Por Victoria Darling
Do Le Monde Diplomatique



O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) completou trinta anos de vida e foi motivo de comemoração no seu VI Congresso Nacional. Entre os dias 10 e 15 de fevereiro teve lugar em Brasília o encontro nacional, prestigiado por mais de 15 mil delegados vindos de diversos estados do país.

Ao longo desses trinta anos, o movimento foi crescendo, amadurecendo e conseguiu finalmente situar-se como lente para ler a realidade do campo perante a necessidade de questionar não só o modelo de produção e distribuição agrária, mas também o próprio modelo de desenvolvimento. Sem abandonar as bandeiras do socialismo, o MST é referência regional e internacional de luta contra o modelo latifundiário que sustenta o agronegócio, promovendo e atualizando o debate político existente acerca da importância de pensar numa reforma agrária popular.

Para conhecer o caminho percorrido e os desafios que o movimento ainda tem pela frente, conversamos com Gilmar Mauro, que afirma: “A luta pela terra e a reforma agrária vão muito além da conquista imediata de um pedaço de terra”.

Nascido no município de Capanema, no interior do Paraná, Mauro foi para uma ocupação de terras do MST em 1985. No ano seguinte foi assentado e a partir de então trabalha no campo e na militância. Desde 1994 atua na direção nacional em diversas tarefas, entre elas a formação e a frente de massas.

Nestes trinta anos, quais têm sido as conquistas do MST?

O MST é a organização que mais tempo durou como agrupação camponesa. As outras organizações que existiram no passado foram destruídas, derrotadas em grande parte pela repressão. O golpe militar de 1964 acabou com as Ligas Camponesas, mas também com outros movimentos de luta pela terra. O fato de celebrarmos trinta anos permite resgatar a história da luta pela terra e da reforma agrária no Brasil. Nós somos continuadores de um processo.

Em segundo lugar, conseguimos desde um primeiro momento ter muita clareza do rumo que ia ser seguido. Qual é o rumo? Continuar lutando pela terra, lutar por reforma agrária e pela transformação social. Embora acreditássemos que talvez pudéssemos chegar a uma reforma agrária do tipo clássico, distributivista, marcado pelo produtivismo da época, nunca tivemos dúvidas de que, para realizar a reforma agrária, seriam necessárias alterações na estrutura de poder.

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E alterar a estrutura de poder não é uma tarefa só do MST: é da classe trabalhadora. Sempre acreditamos e tivemos absoluta convicção de que era por meio da luta que iríamos conseguir. Não porque achamos bonito ficar embaixo de barracas... É difícil, é pesado, mas é uma condição que é posta para a classe trabalhadora. E a luta adquire um duplo sentido. Embora a mobilização ocorra em um primeiro momento pela questão econômica, nesse processo transforma-se o sujeito num sujeito político. A luta é um espaço de formação importantíssimo. As pessoas aprendem num dia de luta o que não aprenderam na vida inteira. É elementar, mas é fundamental para despertar a consciência política.

Nós conseguimos construir uma organização para além da luta pela terra, uma organização que inclui ingredientes na área da educação, da comunicação, da produção, entendendo que a luta pela terra e a reforma agrária vai muito além da conquista imediata de um pedaço de terra. Somos sem-terra enquanto houver uma família sem terra no país.

Este ano, em decorrência da Copa e das eleições, experimentaremos uma conjuntura atípica no Brasil. Quais são as potencialidades e as dificuldades para o MST nesse contexto?

Normalmente os anos de eleição são bem difíceis para a gente. Primeiro porque é evidente que, tanto quanto toda a sociedade brasileira, nós também participamos do processo eleitoral. Mas não damos prioridade a isso. Nossa prioridade é a organização interna, a luta. Normalmente, os anos de eleição são difíceis para fazer grandes mobilizações. Muda um pouco este ano em função de o próprio Congresso do MST ter se iniciado com uma mobilização. É uma simbologia interessante para o conjunto da classe trabalhadora.

Em segundo lugar, acho que haverá muitas mobilizações até junho. Ou seja, estamos preparando para abril e maio grandes jornadas de luta. Logo, é possível que existam novas grandes mobilizações em razão dos grandes e novos investimentos que foram feitos para a Copa do Mundo, além de outros problemas que a sociedade toda vem enfrentando: não temos segurança, não temos saúde, não temos educação; não é que não temos, mas é uma saúde precária, uma educação precária. Haverá grandes mobilizações de massa da juventude.

