Por Guilherme Costa Delgado
Para o Brasil de Fato


Analisar este setor de atividade da maneira convencional, qual seja pela medição e comparação dos fluxos de produção das cadeias agroindustriais que vendem insumos ou processam primariamente a produção oriunda da agropecuária é uma forte tentação do mundo empírico, que, contudo leva a problemas de interpretação.

Recentemente o IBGE divulgou um comparativo de crescimento da “Indústria” e da “Agroindústria” entre 2002 e 2013 (www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/industria/pimfagro-novo), indicando uma estagnação da ‘agroindústria’ nos últimos seis anos, principalmente em 2013, que apresenta queda de 0,2%.

Por outro lado, é importante destacar dois fatos e omissões que estão por trás dessa informação do IBGE:1- a maior parte dos insumos agrícolas -fertilizantes, agrotóxicos e combustíveis líquidos do petróleo são no presente  demanda da agropecuária por importações e não para a indústria interna; 2) há  certo declínio de preços externos de ‘commodities’ no período sob análise; 3) a dinâmica da economia do agronegócio estará incompleta se nos restringirmos aos fluxos de produção medidos pelas estatística oficiais do IBGE (Agroindustria) ou do Ministério da Agricultura (Agronegócio), este último incluindo toda a produção primária.

A noção de agronegócio ou agroindústria como setor de atividade, embora seja útil empiricamente é limitada, porque não nos permite ir ao fundo da dinâmica de economia política deste ‘setor’. Por essa via iríamos interpretar o setor como irremediavelmente em crise econômica.

Por sua vez, a conexão política dessa economia revela-nos, diversamente, em pleno domínio expansivo em dois campos que lhes são essenciais, mas que não entram nas medições empíricas da ‘agroindustria’ ou do “agronegócio’ : a) o acesso a crédito público subvencionado e b) a apropriação de renda fundiária, sob várias formas, propiciada pela política agrária.

Do primeiro campo – o crédito rural subvencionado, os dados de 2011 e 2012 do Banco Central ( os últimos publicados no Anuário Estatítico do Crédito Rural), revela-nos crescimento real respectivamente de 5,6% e 15,0%, situado na média dos últimos 14 anos, que é acima dos 9,0% a.a. Em 2013 e certamente 2014, que é ano eleitoral, não há nenhuma evidência de diminuição do fluxo do crédito rural, antes pelo contrário.

Por “sua vez, o mercado de terras continua muito valorizado, senão pelo ‘boom’ das commodities”, ora parcialmente arrefecido, mas pela generosa irrigação de dinheiro de crédito subvencionado,  por um lado (valoriza a terra diretamente pela dívida hipotecária); e agora pelos programas de infraestrutura do PAC.

Segundo nos informa o Caderno de Economia de “O Estado de São Paulo (10-03-2014 – p. B6), é agora o eixo da infraestrutura em construção ou projetada no Norte e no Centro-Oeste a principal fonte de valorização da terra. Este ativo em 2013 seria o mais valorizado entre todos os ativos financeiros, equiparando-se ao dólar (incremento real dede 15% a.a.).

Finalmente uma pequena advertência. Há evidentemente efeitos negativos da queda de preços das ‘commodities’, como também dos fenômenos climáticos adversos sobre a agricultura. Mas isto na história econômica da chamada burguesia agrária brasileira sempre foi administrado com apelo aos subsídios públicos.

Parece-me ser este o caminho que a economia do agronegócio ora trilha e voltará a trilhar mais incisivamente nos próximos anos, quando aumentarem as pressões baixistas das ‘commodities’: maior captura de subsídios fiscais e financeiros do Estado e novas formas de apropriação da renda fundiária, sob o efeito dos investimentos públicos de infraestrura viária e liberalidade da política agrária.

Em resumo, o pacto de poder do agronegócio não está em crise política, mas plenamente articulado no Estado para capturar fatias da renda social no ‘boom’ econômico como também na crise. Até quando?

Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.