Por Sarah Fernandes
Da RBA 


Apesar de o uso de máquinas no corte da cana-de-açúcar ter diminuído o desgaste físico dos trabalhadores rurais, aumentou o desemprego e não reduziu problemas como lesões por esforços repetitivos, discriminação das mulheres, baixos salários e alta rotatividade, segundo pesquisa publicada pelo Instituto Observatório Social, que será lançada oficialmente hoje (1º).

 

De acordo com a pesquisa, a inserção de máquinas na colheita da cana diminuiu os casos de trabalho escravo e em condições degradantes, assim como os problemas ambientais decorrentes das queimadas, mas tornou a jornada de trabalho mais intensa: como a remuneração é baixa e os trabalhadores ganham por tonelada cortada, eles dificilmente fazem paradas durante o dia, mesmo para o horário de almoço ou para usar o banheiro e beber água.

 

A principal reclamação dos trabalhadores da colheita mecanizada é que não é possível parar as máquinas. “Eles trabalham por produção: quanto mais toneladas cortam, mais ganham. Então, no tempo que eles estão na jornada tentam diminuir ao máximo as paradas para que possam aumentar a produção e ganhar mais”, diz a coordenadora de pesquisa do Instituto Observatório Social, Lilian Arruda.

 

O estudo, intitulado “O comportamento sociotrabalhista da Raízen”, foi encomendado por uma central sindical da Holanda, a Federatie Nederlandse Vakbeweging (FNV), que queria investigar as condições de trabalho dos cortadores de cana em empresas com capital holandês, caso da Raízen. Os resultados já foram encaminhados para a entidade, que vai se reunir com sindicatos brasileiros para elaborar estratégias que melhorem as condições de trabalho dos cortadores de cana.

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A pesquisa analisou duas unidades da empresa nos municípios paulistas de Ibaté e Ipaussu. No primeiro foram ouvidos 17 homens e sete mulheres que trabalham no corte manual, e nove homens no corte mecanizado. No segundo, foram entrevistados 14 homens do corte com máquinas, já que no município não foi encontrado corte manual. Além disso, foram ouvidos um representante da Raízen e membros de quatro associações trabalhistas do setor.

 

“A empresa coloca à disposição um ônibus com toda uma estrutura de água potável e banheiro, que fica parado. Os trabalhadores de Ibaté contaram que muitas vezes vão no banheiro no próprio canavial, porque muitas vezes o ônibus está longe e, como não podem parar o trabalho, acabam procurando a alternativa mais rápida”, diz Lilian.

 

Segundo o estudo, nem todos os trabalhadores do corte manual são incorporados à colheita mecanizada, que requer menor mão de obra. “O corte mecanizado não vai empregar todo mundo que saiu do manual. Ele não absorve todos os trabalhadores. Não há um levantamento preciso sobre o que acontece com eles, mas acreditamos que muitos vão para o cultivo de laranja e outras culturas”, afirma Lilian.

 

Os trabalhadores reclamaram que falta oportunidade de crescimento na empresa e que nem todos têm oportunidade de ingressar no corte mecanizado. O estudo classificou o trabalho no corte de cana como frágil e instável, já que o trabalhador não tem garantia de que será chamado para trabalhar na próxima safra.

 

“O cansaço dos trabalhadores e trabalhadoras das atividades relacionadas ao corte manual da cana é evidente. Expostos ao sol forte e calor durante todo o dia, com roupas pesadas para se proteger dos riscos que correm e realizando uma atividade extenuante, o esgotamento físico é inevitável”, diz o estudo. “Trata-se de um trabalho exaustivo e perigoso e, se nem sempre escravo, muitas vezes degradante, que leva muitos trabalhadores à invalidez precoce”, diz a pesquisa.


Problemas antigos

Os avanços no setor não conseguiram resolver velhos problemas de trabalho no corte de cana. Em um deles, destacado no estudo, é elevada a quantidade de trabalhadores terceirizados, em principal na unidade de Ibaté. O caso provocou uma ação civil pública do Ministério Público em 2012 contra a empresa, alegando que a colheita é sua atividade-fim e que por isso não pode ser terceirizada, tomando como base a legislação brasileira.

 

A falta de transparência na pesagem e na remuneração da produção também foi um problema apontado: nenhum dos trabalhadores terceirizados soube dizer como é calculado o valor da produção, nem quais os critérios da empresa para medir a produtividade. “Eles não têm muita noção de como é feita a pesagem, do quanto entregam e do quanto a empresa paga por tonelada. É preciso deixar claro para eles quanto produzem e qual o preço da tonelada”, diz Lilian.

 

As mulheres do setor estão em condições mais precárias de trabalho do que os homens, sendo que a pesquisa não identificou nenhuma mulher trabalhando no corte mecanizado de cana-de-açúcar. A empresa declarou não ter nenhum programa para combater a desigualdade de gênero, apesar de sua Política de Desenvolvimento Sustentável pregar que é preciso “oferecer oportunidades iguais a todos os funcionários e candidatos a emprego, promover a diversidade e garantir que não ocorra discriminação”.

 

A principal função das mulheres no setor é recolher o talo da cana-de-açúcar, chamado popularmente de bituca, que é deixado para trás pela máquina na hora do corte. A pesquisa considera que elas são “alijadas das oportunidades de trabalho na colheita mecanizada”, “ganham proporcionalmente menos”, e as atividades que desenvolvem são “menos valorizadas”.

 

“Para o corte manual havia uma diferença física, mas elas não são incluídas no corte mecanizado”, critica a coordenadora de pesquisa do Instituto Observatório Social. “O trabalho mais exaustivo e degradante é exercido por mulheres. Vemos aí uma diferenciação de gênero.”