É evidente que nosso movimento vai estar junto. Aliás, acho que são mobilizações que ainda não têm condição de pautar novas formas organizativas, mas são muito importantes. As marchas da juventude mostraram para a sociedade brasileira que são possíveis, por meio de mobilizações, conquistas.

Agora, talvez o grande desafio seja como transformar esse processo de mobilização em processos organizativos consistentes, que avancem numa perspectiva de não só colocar em questão os problemas sociais, econômicos e midiáticos, mas transformar isso numa interpretação profunda da realidade social para elevar a consciência política e avançar num processo mais organizado.

Até o momento das eleições, o MST pode alimentar expectativas com o governo atual? Como está essa relação hoje?

Não. É evidente que, como dirigentes de um movimento social, nós vamos para uma reunião sempre querendo negociar coisas. Uma organização que não responde às necessidades de sua categoria não tem sentido de ser. Então, temos de dar respostas da lona que rasgou, da falta de comida, isso tudo.

Por isso é difícil ser movimento social. Talvez seja mais fácil ser partido; você não gosta da oposição, você briga. Aqui não, você tem de responder ao cotidiano, mas vincular esse cotidiano à reflexão política.

É uma construção de poder popular. Qual seria o poder popular se você não discutir com as localidades? Não há que pensar a transformação social no genérico. Não acredito que haja grandes mudanças na reforma agrária, evidentemente. Agora, vamos lutar, vamos puxar, vamos fazer que haja grandes desapropriações, que haja conquistas, porque elas são importantes e necessárias para nossa categoria. Mas sem criar a ilusão de que vai acontecer a reforma agrária.

O que nós temos até hoje são políticas de assentamento, terra concentrada. O capital concentra grande proporção na agricultura. Uma reforma agrária no Brasil vai depender de um debate com a sociedade. Nesse sentido, o desafio é fazer um debate sobre três questões. A primeira é: que tipo de uso queremos dar ao solo, à água, à biodiversidade e a todos os recursos naturais, inclusive minerais. Nós estamos envenenando o solo, a água, expulsando gente do campo, concentrando riquezas e acabando com a biodiversidade.

A segunda pergunta que devemos nos fazer é: que tipo de comida você vai querer comer? Que tipo de comida a humanidade quer comer? Se for essa, não precisa mais de reforma agrária. Terceira pergunta: que tipo de paradigmas tecnológicos vamos querer usar? Nós defendemos a agroecologia, que não é uma volta ao passado. Nós queremos tecnologia! Tecnologia para termos produtividade, para diminuirmos o sofrimento do trabalho, para termos tempo livre, para podermos estudar, e assim por diante.

Essas três questões, e há outras, nós temos de discutir com toda a sociedade. Porque, se não é isso o que a gente quer, então o que devemos saber é que a reforma agrária é algo moderníssimo, uma mudança de modelo agrícola que não depende só de nós, mas de um debate amplo principalmente com o conjunto da classe trabalhadora. Esse é o grande desafio do próximo período.

Você falou em “poder popular”, e isso se vincula diretamente ao tema do Congresso “Lutar, Construir Reforma Agrária Popular”. Qual seria essa especificidade da natureza popular da reforma agrária que o MST propõe?

Primeiro, não cabe mais uma reforma agrária do tipo clássico no Brasil no sentido que foi desenvolvido na superação da ordem feudalista. Para superar o feudalismo, o próprio capitalismo fez reformas agrárias como forma de estimular o mercado. Não cabe mais, o Brasil já nasceu capitalista. Dois: é preciso pensar num novo modelo agrícola. Não é a reforma agrária do tipo redistributivo-produtivista; nós não temos de concorrer com o agronegócio – “nós somos mais produtivos que vocês”, não é essa lógica: é qualidade de produção. Três: uma reforma agrária depende do apoio e da participação popular. Quatro: em nosso modo de entender, a reforma agrária depende de uma pressão popular muito ampla, de organização da classe trabalhadora. Vai acontecer de baixo para cima, e não de cima para baixo. A reforma agrária é popular porque vai ser construída pelo povo. Claro, nossa vontade era fazer a reforma agrária por conta própria, sem Estado nenhum! Isso esbarra na nossa pouca força. Então a ideia é fortalecer, e nesse tempo de fortalecimento ir fazendo lutas.

