Por José Coutinho Júnior
Da Página do MST

Durante o mês de abril, as cerca de 50 universidades nas quais o MST tem parcerias irão realizar a Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária, com debates, exibições de teatro, filmes, visitas a assentamentos e feiras da Reforma Agrária em apoio à luta no campo.


As atividades serão paralelas às mobilizações da jornada de lutas do MST, realizadas todo mês de abril por todo o país. 


O MST tem mais de 3 mil militantes presentes nas universidades. Mais de 5 mil já se formaram em cursos universitários e de especialização, e mil professores realizam trabalhos próximo ao Movimento.


Segundo Cristina Bezerra, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenadora do curso de Especialização em Estudos Latino Americanos - uma parceria entre o MST, a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) e a Faculdade de Serviço Social da universidade -, a jornada surge para “incentivar dentro do espaço acadêmico esse compromisso da universidade com a questão agrária”. 


Para ela, é importante “dar visibilidade às ações que as universidades desenvolvem pela Reforma Agrária e ampliar o debate, para que novas ações sejam abraçadas pelas universidades e professores”.


Em entrevista à Página do MST, Cristina fala sobre a jornada universitária e discute a importância do movimento social estar presente no espaço universitário. Confira:


Como surgiu a jornada?


A ideia de fazer a jornada em defesa da Reforma Agrária surgiu no segundo encontro dos professores universitários que trabalham com o Movimento, em 2013. 


Foi sugerido que em abril fizéssemos em todas as universidades do Brasil, que tem um trabalho com o Movimento, lutas por Reforma Agrária, já que o espaço acadêmico é muito elitista, voltado para questões de interesses das classes dominantes.


Precisávamos incentivar dentro do espaço acadêmico esse compromisso da universidade com a questão agrária. Dar visibilidade às ações que as universidades desenvolvem pela Reforma Agrária e ampliar o debate para que novas ações sejam abraçadas pelas universidades e professores. 


Que cursos os militantes do MST participam nas universidades?


Temos cursos de extensão, graduação, especialização lato e stricto senso de mestrado. Muitos projetos de extensão, que são desenvolvidos em áreas de Reforma Agrária, na área de agroecologia, em defesa das mulheres, além de várias pesquisas sobre a questão agrária e a luta pela Reforma Agrária. 


A universidade é um espaço muito rico nesse sentido. Temos muita potencialidade para colocar esse debate da questão agrária e construir ações que viabilizem o acesso da população do campo ao conhecimento, e permitir a troca de saberes que eles têm para trazer para dentro da universidade. Precisamos travar a batalha de ideias dentro do espaço acadêmico.


Qual a importância do movimento social estar no espaço da universidade?


De uma forma geral, os movimentos sociais, principalmente os do campo, colocam uma pauta socialmente referenciada para a sociedade. 


Eles têm a potencialidade de fazer com que os muros da universidade se voltem mais para as demandas socialmente referenciadas, necessárias para a população, para o crescimento do país, que legitimem o sentimento de justiça, de encaminhamentos mais voltados para a população, não só para os setores dominantes.


O agronegócio tem financiado inúmeras pesquisas dentro da universidade. Por que os movimentos sociais não podem pautar uma pesquisa para a agricultura familiar, para a Reforma Agrária, o acesso a terra, políticas de educação e saúde no campo?


É uma presença extremamente necessária. É uma luta no sentido de questionar política e socialmente o papel da universidade na sociedade: que tipo de conhecimento ela produz e com que sentido?


É questionar os vícios acadêmicos e os elitismos que a universidade reproduz desde seu surgimento no Brasil.


Que tipo de ações serão realizadas na jornada?


Vamos ter eventos para discutir a pauta da Reforma Agrária, principalmente o desafio que o MST coloca com a Reforma Agrária Popular; visitas de campo, levando alunos da universidade para áreas de assentamentos e acampamentos para conhecer a realidade; feiras de produtos da Reforma Agrária; grupos culturais, exibições de filmes para discutir o uso de agrotóxicos, que na cidade é uma pauta muito importante. 


Como a comunidade universitária enxerga a presença dos movimentos sociais na universidade? 


Aqui em Juiz de Fora, temos uma parceria de 15 anos, que já se consolidou. Hoje enfrentamos uma situação melhor em termos de receptividade. Mas mesmo assim, e em outras universidades também, existe um estranhamento em torno da presença dos movimentos sociais na universidade. 


Muito desse estranhamento se dá porque a universidade não foi preparada para isso, não foi pensada para atender aos interesses das camadas populares da sociedade. 


Os alunos “regulares” por assim dizer, muitas vezes acham que “aqui não é o lugar deles, não era para estar acontecendo isso, a universidade não é para formar militantes”.


Mas o que percebemos é que na medida em que essas parcerias vão se consolidando, quem mais conseguimos conquistar é o seguimento dos estudantes. Professores e técnicos tem uma resistência maior, por conta do academicismo.


Muitos estudantes se identificam, pois deixaram suas famílias no campo para vir à cidade estudar. Com isso, temos uma capacidade de chegar até eles, apresentar as propostas do movimento com mais tranqüilidade e acabar com essa resistência.


Qual a importância para a universidade em absorver o saber dos camponeses?


É fundamental. Temos experiências da agroecologia onde os saberes originários colocam várias questões que o saber acadêmico foi esquecendo. Plantas medicinais, técnicas alternativas de tratamento do solo. Nessas áreas a presença do movimento tem contribuído muito para universidade no sentido de questionar sua matriz de conhecimento.


Como se dá a relação do militante e do movimento social com a teoria e a prática?


Para os movimentos, a presença dos militantes na universidade é uma forma de se fortalecer no plano teórico, no preparo das questões que enfrentamos na realidade. 


Teoria e prática não são contrárias; pelo contrário, as duas precisam se alimentar continuamente das questões que estão vivas na sociedade. 


A presença é importante, porque potencializa as lutas políticas, faz com que a leitura da realidade onde os militantes atuam seja fundamentada teoricamente.


Essa presença também ajuda a criar alianças urbanas. Há várias expectativas que esses movimentos criam em relação à universidade. O acesso ao saber também é uma luta que merece ser feita e dá grandes resultados.