Por José Coutinho Júnior
Da Página do MST


“O MST sempre marchou para conquistar seus objetivos. Hoje, em memória dos nossos companheiros mortos no massacre de Eldorado dos Carajás e de todos os outros mortos na luta pela terra, marchamos novamente”.


Após esse discurso, mais de 1000 Sem Terra vindos de diversas regiões de São Paulo ergueram suas bandeiras e começaram a caminhar. A marcha, que ocorreu nesta quinta-feira (8) na zona oeste de São Paulo, foi parte da Jornada de Lutas do MST, na qual o Movimento realiza ações por todo o país para exigir o cumprimento da Reforma Agrária e denunciar a violência no campo. 


A marcha do MST em São Paulo teve início na terça-feira (6) em Itapevi, e terminou na capital paulista.  Além de debater a Reforma Agrária, o MST estava presente também para questionar os problemas vividos na cidade.
 

“Estamos aqui em solidariedade às lutas dos trabalhadores urbanos por moradia e melhores condições de vida na cidade. A luta dos trabalhadores hoje, no campo e na cidade, implica em combater esse modelo econômico que só privilegia as grandes empresas, principalmente as internacionais”, afirma Delwek Matheus, da coordenação nacional do MST.
 

Para tornar essa união real, o MST se uniu ao MTST, que realizava pela manhã diversas mobilizações pela cidade. Os dois movimentos se encontraram próximos à estação de metrô Butantã, e caminharam juntos pela Avenida Vital Brasil até a sede da empreiteira Odebrecht.


Chegando lá, cerca de 200 trabalhadores ocuparam a sede, erguendo faixas, bandeiras e gritando palavras de ordem contra a empresa. Do lado de fora, colava-se cartazes com a foto de Marcelo Odebrecht, presidente da empreiteira, denunciando que a Odebrecht “ganha bilhões em cima do sangue de operários e do dinheiro de todos nós”; tinta vermelha foi jogada nos vidros do prédio, para lembrar as mortes causadas pela empreiteira.


No campo brasileiro, a Odebrecht atua no agronegócio. Uma das áreas de investimento da empresa é o setor sucroalcooleiro, depois de ter comprado a Usina Alcídia, em Teodoro Sampaio, na região do Pontal do Paranapanema (SP).
 

Em São Paulo, a empreiteira é responsável, entre outras obras, pela construção da Arena Corinthians, em Itaquera, estádio que sediará a abertura da Copa do Mundo. Em 2013, de acordo com balanço financeiro da Odebrecht, o grupo faturou mais de R$ 100 bilhões.


“Esse ato hoje ocorre porque o povo não aguenta mais as empreiteiras mamando na teta do estado, não aguentam mais elas financiando campanhas eleitorais, mandando e desmandando nos governos. As empreiteiras foram as maiores vitoriosas da Copa do Mundo. São aqueles que ganharam mais dinheiro público nesses útlimos anos. Por isso o ato vem no sentido de dar um basta para elas”, afirma Guilherme Bouros, dirigente do MTST.


Copa sem povo, tô na rua de novo


O dia começou cedo para os trabalhadores Sem Teto. Divididos em três frentes pela cidade, eles marcharam até a sede de grandes empreiteiras para exigir a construção de moradias populares, melhores condições de vida para os trabalhadores, o cumprimento da Reforma Agrária e questionar os lucros que estas empresas vem obtendo com a Copa do Mundo. 900 Sem Teto ocuparam a construtora OAS, 700 a empreiteira Andrade Gutierres e 500 se uniram ao MST na ocupação da Odebrecht.


O MTST tem se mobilizado constantemente na cidade, realizando ocupações de terrenos ociosos para a construção de moradias populares. A ocupação Nova Palestina, iniciada em 29 de novembro do ano passado em uma área de 1 milhão de metros quadrados na região do M’Boi Mirim, conta com mais de 8 mil militantes.


O problema da moradia em São Paulo é crítico. De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação, São Paulo tem hoje cerca de 890 mil famílias que vivem de maneira precária, em favelas, loteamentos irregulares, núcleos urbanizados, cortiços ou conjuntos habitacionais irregulares. 


A especulação imobiliária aprofunda a situação, expulsando as pessoas mais pobres para as periferias da cidade, enquanto áreas que poderiam ser destinadas à criação de moradias estão desertas.


O MTST também tem se somado a outras lutas da cidade, como as mobilizações pelo Passe Livre e critica intensamente os gastos públicos com a Copa do Mundo. E de acordo com Guilherme Boulos, essas ações vão se intensificar ainda mais. 


“Hoje também é um dia importante para nós: é a abertura da campanha  ‘Copa Sem Povo, Tô na Rua de Novo’. Vamos fazer atos semanais daqui até a abertura da Copa, buscando sensibilizar os governos para a pauta dos trabalhadores. Não estamos simplesmente dizendo não à Copa, e sim que, já que vai ter Copa, que também tenha um investimento e um legado efetivo de direitos sociais para os trabalhadores, o que até agora não se viu”.


