Do Sindquim

O Sindicato dos Químicos do ABC realizou nesta segunda-feira (12) um debate  para analisar o uso de agrotóxicos no Brasil e suas conseqüências para o modelo agrícola brasileiro, afetando os trabalhadores do campo, os consumidores e o meio-ambiente.


Gabriel Sollero, engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP) e membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, foi quem coordenou o encontro. 


Na abertura do debate, Paulo Lage, presidente do Sindicato, lembrou que “os Químicos do ABC tem histórica e pioneira atuação de luta pela melhoria das condições de trabalho na indústria química. Fizemos em agosto de 1984 a primeira greve no Brasil por melhores condições de trabalho, na empresa Ferro Enamel, por conta da contaminação com chumbo. Desde esse movimento vitorioso, dezenas de outras lutas se seguiram e essa campanha contra os agrotóxicos faz parte desta trajetória”.


Nesse sentido, no XI Congresso da categoria, realizado em março de 2013, e que teve por tema o desenvolvimento sustentável, as delegadas e os delegados aprovaram moção em que manifestaram total apoio à Federação dos Trabalhadores do Ramo Químico da CUT no Estado de São Paulo (FETQUIM) em sua decisão de participar da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida. 


Diz a moção: “Mais uma vez, a FETQUIM oferece à sociedade e ao Movimento Sindical em particular, exemplo de ousadia e compromisso efetivo com o desenvolvimento sustentável, baseado em condições saudáveis de trabalho e alimentação”.


1/4 dos agrotóxicos do mundo


Em sua apresentação, Sollero informou que o Brasil é o campeão mundial na utilização de agrotóxicos no cultivo de alimentos. Cerca de 20% dos pesticidas fabricados no mundo são despejados anualmente em nosso país. São cerca de 853 milhões de litros ao ano: 4,5 litros por brasileiro.


Segundo Sollero, “não detemos apenas o recorde quantitativo, mas vivemos o drama de autorizarmos o uso das substâncias mais perigosas, já proibidas na maior parte do mundo por causarem danos sociais, econômicos e ambientais”.


Apenas seis empresas concentram 75% do mercado mundial produtor de agrotóxicos. Todas são transnacionais: Syngenta (com matriz na Suíça); Bayer e Basf (Alemanha); Monsanto, Dow e Dupont (Estados Unidos). 


Para Sollero, “o enorme poder destas transnacionais permite que o setor consiga garantir a autorização desses produtos danosos nos países menos desenvolvidos, mesmo que já tenham sido proibidos em seus países de origem. Isso é facilitado no Brasil pela existência da poderosa bancada ruralista no Congresso Nacional”.


Para o agrônomo, “é falsa a idéia de que a produção de alimentos baseada no uso de agrotóxicos é mais barata. Ao contrário, os custos sociais e ambientais são incalculáveis. Somente em tratamentos de saúde há estimativas de que, para cada Real gasto com aquisição de pesticidas, o poder público terá que gastar R$ 1,28 para os cuidados médicos necessários”. Além disso, “está comprovado, em várias regiões do mundo, que não há estabilidade no uso de pesticidas, pois geram pragas cada vez mais resistentes, forçando ao uso de produtos cada vez mais tóxicos”.


Sollero explicou que o modelo do agronegócio, baseado em grandes propriedades e utilização de agrotóxicos, não resolveu e nem irá resolver a questão da fome mundial. “Esse sistema se perpetua com a expansão das fronteiras de cultivo, já que ignora a importância essencial da biodiversidade para o equilíbrio do solo e do clima, fazendo com que as áreas utilizadas se degradem ao longo do tempo. Ele cresce enquanto há novas áreas a serem incorporadas, aumentando a destruição ambiental e o êxodo rural. Não há meio termo nesse setor. É impossível garantir a qualidade, a segurança e o volume da produção de alimentos dentro desse modelo degradante”.


Campanha


E foi justamente para fomentar esse debate e exigir medidas concretas por parte do poder público que foi criada, em abril de 2011, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Dela participam cerca de 50 organizações sociais, como a Via Campesina, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) e a já mencionada FETQUIM.


A campanha visa à conquista da verdadeira soberania alimentar, para que o Brasil deixe de ser um mero exportador de commodities (com geração de grandes lucros para uma minoria e imensos danos à população), para se tornar um território em que a produção de alimentos seja realizada com dignidade social de forma saudável.


A campanha propõe duas ações prioritárias:


- Proibição de pulverização aérea de agrotóxicos (15% da área agrícola no Brasil e 30% do volume de agrotóxico utilizado é por meio de pulverização aérea, sobretudo nas monoculturas de soja, algodão e arroz). Cerca de 32% dos agrotóxicos ficam de fato retidos nas plantas. O resto vai para o solo e se espalha pelo vento, afetando a comunidade do entorno de plantações.


- Banimento no Brasil dos agrotóxicos já banidos em dezenas de países do mundo. Entre estes, estão os seguintes princípios ativos: Tricolfon, Abamectina, Acefato, Carbofuran, Forato, Fosmete, Lactofen, Parationa Metílica e Thiram. É fundamental a categoria química estar atenta em relação a estes produtos químicos.


Para Sollero, é preciso buscar solução na transição agroecológica, ou seja, “na gradual e crescente mudança do sistema atual para um novo modelo baseado no cultivo orgânico, mantendo o equilíbrio do solo e a biodiversidade, e redistribuindo a terra em propriedades menores. Isso facilita a rotatividade e o consórcio de culturas, o combate natural às pragas e o resgate das relações entre os seres humanos e a natureza, valorizando o clima e as espécies locais. Existem muitas experiências bem-sucedidas, em nosso país e em todo o mundo, que comprovam a viabilidade desse novo modelo. Até em assentamentos da reforma agrária há exemplos de como promover a qualidade de vida, a justiça social e o desenvolvimento sustentável”.