Por Iris Pacheco
Da Página do MST 

 

É sabido que antes mesmo da organização do MST, a força das mulheres Sem Terra nas lutas da classe trabalhadora sempre acompanhou o processo de organização. Sua memória carrega um passado não tão distante, mas fundamental para aquelas que lutam pela terra, dignidade e sobrevivência. 
 

Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas na Paraíba, hoje com 89 anos, começou a participar das Ligas Camponesas ativamente depois que seu marido foi brutalmente assassinado em 1962, a tiros de fuzil em uma emboscada preparada por pistoleiros, numa estrada que ligava João Pessoa, Sapé, e Café do Vento. Foram três tiros pelas costas. 
 

Filha de fazendeiro, proprietário e comerciante na região de Sapé na Paraíba, Elizabeth frequentou a escola, mas não terminou o primário. Aprendeu bem a ler, escrever e dominar as quatro operações de matemática, mas não continuou os estudos porque o pai a proibiu. Saiu da escola para trabalhar na mercearia, onde o pai lhe confiou a função de fazer as contas das mercadorias vendidas.
 

Foi aí que conheceu João Pedro, porém o casamento dos dois não foi aceito. “Meu pai não aceitou porque João Pedro era negro e operário pobre”, relembra Elizabeth em uma entrevista à CPT Nordeste.
 

Mesmo assim Elizabeth se casou com ele. Moraram cinco anos em Recife e trabalharam numa pedreira. Depois foram morar num sítio do padrinho dela, mas seguiram sem o apoio do pai. No sitio em Sapé, foi quando João Pedro iniciou a luta. 
 

Perseguições

O movimento das Ligas Camponesa, surgido no estado de Pernambuco em 1945, se espalhando por boa parte do Nordeste brasileiro na década de 50, foi marcado pela mobilização dos agricultores nas ruas com marchas, comícios e congressos.
 

João Pedro Teixeira tinha cerca de 40 anos quando deixou 11 filhos e uma companheira, que assumiu sua liderança na Liga, dando continuidade à luta pela Reforma Agrária. Com isso, ela foi presa e perseguida durante a ditadura militar. 
 

Quando assumiu a liderança, Elizabeth sofreu diversos atentados de morte. Havia até quem lhe oferecesse dinheiro para abandonar a luta, mas continuou firme, junto às famílias camponesas na luta pela partilha da terra.
 

“Passei seis meses presa no Exército. Quando me liberaram, os militares já me disseram que a Polícia ainda ia me prender. Eu tive que fugir para um estado, o Rio Grande do Norte, onde ninguém me conhecia e fiquei lá todo o tempo da ditadura militar. Trabalhei como lavadeira de roupa. Lá o sol era muito quente e me chamava Marta Maria da Costa”, recorda numa entrevista no V Congresso do MST, em 2007. 
 

A luta não pode parar, como a própria Elizabeth já afirmou. Obrigada a viver na clandestinidade, lavou roupa de ganho, ficou doente por conta da água poluída do rio e passou fome. Mesmo assim não parou. Para sobreviver na cidade de São Rafael, falou com as mães das crianças que viviam pelas ruas, dizendo-lhes que podia ensinar as crianças em troca de comida para ela e o filho Carlos. 


Cabra marcado para morrer
 

Em 1981, o cineasta Eduardo Coutinho, determinado a finalizar o filme “Cabra marcado para morrer” e resgatar a memória e os personagens do movimento camponês dos ano 50 e 60, após uma longa peregrinação e com a ajuda de Abraão, filho mais velho de Elizabeth (que na ocasião já trabalhava como jornalista em Patos/PB), descobre o paradeiro dela. 
 

Após ter finalizado as filmagens no Rio Grande do Norte, Elizabeth abandonou a vida clandestina, assumiu seu verdadeiro nome e voltou para João Pessoa, onde vive até os dias atuais. Na memória de uma mulher marcada para viver, lembranças de uma história construída pela coragem e ousadia de lutar pela justiça, terra e liberdade. 
 

Uma história que acontece em meio a um quadro de fome, opressão, exploração e repressão no campo, quantas Elizabeth Teixeira e quantos João Pedro não lutaram e seguem lutando para que a Reforma Agrária saia do papel?
 

Quantos deles em tempos de cólera não se calaram, reivindicaram melhores condições de sobrevivência para o camponês, não permitindo que a violência, tanto a privada do latifúndio, quanto aquela exercida pelo aparato estatal, sufocasse os ideais da luta camponesa?
 

“Que todos os companheiros que lutam no campo continuem a luta por uma Reforma Agrária justa, que dê condições para sobreviver dignamente no campo, porque era isso que João Pedro dizia: que poderiam tirar a vida dele, mas que a Reforma Agrária iria ser implantada. Eu desejo para todos os companheiros que continuem a luta de João Pedro, que Deus os abençoem e que essa Reforma Agrária seja implantada para todos os companheiros que trabalham no campo, que tem uma vida sacrificada no campo, sem condições financeiras. Que continuem firme com a luta de João Pedro e a minha luta”, afirmou no V Congresso do MST. 
 

Para rememorar os 50 anos do golpe civil-militar, a Página do MST traz uma série de artigos, entrevistas e matérias ao longo dessa semana, que relacionam o papel da Reforma Agrária e das lutas sociais do campo em torno do golpe de 1964.