Há um processo de institucionalização: lutar, conquistar e institucionalizar as conquistas. Isso tem contradição, se luta contra o latifúndio e se distribui pequenas parcelas; isso tem contradição porque gera pequena propriedade. Mas é melhor essa contradição do que o latifúndio nas mãos de um. Estimular essa construção faz parte de um processo que consolide de fato o poder popular. E aí temos de discutir a localidade, o assentamento no local. Hoje o MST está em mil municípios. Vamos imaginar que nos próximos cinco anos a gente consiga estar em 2 mil, 3 mil municípios brasileiros em articulação com outros setores da classe trabalhadora. Vamos imaginar que um dia resolvêssemos levantar esses 2 mil, 3 mil municípios... Isso altera significativamente a correlação de forças. Não basta ter um bom discurso, boas ideias desvinculadas de ações concretas. Boas ideias, boas ações.

Ainda hoje, quando falamos do MST, focamos apenas a realidade do Brasil, parecendo que a luta é exclusivamente brasileira. O MST é o maior movimento camponês da América Latina e tem uma virtude maravilhosa que poucos outros movimentos têm: unidade. Vocês conseguem resolver internamente diferenças avançando de maneira unificada. Quais são os aprendizados que o MST tem para partilhar com outros movimentos sociais da América Latina?

O primeiro grande aprendizado é o seguinte: é preciso colocar na cabeça de todo mundo que não é meia dúzia de dirigentes que vai fazer mudança social ou reforma agrária. O cara leu três livrinhos e se acha o sabido... Quem vai fazer mudança é a classe trabalhadora! E quanto mais gente se incluir, quanto mais gente participar, quantos mais militantes se ver, muito mais trabalho vai ser feito. Em segundo lugar, não dá para impor as coisas.

Cada um tem a sua visão, não existe verdade absoluta, mas muitas verdades, e as muitas verdades, construídas historicamente, precisam ser ditas. Em terceiro lugar, e nesse sentido sou gramsciano, acredito que o intelectual é coletivo, então, o processo vai ser de baixo para cima − a classe trabalhadora tem de ser a protagonista. A tarefa é de organização. Nós não vamos fazer a reforma agrária pelo sem-terra. É o sem-terra organizado que vai fazer a reforma agrária. E eu sou da opinião de que é melhor um erro cometido coletivamente do que o melhor acerto do melhor comitê central – isso já disse Rosa Luxemburgo.

É possível considerar que a classe trabalhadora na América Latina tem particularidades comuns vinculadas à sua trajetória histórica. O MST tem a América Latina como patamar específico de luta?

Não necessariamente, mas é nossa prioridade de atuação, com certeza. Porque é nosso continente, um continente que foi explorado e colonizado no mesmo período. É evidente que existem particularidades da língua, mas em geral nós sofremos os mesmos problemas históricos e atuais. Principalmente, sabemos que é um continente onde ainda existe uma quantidade muito grande de camponeses, indígenas e, portanto, uma força muito grande enquanto categoria.

É evidente que a prioridade é a América Latina, mas nosso sonho é tentar construir – vamos sonhar alto aqui! – uma Internacional para além da Via Campesina. A Via Campesina é um espaço importante, mas como é que a gente avança num espaço que possa aglutinar outros setores da classe trabalhadora na luta internacional?

Qual é a mensagem que você quer dar para a sociedade nacional e internacional como resultado do VI Congresso Nacional?

Uma simbologia nós mostramos na marcha: lutar. Tem de lutar. Precisamos debater com a sociedade porque, sem a participação dela, o MST nem tem sentido e não vamos conseguir avançar na reforma agrária. Nós sobrevivemos esses trinta anos graças à solidariedade do nosso país e da comunidade internacional. Passamos momentos difíceis com o governo Collor, depois com o Fernando Henrique. Eu quero em nome do MST agradecer toda essa solidariedade empenhada nesse período. Nós não precisamos de muita coisa, só precisamos uns dos outros.

Então, não há como avançar em outra perspectiva se não caminharmos juntos com nossas diferenças. Uma verdade absoluta não há, nem uma única teoria; há muitas, mas temos de construir ingredientes comuns, ações comuns, e tocar adiante. Quero por isso agradecer em nome do MST a todo mundo que ajudou e que continua nos ajudando. Vamos precisar de muita ajuda no próximo período, e também contem com nossa solidariedade.


* Victoria Darling é doutora em Ciências Políticas e Sociais pela Universidad Nacional Autónoma de México e professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).