O governo brasileiro já gastou R$30 bilhões com as obras da Copa, quantia que segundo o MTST poderia construir 1 bilhão de moradias populares para os trabalhadores por todo o país. Mas não é só a moradia que é reivindicada pelo Movimento. 


“Nós montamos o que chamamos de hexa de direitos, que são seis pontos que dizem respeito aos à vida na cidade e aos direitos dos trabalhadores. São questões relacionadas a moradia, saúde, educação, a criminalização dos movimentos sociais, presente na violência e aprovação de leis antipopulares, o transporte e a Lei Geral da Copa, que estabelece quase um estado de exceção no período da Copa, garantindo privilégios inaceitáveis para a FIFA, que ferem a soberania do país”.


União entre campo e cidade


O ato foi simbólico pela união entre os movimentos urbanos e camponeses em torno de pautas comuns. 


Delwek Matheus, do MST, acredita que essa aliança é importante pois “a Reforma Agrária é uma luta de toda a sociedade. Ela beneficia os trabalhadores do campo, mas também os da cidade. Ele também afirma que a luta pela terra no campo e a luta por moradia na cidade são similares.


“Trata-se da disputa de territórios, tanto no campo como na cidade. Há uma apropriação do território brasileiro, por parte das grandes empresas capitalistas, seja no campo ou na cidade.  A luta dos trabalhadores hoje, no campo e na cidade, implica em combater esse modelo econômico que só privilegia as grandes empresas, principalmente as internacionais”.


Guilherme Boulos concorda. “Essa união é decisiva. Nós temos a avaliação de que o poder das empreiteiras é um poder campo-cidade. O que a Odebrecht faz nos estádios, nas grandes obras da cidade, ela faz no campo. Nos canaviais, usinas, nas barragens de hidrelétricas, não só ela como as outras grandes empreiteiras. E nós temos a avaliação de que a luta só avança quando se unirem os trabalhadores do campo com a cidade”. 


Lutar, sempre 


Ser assentado e conseguir um local onde morar são grandes objetivos dos militantes dos movimentos sociais. Mas a luta termina depois disso? Se depender de seu Sebastião, do MTST, e de Michele, do MST, a luta só começa.


Seu Sebastião tem 57 anos e entrou no MTST aos 50. Ele morava em uma casa em Itapecirica da Serra, e seu aluguel estava atrasado, pois seu salário de pedreiro não era suficiente para cobrir os gastos. 


“Aí eu tava atrevessando a rua e uma mulher disse pra mim que ‘lá tem uma invasão’. Decidi ir, mas achei que ia dar pau e polícia. Não aconteceu nada disso, fui e não saí mais. Vi que era uma forma de conseguir uma casa. Se você vai na Caixa, se endivida até no sono, então você não vai comprar sua casa. Aqui na luta a gente consegue”.


Desde então, Sebastião participa das mobilizações do MTST, e, neste ano, vai obter sua moradia própria. “Essas coisas demoram mesmo. A obra pra começar tem a aprovação de terreno, da planta, terraplanagem, tem que medir tudo, mas agora já tá resolvido.


Quando questionado se vai continuar no movimento, afirma que sim. “Aí é que eu vou lutar. Aqui conheço todo mundo, brinco com todo mundo”.


Michele, hoje com 30 anos, entrou em 2005 para o MST. “Trabalhava como cortadora de eucalipto em uma fazenda no Vale do Parnaíba. O MST ocupou a área e perguntaram se eu queria ficar lá para obter um pedaço de terra. Aceitei, e hoje a ocupação se tornou o assentamento Olga Benário, onde estou assentada. 


Michele ganhava de R$300 a R$400 por mês para realizar tarefas pesadas, como o corte do eucalipto, manuseio de trator e motossera, das sete da manhã às cinco da tarde. Ela afirma que a vida de assentada é muito melhor.


“Não tem comparação. Depois que fui assentada, tenho minha casa, coisa que nunca ia conquistar com meu salário, hoje em dia tenho minha casa, recebi metade dos prédios para fazer ampliação na casa, meus filhos estudam, e o transporte passa na porta de casa para pegá-los, graças à mobilização do movimento, antes a gente andava 3, 4 quilômetros. É um avanço muito grande na minha vida”.


No seu lote de cinco hectares, ela planta feijão, arroz, mandioca e laranja, para a subsistência e para vender. Ela também começou a implantar uma agrofloresta no seu terreno. 


Apesar de assentada, Michele continua lutando. Participou da marcha de Campinas a São Paulo, em 2009 e do VI Congresso do MST. “A luta não pára enquanto existir um Sem Terra”.