bispos têm se pronunciado contra projetos milionários como a transposição do São Francisco e a Usina Belo Monte que destrói parte da região amazônica e tira de suas terras várias comunidades indígenas e isso não mudou nada.


Os projetos faraônicos se fazem da mesma maneira. Não vejo na presidente Dilma nenhuma sensibilidade ou preocupação em de fato retomar a reforma agraria e resolver as questoes sociais do campo, com os sem-terra, povos indigenas, quilombolas. O seu diálogo prioritario é com o agronegócio e sua preocupação única é eleitoral: ganhar a reeleição e para isso se tornou refém de partidos conservadores como o PMDB, PP, que são partidos dos latifundiários e do agronegócio. 


Alguma outra consideração? 


No Brasil, outras Igrejas cristãs (a luterana, a anglicana e a presbiteriana unida) têm trabalhos com lavradores e índios. Em outros momentos, os bispos se juntaram aos pastores e deram declarações que eram assinadas por pastores de várias Igrejas e isso teve mais força e era um bom testemunho junto a lavradores e índios que são membros de várias Igrejas ou de nenhuma.


Lamento que nesse documento não haja nenhuma referência ao trabalho de outras Igrejas e que não se tenha buscado esse apoio ecumênico. Mas, dito isso, agradeço a Deus esse documento e fico feliz que os bispos católicos do Brasil o tenham aprovado.