Por Luiz Felipe Albuquerque
Da Página do MST


No começo da tarde desta quarta-feira (7), os cerca de 1000 Sem Terra que saíram em marcha da cidade de Itapevi na manhã desta terça-feira (6), chegaram a seu destino final: a cidade de São Paulo.

A Marcha pela Reforma Agrária Luiz Beltrame busca pressionar os governos federal e estadual a agilizarem as políticas referentes à Reforma Agrária, além de dialogar com a população das cidades sobre a importância da luta dos Sem Terra e fazer a denúncia do modelo do agronegócio.


“A classe trabalhadora da cidade precisa saber a importância que a luta dos camponeses tem nas suas vidas. Apenas com o nosso modelo de agricultura é possível produzir alimentos de qualidade, sem agrotóxicos, e que respeite o meio ambiente”, disse Neusa Paviato, da direção estadual do MST.


Neuza lembra estudos do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) que apontam os números crescentes de casos de câncer no Brasil nos últimos anos. 


Segundo o Inca, no próximo período aparecerão cerca de 400 mil novos casos de câncer por ano, e muito disso se deve ao enorme uso de agrotóxicos na agricultura, apontava a Abrasco. Desde 2009, o Brasil é o maior consumidor de venenos agrícolas do mudo.

“Além disso, o inchaço dos grandes centros urbanos e os atuais problemas ambientais que passamos também é culpa desse modelo agrícola, que expulsa os trabalhadores do campo levando-os às cidades e não respeita a biodiversidade, ao derrubarem toda a mata para plantarem as monoculturas de commoditties”, concluiu. 


A acampada Edna Aparecida da Silva Menos, de 27 anos, diz que a marcha é “uma forma de demonstrar a população o que queremos, terra para produzir e trabalhar, e como queremos, uma produção agroecológica com alimentos de qualidade pra todo mundo”.


Filha de assentados e há três anos acampada no acampamento Santa Maria da Conquista, no município de Itapetininga, Edna também acredita que essa é uma maneira de “mostrar que estamos fortalecidos”.


“O que mais faz que a gente fique na luta é a esperança de conquistar uma terra, que só isso já abrange todas as outras coisas de que a gente precisa”, coloca.   


Os Sem Terra estão alojados no Cuble Escola Esportivo no Butantã, e seguem mobilizados na capital paulista até a próxima sexta-feira (9). 


Identidade Sem Terra


Na luta desde 1996, Leopoldo Noberto da Silva é assentado há 15 anos no assentamento Carlos Lamarca, em Itapetininga.


Para ele, a marcha já trouxe alguns resultados, ao citar como exemplo a negociação com a prefeitura de Jandira sobre as obras de infraestrutura da Comuna Urbana, e a promessa da Justiça Federal de Sorocaba de bloquear o processo de reintegração de posse do Acampamento Santa Maria da Conquista e acelerar a desapropriação da área.


“As conquistas que a gente teve só vieram por causa da luta. Se não se faz a luta, não se tem conquistas”, observa.


Parte da comida que está sendo utilizado na marcha vem de seu assentamento. As 47 famílias do Carlos Lamarca produzem mais de 1000 litros de leite por dia, além de hortaliças para a merenda escolar das crianças do município. “Tudo por meio da produção orgânica”, conta Leopoldo orgulhoso.


Apesar de ser assentado há 15 anos, diz que sempre esteve na luta. “Enquanto tiver uma pessoa em baixo da lona estarei presente. Minha identidade é Sem Terra”, afirma.


Num cenário oposto, está Francisco Odinei Ferreira Lima. Acampado desde 2002, há seis anos Francisco vive junto à sua mulher, seus três filhos e uma neta, no Acampamento Rosa Luxemburgo, no município de Agudos.  


Quando chegou na Fazenda Agrocentro, em 2008, a área tinha acabado de ser desapropriada. Em tese, era para terem sido assentados em 90 dias. Porém, o processo ficou parado no poder judiciário nos anos seguintes, até a tão esperada emissão de posse sair no último mês de março.


“Trabalhei 11 anos da minha vida nas usinas de cana e outros três nas plantações de laranja. Cansei dos absurdos, da exploração e fui à luta. Agora conquistada a área, vamos fazer do assentamento um grande centro de produção”.


Na área, serão assentadas 67 famílias nos 1500 hecatres