Da Página do MST

Homenagem aos  mártires de Carajás, nossos 21 trabalhadores rurais brutalmente assassinados pela Policia Militar do Pará,  quando era  Presidente Fernando Henrique Cardoso e governava o estado do Para, o senhor ALMIR GABRIEL (PSDB), agora falecido.


Não podemos esquecer que as dezenas de soldados e oficiais saíram de seus quartéis de Paraupebas e Marabá, armados de fuzis com munições reais e sem identificação nas fardas, prenunciando o massacre.


Cercaram os caminhantes e impediram a continuidade da marcha que o MST estava fazendo até Belém. Todos eles foram todos absolvidos. Alguns morreram assassinados pela violência social. Outros devem estar remoendo o remorso até hoje.


Não podemos esquecer que comandaram a tropa o Coronel Mário Pantoja e o Major José de Oliveira.  Ambos foram condenados a 228 anos de prisão cada. Porém, estão recolhidos a apartamentos privativos de oficiais em algum quartel de Belém.


Não podemos esquecer que consta nos autos processuais, denunciada pelos advogados da Policia Militar, de que a operação militar foi custeada com recursos da mineradora Vale do Rio Doce, que não queria ter marchantes atrapalhando a passagem dos seus lucros.


Não podemos esquecer que há entre as vítimas 69 feridos com seqüelas, a maioria impossibilitados para o trabalho agrícola. As viúvas foram indenizadas pela Assembleia Legislativa do Pará e recebem um salário mínimo mensal.


As centenas de famílias que resistiram e sobreviveram estão finalmente assentadas, na área que reivindicavam desapropriação.  Um latifúndio improdutivo de 50 mil hectares, que o então Presidente do Incra, Francisco Graziano, considerava antes produtiva. Agora, se transformou no assentamento 17 de abril. Sua agrovila, progressista, se transformou em distrito do município de Eldorado de Carajás. Além de viverem muito bem, e só a produção de leite atingem mais de 30 mil litros diários para abastecer a população da região. Há até uma biblioteca com o nome José Saramago, em agradecimento ao seu depoimento solidário.


Por isso as dezenas de organizações campesinas de todo mundo, da Via Campesina Internacional, reunidas na 2° Conferencia Mundial em abril de 1996, no México, instituíram o dia 17 de abril como o Dia Mundial de Luta Camponesa.


A sociedade brasileira reagiu indignada. O MST fez entre março e abril de 1997 uma longa marcha de 1500 km até Brasília, para exigir justiça. A cidade parou e fomos recebidos por milhares de trabalhadores.


Envergonhado por sua responsabilidade indireta, em novembro de 2002, o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou o projeto de iniciativa da então senadora Marina Silva, que decretou 17 de abril como o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.


Queremos denunciar e lembrar os fatos, através da poesia de Pedro Tierra, escrita em homenagem aos mártires, logo após o ocorrido.

 

A Pedagogia dos Aços


Candelária,

Carandirú,

Corumbiara,

Eldorado dos Carajas ...


A pedagogia do aços

golpeia no corpo

essa atroz geografia ...


Há cem anos

Canudos,

Contestado

Caldeirão ...


A pedagogia dos aços

golpeia no corpo

essa atroz geografia ...


Há uma nação de homens

excluídos da nação.

Há uma nação de homens

excluídos da vida.

Há uma nação de homens

calados,

excluídos de toda palavra.

Há uma nação de homens

combatendo depois das cercas.

Há uma nação de homens

sem rosto,

soterrado na lama,

sem nome

soterrado pelo silêncio.


Eles rondam o arame

das cercas

alumiados pela fogueira

dos acampamentos.


Eles rondam o muro das leis

e ataram no peito

uma bomba que pulsa:

o sonho da terra livre.


O sonho vale uma vida?

Não sei. Mas aprendi

da escassa vida que gastei:

a morte não sonha.


A vida vale tão pouco

do lado de fora da cerca ...


A terra vale um sonho?

A terra vale infinitas

reservas de crueldade,

do lado de dentro da cerca.


Hoje, o silêncio

pesa como os olhos de uma criança

depois da fuzilaria.


Candelária,

Carandirú,

Corumbiara,

Eldorado dos Carajás não cabem

na frágil vasilha das palavras ..


Se calarmos,

as pedras gritarão ...

 

Brasília,

25/04/96